A esquerda britânica trabalha para impedir o Brexit: entenda algumas das estratégias

Ampliar o poder do Momentum através de perseguições políticas e espalhar Fake News com auxílio da grande mídia são algumas das estratégias da esquerda britânica para desmoralizar o voto popular e frear o Brexit. A cartada final será a convocação de um segundo plebiscito.

O Brexit pode não ocorrer. A esquerda britânica está disposta a fazer de tudo para reverter a decisão da maioria da população do Reino Unido, tomada no referendo de junho de 2016, quando 51,89% dos eleitores optaram por deixar a União Europeia.

Por um lado, o Momentum, movimento radical de ideologia marxista e internacionalista, continua a aumentar sua influência dentro do Partido Trabalhista, preparando-o para se opor ao acordo com a União Europeia -qualquer que seja.

Por outro lado, a grande mídia continua fornecer cenários econômicos catastróficos para um pós-Brexit, tentando convencer a opinião pública de que a escolha democrática pela emancipação política foi um tremendo erro. A novidade agora é uma enxurrada de ‘fake news’ que buscam deslegitimar o referendo questionando a sua legalidade. O caso “Cambridge Analytics”, ainda que não tenha tido o impacto esperado, é um exemplo de que a esquerda britânica, em conluio com os líderes internacionalistas e a grande mídia, fará qualquer coisa para reverter a decisão da maioria da população e subjugar a democracia quando ela contraria seu projeto de poder.

Um novo referendo

Ainda que figuras importantes da direita britânica tenham se engajado fortemente na campanha contra o Brexit antes do referendo – como foi o caso da própria Primeira Ministra Theresa May – e algumas outras, mesmo após o referendo, não perdem nenhuma oportunidade de manifestar abertamente a sua contrariedade.

O Partido Conservador, bastião da direita no Reino Unido, assumiu o compromisso de deixar a União Europeia, com acordo ou sem acordo. Sem dúvida a posição assumida pelo Partido Conservador é a mais penosa. O voto a favor do Brexit não teve motivação tão coesa quanto o voto para permanecer, e chegar a um acordo com a União Europeia que satisfaça todos aqueles eleitores é uma tarefa impossível. Existem mil maneiras de desfazer um acordo, mas apenas uma de mantê-lo. O desgaste é inevitável.

A esquerda, representada pelo Partido Trabalhista e pelo Partido Liberal Democrata, de forma muito perspicaz, se aproveita dessa situação, explorando as insatisfações particulares dos diferentes tipos de eleitores que formaram o voto pelo Brexit.

Essa situação se reflete sobre o Parlamento. No Reino Unido impera o voto distrital. Com isso, interesses regionais ganham maior relevância.  As regulações impostas pela acordo de livre comércio da União Europeia teve enorme impacto em economias locais, restringindo e empurrando pequenos produtores e comerciantes para fora do mercado. Um acordo de saída da União Europeia inevitavelmente envolverá concessões do governo britânico e com isso algumas dessas regulações deverão permanecer como contrapartida para um novo acordo comercial com o bloco. O resultado é que alguns distritos favoráveis ao Brexit podem vir a ser contrários ao acordo final, influenciando os parlamentares representantes dessas regiões, sejam eles trabalhistas ou conservadores.

Não obstante, insatisfações pontuais contra o acordo final advindas de dentro do Partido Conservador não seriam motivo suficiente para impedir o Brexit. A esquerda, contudo, tem outros planos. A estratégia que tem mais chance de sucesso é a de convocar um segundo referendo. Essa seria uma posição “intermediária” que poderia seduzir alguns parlamentares conservadores. Quando questionados a respeito, representantes trabalhistas não negam a possibilidade de eventualmente apoiar um novo referendo. Foi o caso de Tom Watson, importante líder trabalhista dentro do Parlamento, em recente entrevista ao jornalista Andrew Marr. Assim, os trabalhistas deixam aberta a possibilidade caso a conjuntura política lhes dê a chance. Claro que restaria ainda enfrentar a resistência dentro do próprio Partido Trabalhista. Mas Jeremy Corbyn e seus seguidores sabem muito bem como fazer isso.

Momentum Cresce de Golpe em Golpe

De golpe em golpe, o Momentum catapulta adversários políticos dentro do próprio Partido Trabalhista. Aos poucos o movimento vai consolidando o controle sob o Partido Trabalhista, amparado por seu líder Jeremy Corbyn. Claire Kober (foto) do distrito de Haringey foi a primeira. Em janeiro, ela renunciou ao cargo após o Momentum atingir votos suficientes para minar sua base política no distrito. Após anunciar a renúncia, Claire, que já havia resistido uma primeira tentativa de golpe no final de 2017, disse ao Evening Standard que “o sexismo, o bullying, o comportamento antidemocrático e os ataques pessoais dirigidos a mim como a mulher mais graduada do governo trabalhista me deixaram desapontada e desiludida”.

No início de março foi a vez do prefeito do distrito de Newham, Sir Robin Wales. Com mais de 20 anos de experiência no cargo, Sir Wales foi preterido na eleição interna e não concorrerá à reeleição. Rokhsana Fiaz, a nova candidata, foi apoiada publicamente pelo fundador do Momentum, Jon Lansman.

Outro a sofrer uma tentativa de golpe foi Simon Hogg, líder do partido trabalhista em Wandsworth, considerado como ‘moderado’. O Evening Standard teve acesso aos áudios de uma reunião privada de ativistas do Momentum em que discutiam táticas para catapultar Hogg do cargo. Um dos ativistas diz: ‘não se esqueçam que vocês são Momentum, vocês ainda podem fazer campanha contra um trabalhista’.

Claire Kober

Claire Kober acusa sexismo e comportamento antidemocrático no Partido Trabalhista (Foto: The Times)

Outra tática usada pelo Momentum que vem sendo denunciada na mídia pelos trabalhistas moderados é a implementação de conselhos regionais para escolha dos candidatos. Uma medida aparentemente democrática é, na verdade, um golpe do Momentum que se apressa em ocupar os Conselhos e manipular as indicações.

Alarmismo: o papel da mídia e Cambridge Analytica

Mesmo antes do referendo, a participação da grande mídia no debate sobre um possível pós-Brexit foi, com algumas raras exceções, a de profetizar o apocalipse. Existe uma imensidão de exemplos nesse sentido.

É bastante ilustrativa a matéria do Telegraph de março: “Trabalhadores britânicos são ‘mais preguiçosos e mais caros’ que imigrantes”. (Não é preciso dizer qual seria a reação da intelligentsia caso a matéria fosse “trabalhadores imigrantes são mais preguiçosos que britânicos”). Na matéria, lê-se que, com a queda da imigração, a economia britânica seria menos produtiva, a população da Irlanda e do País de Gales deve decair, e o impacto na proporção entre jovens e idosos vai reduzir o crescimento econômico.

Matérias alarmistas como essa são recorrentes na mídia britânica. O caso Cambridge Analytica, porém, foi mais fundo na lama. Cambridge Analytica é uma empresa canadense de análise de dados que presta consultoria para campanhas políticas, traçando o perfil de eleitores, a fim de potencializar o impacto da publicidade. A empresa trabalhou para a campanha presidencial de Donald Trump e, na Inglaterra, para o grupo BeLeave, um dos grupos que fez campanha em favor do Brexit. Segundo denúncia do ex-diretor de pesquisa da companhia, Christopher Wylie, a empresa teria utilizado dados pessoais de perfis de Facebook adquiridos de forma supostamente ilegal, sem o consentimento ‘explícito’ dos usuários. O Guardian noticiou como se fosse um apocalipse. Mas como bem lembrou Ben Shapiro, comentarista conservador americano, o mesmo Guardian se derramou em elogios aos marqueteiros de Obama quando ele foi eleito presidente utilizando o mesmo expediente.

Até aqui, nada demais. Porém, na sequência desse escândalo, Shahmir Sanni, que trabalhou como voluntário para os grupos Vote Leave e BeLeave, denunciou um suposto esquema de manipulação de gastos de campanha. As regras eleitorais no Reino Unido determinam um teto de gastos para os diversos grupos registrados. Segundo Sanni, os dois eram distintos formalmente, mas na prática funcionavam como o mesmo grupo. Ou seja, o BeLeave seria apenas um grupo de fachada com propósito de compartilhar os fundos de campanha de maneira que o teto não fosse ultrapassado. Os documentos que comprovariam essa acusação teriam sido destruídos. A única ‘prova’ que a mídia conseguiu para sustentar a história é um pendrive contendo arquivos de campanha que foi utilizado pelos dois grupos.

Ainda que as manchetes fantasiosas tenha repercutido em todos os veículos de mídia por algum tempo, a história agora esfriou porque, além do risível pendrive, nenhuma prova foi encontrada. Todavia, o caso é ilustrativo. A extensão da cobertura foi absolutamente desproporcional com os fatos apresentados. Mais um claro exemplo de Fake News como instrumento de manipulação política.

Falta combinar com os Russos

Enquanto o Momentum e a mídia conspiram por trás dos panos, algumas figuras públicas não escondem que trabalham para impedir o Brexit. Tony Blair, ex-Primeiro Ministro trabalhista, recentemente afirmou que as chances de reverter o Brexit aumentaram e acrescentou: “é absolutamente necessário que o Brexit não aconteça”.

Theresa May, por sua vez, continua a sua maratona para alcançar um acordo para o Brexit, ainda que com alguns tropeços. A escalada dos conflitos entre o bloco europeu e a Rússia de Vladimir Putin – reacendida depois da tentativa de assassinato do agente-duplo russo Sergei Skripal e intensificada pela situação geopolítica no Oriente Médio – fez amenizar temporariamente as diferenças político-econômicas entre os líderes europeus. As trocas de farpas deram lugar as declarações de solidariedade e apoio mútuo. As negociações entre Theresa May e os representantes da União Europeia agora se dão em tom mais amistoso e a evolução das tratativas é evidente. O beijo gracioso de Michel Barnier (foto), chefe das negociações para o Brexit da União Europeia, foi um sinal público de mudança de postura. Além do mais, o Partido Conservador conseguiu um excelente resultado nas eleições locais no início do mês de maio, freando o crescimento do Momentum e do Partido Trabalhista.

O beijo da trégua – Michel Barnier surpreendeu Theresa May e a mídia com um gesto simbólico que sinalizou a mudança de postura entre o governo britânico e a União Europeia (Foto: Evening Standard)
O beijo da trégua – Michel Barnier surpreendeu Theresa May e a mídia com um gesto simbólico que sinalizou a mudança de postura entre o governo britânico e a União Europeia (Foto: Evening Standard)

O destino do Reino Unido continua nas mãos do Partido Conservador. Apesar de todas as dificuldades, o pior momento do governo de Theresa May parece ter ficado pra trás. Se a Primeira Ministra conseguir manter o seu partido minimamente unido e evitar grandes polêmicas, é pouco provável que o plano escuso da esquerda prospere. Caso contrário, o Momentum e a mídia estarão prontos para boicotar o Brexit e escurecer ainda mais o cenário já nebuloso.

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