Greve dos caminhoneiros – Parte 1: causas da paralisação

Boletim Econômico

A greve dos caminhoneiros alterou significativamente o cotidiano dos cidadãos brasileiros neste mês de maio. Seus efeitos não ficaram restritos somente aos dias de paralisação, mas continuarão a reverberar sobre toda a economia nos próximos meses. Diante da importância e da complexidade desse tema, as análises sobre os principais pontos necessários à compreensão desse evento serão separadas em dois artigos. Esse, o primeiro da série, tem o objetivo de explicar quais foram as causas que desencadearam nesse movimento.

Entre as diversas reivindicações apresentadas pelos caminhoneiros, duas se destacaram: a redução do preço do diesel e o estabelecimento de um preço mínimo para o valor dos fretes. Com relação ao primeiro, convém analisar a evolução dos preços dos combustíveis praticados na ponta (postos) ao longo dos últimos anos no Brasil. O gráfico abaixo mostra o valor médio da gasolina e do diesel nas revendas, de acordo com os dados da Agência Nacional do Petróleo (ANP).

Evolução do preço médio mensal por litro da gasolina e do diesel nas revendas – Brasil

Fonte: ANP.

Os valores supracitados, no entanto, embutem a variação dos preços ao longo do tempo. Para eliminar essa distorção e tornar a comparação mais acurada, basta corrigir a série por algum índice de inflação, como o IPCA. O resultado pode ser conferido no gráfico abaixo.

Evolução do preço médio mensal por litro da gasolina e do diesel nas revendas – deflacionado pelo IPCA acumulado até abril/18 – Brasil

Fonte: ANP.

Essa era a situação antes da paralisação, que deflagrou o movimento dos caminhoneiros. Note que o preço do diesel estava se aproximando do seu pico, de R$ 3,723, gerando a insatisfação da classe. Com relação à gasolina, apesar dos aumentos recentes, o valor do litro estava próximo à média histórica, de R$ 4,26. Todavia, os reajustes promovidos nas últimas semanas pelos postos elevaram seu preço para, em média, R$ 4,61 na última semana de maio.

Diante desse movimento, é possível afirmar que o valor cobrado pelo diesel no Brasil é abusivo frente a outros países? A alternativa para responder a essa pergunta, ainda que de maneira imperfeita, envolve a conversão do preço do diesel em cada uma das moedas locais para uma mesma unidade: o Dólar americano. Apesar de todas as nações terem acesso ao petróleo (matéria prima) com o preço internacional dado pelo mercado, os impostos e os subsídios implícitos refletem as diferenças existentes no que tange ao valor no varejo praticado em cada localidade. De acordo com as estatísticas da Global Petrol. Prices, o valor do diesel no Brasil (média de US$ 0,88 nos últimos 4 meses) é substancialmente inferior à média mundial nesse período, de US$ 1,41. Além disso, o movimento de encarecimento dos combustíveis nos últimos meses não está restrito somente ao Brasil, mas é global.

Preço do diesel por litro no varejo em países selecionados – Em dólares

Fonte: Global Petrol Prices.

Apesar do forte aumento do custo do diesel no Brasil medido em Reais nesse período, seu valor em Dólares não subiu tanto, por conta do encarecimento da moeda americana no período. Ou seja, a alta percebida pelos consumidores, em um momento de lenta recuperação da renda e da atividade econômica como um todo, foi um dos estopins da greve dos caminhoneiros.

Por que os combustíveis aumentaram tanto recentemente?

A causa está atrelada a reorientação da política de preços da Petrobras, que estabeleceu, a partir de julho do ano passado, que o valor dos combustíveis estaria vinculado à taxa de câmbio, à cotação do barril de petróleo e à participação da empresa no mercado global. Até o governo Dilma, os combustíveis eram subsidiados, ou seja, com preços menores do que normalmente seria determinado pelas condições de livre-mercado. Perceba no gráfico abaixo: entre 2003 e 2016, os preços médios do litro da gasolina e do diesel variaram muito menos do que a inflação acumulada no período.

IPCA, preço da gasolina e preço do diesel – variação acumulada entre 2003 e 2016 – %

Fonte: IBGE e ANP.

Diante da piora de seus fundamentos financeiros, dos escândalos de corrupção da “Lava-Jato”, do agravamento da crise econômica e de uma série de investimentos ruins, a gestão de Pedro Parente reestruturou a empresa para evitar sua falência. Entre as medidas estava a nova política de preços, com ajustes diários baseados nas três variáveis supracitadas. Contudo, a conjuntura recente, que aliou desvalorização cambial e alta do barril de petróleo, provocou a insatisfação dos caminhoneiros. O gráfico a seguir mostra como o preço do diesel passou a acompanhar a cotação do barril de petróleo a partir de julho, quando a política foi instituída.

Preço do petróleo tipo Brent (US$) e do litro do diesel nas revendas do Brasil (R$)

Fonte: U.S. Energy Information Administration e ANP.

Por que o Dólar e o barril de petróleo estão mais caros?

O Dólar vem se tornando mais caro em relação ao Real por conta de um movimento global de aumento de juros nos Estados Unidos. A economia americana, que já vinha crescendo próximo ao seu potencial, deverá acelerar ainda mais por conta da reforma tributária aprovada pelo Congresso. Além disso, a concretização de uma guerra comercial com a China atuará para tornar o mercado mais fechado, restringindo a concorrência em diversos produtos. Esses dois eventos pressionam a inflação nos EUA, o que leva a uma taxa de juros naturalmente mais alta para desaquecer a economia e, consequentemente, desacelerar a inflação. No âmbito doméstico, a própria greve dos caminhoneiros, com impactos contracionistas sobre o PIB, as incertezas sobre a corrida eleitoral e o preocupante quadro fiscal também pressionam a cotação para cima.

Por sua vez, o barril de petróleo, que valia US$ 46 dólares no fim de junho de 2017, alcançou US$ 78 no fim do mês passado. Entre as causas dessa alta estão as projeções de sólida demanda pela commodity nos próximos anos, os riscos geopolíticos no Oriente Médio e o colapso da Venezuela, país com grande quantidade de reservas de petróleo.

O Brasil não é autossuficiente em Petróleo? Por que não estamos imunes a crises desse tipo?

Apesar de ser um grande produtor de petróleo bruto, o Brasil não tem capacidade de refinar todo o combustível demandado pela economia. O restante é importado de outros países. Segundo a ANP, 12,5% da gasolina e 24,7% do diesel consumidos nacionalmente vêm de fora do Brasil. Como toda a compra realizada no exterior é feita em moeda americana, o custo é maior aumentando em situações de Dólar mais caro.

Por que o preço dos combustíveis é estruturalmente alto no Brasil?

Em primeiro lugar porque a carga tributária sobre a gasolina e sobre o diesel é elevada, conforme a abertura dos dados abaixo.

Formação do preço do diesel e da gasolina – Distribuição %

Fonte: ANP.

Outras justificativas, assim como suas propostas para ajudar a amenizar esse problema, foram apresentadas pelo CADE – Conselho Administrativo de Defesa Econômica. O estudo pode ser acessado aqui.

Por que o frete caiu tanto e os caminhoneiros exigiram tabelamento?

As políticas da ex-presidente Dilma foram calcadas na concessão de uma série de incentivos e benefícios ao setor produtivo para acelerar o crescimento do PIB. O Pró-caminhoneiro, por exemplo, garantia juros muito baixos e condições de pagamento facilitadas visando renovar a frota. Esse artificialismo de crédito, porém, gerou um sinal equivocado para os agentes econômicos, dada a inexistência de fundamentos que justificassem a aquisição em massa de caminhões. O excesso de oferta resultante coincidiu com o momento de retração da demanda causada pela maior crise econômica em mais de um século da economia brasileira entre 2015 e 2016. Pela lei da oferta e da demanda, toda vez que a primeira supera a segunda, o preço cai.

O gráfico abaixo mostra a acentuação da diferença entre a oferta e a demanda de caminhões no Brasil, especialmente nos últimos anos. A primeira variável representa o tamanho da frota, enquanto a segunda reflete o fluxo de veículos pesados transitando nas rodovias brasileiras. Apesar da retração da atividade econômica, que causou a diminuição dos caminhões em circulação, a frota seguiu aumentando.

Oferta (tamanho da frota de caminhões) X Demanda (fluxo de veículos pesados transitando nas rodovias brasileiras) – Variação % em relação ao ano de 2001

Fonte: CNT e ABCR (em parceria com Tendências Consultoria)

Considerações finais

Erros sucessivos de política econômica ao longo dos últimos anos e a conjuntura desfavorável criaram as condições que culminaram na greve dos caminhoneiros. A política de preços subsidiados da Petrobras para os combustíveis mascarou durante muito tempo o custo pago pela empresa, sob a forma de maior dívida e valor de mercado mais baixo.

Os agentes econômicos acostumaram-se com combustíveis mais baratos do que aqueles que vigeriam sob as leis de mercado. Bastou a reversão do cenário favorável, a partir da alta do preço do petróleo e do Dólar, para gerar todo o problema.

O problema gerado com o Pro-Caminhoneiro foi de ordem semelhante, a partir de incentivos artificiais que geraram excesso de oferta em um momento de demanda desaquecida.

No próximo artigo, comentaremos sobre o tamanho da conta a ser paga pela sociedade para subsidiar o preço do diesel e tabelar os fretes, além da falsa dicotomia existente entre acionistas da Petrobras X sociedade.

Acesse os demais artigos da seção de Economia aqui.

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