O Museu Nacional foi consumido pelo fogo da incompetência gerencial

O último presidente brasileiro a colocar os pés no Museu Nacional foi Juscelino Kubitschek. Esse fato é representativo de uma história de negligência e de desapreço. O resultado de tudo isso se consuma na tragédia deste já fatídico dia dois de setembro de 2018, quando a mais antiga instituição científica do Brasil foi consumida por um incêndio de vastas proporções. No início da semana da pátria, perdemos parte considerável de nossa história.

Desde 2016, o Museu Nacional sofria de graves problemas orçamentários. Apenas 60% da verba de R$ 550 mil anuais, que é repassada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, estava sendo de fato recebida pelos gestores. O prédio sofria com infiltrações, infestações de cupins e defasagem nas instalações elétricas. Com isso, áreas inteiras de suas dependências encontravam-se fechadas para visitação. Também não havia possibilidade de ampliação da pesquisa ou modernização de exposições. A situação era tão crítica que até mesmo uma vaquinha virtual foi anunciada para arrecadar recursos e manter algumas de suas atividades.

Apenas em 2018, ano em que a instituição celebrou seu bicentenário, é que foi firmado um contrato para realização de investimentos. O BNDES abriria uma linha de financiamento de R$ 21.7 milhões para viabilizar a restauração. Tarde demais. A degradação do Museu Nacional era tal que a estrutura não resistiu. Tudo o que lá estava foi queimado pelo fogo da incompetência gerencial que assola o Brasil.

Entre os 20 milhões de itens que foram destruídos, estavam preciosidades paleontológicas e antropológicas como coleções de dinossauros e de múmias. Também fazia parte do acervo o fóssil de Luzia, o ser humano mais antigo encontrado na América. Seus restos tinham cerca de treze mil anos de idade. Eles resistiram à erosão do tempo, mas não ao descaso. 

A maior perda, entretanto, é o prédio em si, que foi lar de D. João e seus herdeiros. O palácio de São Cristóvão, localizado na Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro, foi morada da família real portuguesa até 1821 e também da família imperial brasileira até 1889. Ali foi assinada nossa independência, bem como promulgada a primeira Constituição da República. Entre seus ambientes estava a sala do trono, a sala dos embaixadores e o quarto do Dom Pedro II.

Daqui 30 anos, é bem possível que ainda estejamos discutindo a reconstrução do palácio destruído. Se o Brasil tem a triste mania de não conservar o que ainda está de pé, o que dizer daquilo que já foi ao chão? Para conter as labaredas que tomavam um de seus mais importantes museus, os bombeiros contavam apenas com uma escada Magirus. É o retrato de um país que continua tão primitivo quanto na época em que Luzia ainda o habitava. 

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