Eleições no Reino Unido – O que está por trás da vitória eleitoral de Jeremy Corbyn? líder do Partido Trabalhista

Esse é o segundo de uma série de artigos sobre as últimas eleições gerais no Reino Unido. O primeiro artigo pode ser lido aqui.

Neste segundo artigo, apresento o líder do Partido Trabalhista, Jeremy Corbyn, aponto algumas razões para sua vitória parcial e o movimento político que lhe dá sustentação – o Momentum.

Apesar de ter aumentado a participação do partido no Parlamento, Jeremy Corbyn não conseguiu votos suficientes para formar maioria e, por isso, sua vitória é apenas parcial. A conservadora Theresa May segue como Primeira Ministra, mesmo tendo perdido assentos no Parlamento, graças a uma coalizão com Democratic Unionist Party da Irlanda do Norte.

  1. Jeremy Corbyn e a esquerda que não diz o seu nome

 Make June the end of May” foi o mantra de campanha eleitoral do Partido Trabalhista, liderado por Jeremy Corbyn, um sujeito tão fora do espectro político convencional britânico que não há exagero em afirmar que seu principal adversário até recentemente era o seu próprio partido. Contestado internamente diversas vezes, Corbyn assumiu a liderança do partido em setembro de 2015 e, desde então, iniciou um processo de suavização do discurso. Ainda assim, graças à internet, onde os registros são quase impossíveis de serem apagados, é possível identificar exatamente quem é e o que pensa Jeremy Corbyn: é a favor da nacionalização dos serviços postais e ferrovias, de empresas de energia e água; pacifista a qualquer custo, carrega o sonho infantil de um mundo sem armas nucleares; admirador de Hugo Chavez e Fidel Castro; feroz opositor de Trump, chegou a pedir o cancelamento do convite oficial de visita de Estado feito ao presidente americano; tem o dom especial de se posicionar invariavelmente do lado imoral da história: em uma oportunidade chamou o Hamas e o Hezbollah de “meus amigos”, além de ter participado de eventos organizados por braços da Irmandade Muçulmana na Europa e ser um severo crítico de Israel. E, para coroar essa maravilhosa lista de tolices, carrega ainda o selo Noam Chomsky de aprovação.

  1. Corbyn e o Brexit

Corbyn, assim como Theresa May, fez campanha pelo remain no referendo do Brexit. Naquela que seria as eleições do Brexit, o máximo que Corbyn pode argumentar contra sua adversaria é que o que ela esperava era um cheque-em-branco da população para poder conduzir as negociações com a União Europeia, sem transparência e sem a voz atuante do Parlamento. O que parecia ser um discurso fraco, tomou certa força com a ajuda da mídia – que foi quase unânime na defesa do voto remain. A grande mídia inventou que havia um hard e um soft Brexit. No fundo, ninguém sabia o que isso queria dizer de fato. Corbyn correu para se posicionar por um soft Brexit – tentando se mostrar como um moderado. Theresa May nunca se posicionou claramente sobre hard e soft – o que nem poderia, porque no fundo era apenas um jogo de palavras com apelo ao imaginário. Mas como manteve uma posição firme, de que ela era a líder certa para conseguir o acordo certo e que Corbyn era fraco e não tinha capacidade de negociar um acordo benéfico para o Reino Unido, a mídia conseguiu impingir nela a face do hard Brexit. Esse foi um dos principais fatores que permitiram Corbyn conquistar votos de outros partidos pequenos que eram contra o Brexit.

  1. Momentum e a velha política esquerdista

Mas sua vitória não foi resultado apenas de uma suavização do discurso e da exploração retórica de um soft Brexit. Seu crescimento, assim como acontece com quase tudo na política, é fruto de um trabalho de bastidores que passa “despercebido” pela grande mídia – e, portanto, do grande público. Jeremy Corbyn tem apoio do Momentum, uma espécie de Podemos (Espanha) inglês. O Momentum foi criado justamente após Jeremy Corbyn assumir a liderança do Partido Trabalhista. Enquanto grande parte do partido queria Corbyn fora da liderança, o Momentum foi o principal fiador de Corbyn, assegurando a sua posição.

Momentum em manifestação contra a Guerra da Síria (Fonte: Momentum)

Para compreender o fenômeno Corbyn e seus apoiadores, é necessário fazer uma recapitulação da história recente do Partido Trabalhista.

O Partido Conservador governou o Reino Unido entre 1979 (com a primeira eleição de Margaret Thatcher) e 1997, quando Tony Blair torna-se o Primeiro Ministro acabando, com 18 anos de supremacia conservadora (a mais longa do século XX). A retomada do poder pelo Partido Trabalhista foi fruto de uma reformulação da diretriz política que ficou conhecido como New Labour. O Partido Trabalhista se reformulou, propondo políticas mais modernas, mais próximo a uma social democracia, se distanciando das políticas classistas e dos sindicatos e abandonando projetos de reestatização de empresas. O New Labour foi, sem dúvida, um sucesso político. O novo Partido Trabalhista ficou 13 anos no poder, até 2010, quando os Conservadores assumiram o governo numa coalisão com os Liberais Democratas.

Apesar do sucesso, o New Labour deixou muitos esquerdistas mais radicais órfãos. Jeremy Corbyn e o Momentum representam uma ruptura com o New Labour e um retorno àquelas velhas políticas radicais: reestatização, aumento dos gastos públicos e a promessa de muitas benesses e serviços públicos gratuitos.

No vocabulário político inglês, grassroots movement significa um movimento político popular, de “raiz”, construído desde baixo, espontâneo, sem a direção de uma instituição política estabelecida – ainda que possa estar vinculada a ela. É assim que o Momentum se apresenta e é assim que é definido pela mídia inglesa. Com críticos dentro e fora do Partido Trabalhista, o movimento cresceu bastante desde a ascensão de Corbyn à liderança e, só agora, quando sua influência não pode mais ser ignorada, começa a receber alguma atenção da mídia britânica.

Na mídia brasileira, em algumas poucas matérias sobre Corbyn, todas com viés de exaltação ao novo emissário da justiça social, mencionam o Momentum de passagem. Em uma reportagem do Financial Times, reproduzida no site da Folha, dá a entender que o Momentum é apresentado como uma espécie de ferramenta de internet responsável pelo sucesso de Corbyn nas mídias sociais:

Em reportagem da agência de notícias internacional EFE, reproduzida pelo UOL, o Momentum é apenas citado como um grupo militante que apoiou o ‘líder que recolocou a legenda no espectro da social-democracia, após guinada à direta de Tony Blair’. Sem dúvida Tony Blair deu uma ‘guinada à direita’. E foi esse movimento que levou o Partido Trabalhista à socialdemocracia, e não a guinada à esquerda de Corbyn que aproximou o partido a uma política corporativa sindicalista, com nacionalização da economia, mais próxima do fascismo – que eu carinhosamente chamo de ‘o socialismo possível’.

Por fim, o El País Brasil, o mais competente jornal eletrônico de esquerda do Brasil, traz um bom perfil do Momentum e faz uma boa análise dos futuros desafios de Corbyn.

Sem dúvida Jeremy Corbyn foi o principal vencedor das eleições. Sentenciado antecipadamente como politicamente morto antes das eleições, ele finalmente conseguiu consolidar sua liderança no Partido Trabalhista e fazer crescer o movimento que lhe dá suporte. Ainda, pôs o Partido Conservador contra a parede. Por fim, adquiriu confiança no seu discurso, cujo resumo perfeito é a música “Imagine” de John Lennon.

‘Imagine’, Corbyn e Momentum (Fonte: Jeff J Mitchell/Getty Images)

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