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Cultura

As grandes minorias

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Como desejos privados se tornam direitos civis e leis impositivas?

Diz a lenda que o filósofo Diógenes de Sinope (séc. IV a.C.), certa vez, andando pela rua, percebeu uma ratazana que corria de um lado para o outro, sem rumo nem direção. Não havia perigo a se afastar, não havia sol ou chuva a incomodar. Simplesmente corria por pura vontade. Teria Diógenes vislumbrado um insight e concluído que a grande realização do ser humano é viver assim: livre absolutamente, por suas vontades.

Liberdade absoluta. Quem poderia ser contra isso? Ocorre que liberdade absoluta pelas nossas vontades é uma figura de linguagem. Geralmente é usada para causar um efeito em quem lê ou ouve. Parece bom e bonito ser livre absolutamente, contra todas as amarras. Como justificativa de lutas políticas então… incrível! Mas, literalmente, é algo que não existe. Em muitas situações da vida humana, desejos e vontades particulares não são suficientes para mudar a realidade. Por mais que eu tenha desejado mudar, todas as vezes em que fui a um estádio assistir a um show no meio da multidão, minha estatura de 1,70 nunca mudou. Juro que desejei. Mas minhas vontades não determinam a realidade. Ela possui estruturas, que merecem ser reconhecidas.

Mas, se eu iniciasse uma onda de reivindicações, lutando para que indivíduos de estatura mediana tenham direitos a assistirem shows sem serem atrapalhados por pessoas mais altas? Poderíamos criar cotas em shows para pessoas de estatura mediana. Ou quem sabe lugares reservados, entrada antecipada. Quem sabe ganharíamos descontos nos ingressos? Afinal, o cara mais baixo não aprecia o show da mesma forma que o cara mais alto. Na hora da compra do ingresso, o indivíduo poderia se autodeclarar de estatura mediana. Bastaria você sentir que não é alto o suficiente. Aqueles que acharem isso ruim é porque nunca sofreram com a estatura. Merecem desprezo pela incompreensão. Empresas que não apoiarem a causa devem ser boicotadas e canceladas. Podemos nos reunir no centro e causar uma confusão para chamar a atenção. Jornalistas poderiam me ajudar denunciando os sofrimentos de pessoas baixas. Quão baixas? Não importa. O foco é a injustiça, a intolerância, a desigualdade socialmente construídas.

A parte cômica dessa pilhéria também é trágica. O fato é que vivemos em tempos nos quais vontades e desejos privados passam a assumir posições de direitos civis ou se virando leis a serem impostas a todos, sob o risco de severas punições caso você pense ou fale diferente. Em nome da diversidade, da justiça e da liberdade é melhor você ficar calado, submeter-se e aceitar. É bom, correto e necessário. Caso contrário, você é intolerante e ruim. Provavelmente fascista.

Grande parte da história de como chegamos a esse ponto no século XXI foi contada na série de três vídeos, As Grandes Minorias (vídeo abaixo), produzidos recentemente pela Brasil Paralelo. Nos vídeos, é possível entender como chegamos ao ponto de movimentos, como os antifas ou BLM, que supostamente lutam contra o totalitarismo, autoritarismo e o racismo, imponham arbitrariamente a violência, o caos e intolerância; ou como chegamos ao ponto da imposição de uma ideologia que desconstrói os gêneros e que, em nome de igualdade, deseja impor uma agenda a toda a sociedade.

Num mundo em que a mídia mainstream coordena narrativas, quantas pessoas que adentram esses debates polêmicos conhecem as origens do que advogam? Nunca é demais lembrar que, para entender o ponto em que nos encontramos, é preciso refazer o caminho.

*Cidney Antonio Surdi Junior – Professor e pesquisador na área de história da educação, filosofia e cultura. Criador do canal Filosofando Podcast e pai do Dante.

 

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