O PSDB em 2018: esquerdista pra valer e sem voto

O PSDB nunca escondeu sua linha doutrinária esquerdista. Quem o botou artificialmente na “direita” foi o PT, que sempre foi eficiente em vender suas narrativas políticas. Na oposição ao governo de Fernando Henrique Cardoso, Lula e seus companheiros souberam pespegar no tucanato a pecha de “neoliberal”, aquela palavrinha desprovida de sentido prático mas que está na boca de todo professor de sociologia.

Em 2014, em um encontro de intelectuais no Rio de Janeiro, o próprio FHC afirmou, em tom inconformado, que era de esquerda, ainda que ninguém acreditasse. Não é verdade: eu acredito, ex-presidente! Assim como acredito no esquerdismo de José Serra, no esquerdismo José Aníbal, no esquerdismo de Alberto Goldman e no esquerdismo de outras importantes figuras do PSDB. Lula e seus companheiros nunca me enganaram.

O cenário eleitoral de 2018 é a chance ideal para o partido se reencontrar com sua própria história, restabelecendo o fato de que é um herdeiro socialista da tradição marxista europeia. Também tem a chance de purgar seu próprio eleitorado, livrando-se de conservadores e liberais que votavam em seus candidatos por falta de opção. Verdade seja dita: o PSDB se envergonha de ter essa base apoio. No lugar da classe média reacionária, sonhava em ter uma CUT para chamar de sua. Sempre olhou com inveja para o PT, que lhe tomou a proa do esquerdismo nacional.

Com Lula buscando o discurso de 1989, no esforço de atiçar sua militância radical, Jair Bolsonaro sendo a opção preferencial de boa parte dos mais conservadores e Michel Temer ocupando o centro com um pé no liberalismo econômico, sobra ao tucanato o lugar que lhe é devido: o do progressismo soft.

Com esse objetivo, o movimento “PSDB Esquerda Pra Valer” já começou a se mobilizar. No próximo dia dois de dezembro, realiza um ato intitulado “Manifesto de Convergências pela Democracia e Direitos Humanos, um troço que, pelo nome, poderia ter sido organizado pelo PSOL. Segundo a descrição do evento, que receberá Eduardo Suplicy, Eduardo Jorge, José Serra, José Gregori, Aldo Rebelo, entre outras lideranças, vivemos um momento onde “a pauta autoritária e conservadora avança ao redor do mundo”.

O único eleitorado que o tucanato sempre teve foi o de centro-direita. E esse eleitorado agora se esvai, não apenas com o surgimento de Bolsonaro, mas também com outras pré-candidaturas de cunho liberal, como Henrique Meirelles, Paulo Rabello de Castro e João Amoedo. Todos eles disputam o mesmo segmento ideológico. Por outro lado, os votos esquerdistas são fiéis ao PT e a outras siglas microscópicas. No esforço de abraçar sua natureza, o PSDB vai acabar tendo como público apenas o pessoal sofisticado que frequenta as reuniões do movimento “PSDB Esquerda Pra Valer”. Isso, é claro, se essa gente não acabar votando na Marina Silva.

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