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Mente de gafanhoto

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Apesar de termos acesso a uma quantidade imensa de informações, o hábito de ler em varredura e pinceladas vai diminuindo nossa capacidade de leitura aprofundada.

Provavelmente você não irá terminar de ler este artigo. Pelo menos, esta é a conclusão de pesquisas sobre os impactos das mídias digitais na qualidade e no tempo da leitura online. Em 2015, uma pesquisa organizada pela Microsoft no Canadá concluiu que o tempo médio de permanência do usuário diante de um texto online era de 29 segundos – tempo suficiente para realizar aquilo que o pesquisador dinamarquês Jakob Nielsen chamou de padrão de leitura em F: os olhos do usuário da web seguem as três primeiras frases e logo se dispersam verticalmente até o final da página – um padrão verificável em quase todo tipo de página ou website. Portanto, se você chegou até aqui, já é uma conquista. Avante.

O estilo da leitura atualmente não é o mesmo de 15 anos atrás. Não apenas porque muitos dos recursos e dispositivos mudaram, mas porque nos habituamos a diferentes processos de atenção, que acabam por permear todas as nossas atividades diárias. Em 2003, mesmo antes do advento dos smartphones, o pesquisador Ziming Liu, da Universidade San Jose, na Califórnia, já havia observado que o ambiente digital tende a encorajar as pessoas a explorarem tópicos de modo extensivo, mas em um nível muito superficial. A consequência disso seria que, apesar de termos acesso a uma quantidade imensa de informações, o hábito de ler em varredura e pinceladas vai diminuindo nossa capacidade de leitura aprofundada.

Em outra pesquisa, de 2016, Liu verificou que esse padrão de leitura superficial tem se intensificado ainda mais com o uso dos smartphones. Comparando com a leitura em computadores e laptops, a leitura em celulares é substancialmente diferente: nos habituamos a acessar e pincelar informações onde quer que estivermos, em curtas verificadas, aumentando a seletividade de frases e palavras, diminuindo o tempo de atenção prolongada e foco. A concentração passa a ser “espasmódica e saltitante, como um gafanhoto”, diria o pesquisador Howard Gardner. Basta examinar a si mesmo e perceber se você ainda é capaz de ler textos longos em suas redes sociais.

A pesquisadora e diretora do centro de dislexia da Universidade da Califórnia, Maryanne Wolf, também verificou que há uma lenta e invisível mudança acontecendo: os circuitos neuronais que sustentam a nossa capacidade de ler estão mudando sutil e rapidamente em função dos hábitos diários adquiridos em nossos smartphones. Como a autora explica em seu livro “O Cérebro no Mundo Digital”, de, 2019, sabemos que os circuitos cerebrais responsáveis pela leitura são desenvolvidos de acordo com o ambiente, a cultura e o sistema de escrita em que o indivíduo se encontra. Se esse ambiente dominante for carregado de processos rápidos, orientado para grandes volumes de informação em curtos períodos de tempo, os circuitos neuronais da leitura também acompanharão esse traço.

Agora, considere que a média brasileira no uso do celular é a 2ª mais alta do mundo, com cerca de 5 horas diárias, e que nossos jovens de 13 a 16 anos chegam a ficar 12 horas diárias conectados (tempo dividido entre acesso a informações e troca de mensagens), de acordo com o relatório Global Overview Report – Digital 2021. Num cenário em que, há anos, apresentamos uma média de leitura anual muito baixa (cerca de 2 livros inteiros), além de graves problemas de leitura e interpretação entre os jovens estudantes, é possível vislumbrar que o cenário de incentivo à leitura não é tão simples como imaginamos.

Como incentivar hábitos de leitura concentrada quando as pessoas não conseguem se afastar por mais de 30 minutos de seus celulares, seja em casa, seja na rua, seja no carro? Como manter o hábito de leitura concentrada se as pessoas já não têm paciência para encarar várias páginas e vários parágrafos sem imagens ou vídeos? Como incentivar o hábito de ler pacientemente se estamos nos acostumando a um grande volume de informações em nível superficial?

Não se trata de jogar fora nossos celulares, mas de percebermos o que estamos perdendo. Como disse Sherry Turkle, pesquisadora que analisa os impactos da tecnologia, não erramos quando inovamos, mas quando ignoramos o que interrompemos ou diminuímos ao inovar.

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