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Quando o homem medíocre sobe ao palco

Cidney Surdi Jr.*

Quando as impressões confusas de um youtuber pautam a discussão sobre formação literária da juventude, saiba que há algo de muito errado acontecendo no debate do nosso sistema educacional!

Um fenômeno bastante deprimente da vida social é o advento do homem medíocre ao palco das discussões públicas. Isto sempre existiu. Sempre surgem indivíduos com um horizonte de consciência muito limitado, que fazem barulho e ocupam espaços. Eles sempre estão por aí. O que muda é o grau de prestígio e influência, dizia o argentino José Ingenieros. Atualmente, esse grau parece bem elevado. Exemplo disso, é o fato de um youtuber como Felipe Neto pautando discussões sobre a formação literária da juventude.

Recentemente, o influencer publicou no twitter a seguinte postagem: “Forçar adolescentes a lerem romantismo e realismo brasileiro é um desserviço das escolas para a literatura. Álvares de Azevedo e Machado de Assis NÃO SÃO PARA ADOLESCENTES! E forçar isso gera jovens que acham literatura um saco”. Na sequência, completou: “O fato de VOCÊ ser, ou ter sido, um adolescente fora da curva que ama romantismo e realismo brasileiro não significa nada perto do mar de jovens odiando livros por aí. E um dos motivos é justamente a forma como a maioria das escolas aplica a literatura como matéria”.

O termo homem medíocre não é necessariamente um xingamento (pelo menos, aqui, não estou usando dessa forma). Já em 1910, numa obra homônima, José Ingenieros mostrou que a mediocridade também pode ser entendida como um termo descritivo da psicologia do caráter. Nesse sentido, mediocridade está relacionada a incapacidade de enobrecer a vida humana, incapacidade de perceber o seu limitado horizonte de consciência e torna-lo padrão de julgamento moral. Dito de outro modo, trata-se do indivíduo que não consegue reconhecer as suas limitações e, ainda assim, é capaz de professa-las como o padrão de normalidade para as outras pessoas. Quando esta conduta tem prestígio, espaço e influência, é possível que a discussão pública caia num nível de achismos, emoções e choramingos. E o twitter é o terreno perfeito para isso.

Quando adolescente, lembro ter sentido aversão, de fato, aos autores que eram obrigatórios para o vestibular. Admito, no entanto, que muito provavelmente, isto se deu por dois motivos:  porque eram livros obrigatórios e porque os professores que eu tive, anunciavam de antemão, por exemplo, que Machado de Assis era um autor “difícil”. Um grande círculo vicioso e macabro – lembro que os primeiros tiros na alta cultura já eram dados ali, na nossa frente, sem pudor, por muitas pessoas de jaleco e giz na mão.

Ocorre que, a postagem do youtuber e a minha aversão surgida na escola são apenas sintomas explícitos da decadência e da agonia da educação brasileira. Não são culpa da literatura de Machado de Assis ou de Álvares de Azevedo, do romantismo ou do realismo. Culpa-los por não serem acessíveis aos mais jovens é apenas provar que você faz parte das consequências de uma educação e de uma cultura agonizante, conhecida por incutir o incrível hábito nacional de ler, em média, 2 livros por ano (como já tratamos aqui na Lócus, no artigo Para que ler?).

Como de costume, o nosso senso das proporções e foco das discussões culturais sempre está invertido ou confuso. Não é a primeira vez que um debate sobre os nossos grandes nomes se estabelece num nível muito pobre. Basta lembrar que, em 2014, a escritora Patricia Secco propôs que as obras de Machado de Assis fossem adaptadas a linguagem dos jovens estudantes. Em vez de almejar chegarmos à altura dos grandes, é melhor rebaixá-los a nossa pequenez. Esta é a fórmula da anticultura.

Haveria maior desserviço do que você ser alguém que, com mais de 10 milhões de seguidores, em sua maioria adolescentes, anunciasse que Machado de Assis e Álvares de Azevedo não são para adolescentes? Dentro do horizonte de consciência de um indivíduo que afirma algo desse gênero, simplesmente não é possível imaginar quantas e quantas gerações de jovens, mundo afora, formaram e amadureceram seus imaginários literários ao ler realistas e românticos como Balzac, Flaubert, Byron, Charles Dickens, Eça de Queirós, José de Alencar, Gonçalves Dias, Castro Alves! Muitas e muitas gerações de jovens não chegaram a conclusão de que literatura era “um saco” por causa destes autores. Já as discussões atuais, sim, tem sido um saco por causa dos autores envolvidos.

 

DICA DE LEITURA

– O HOMEM MEDÍOCRE, José Ingenieros

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

*Cidney Antonio Surdi Junior – Professor e pesquisador na área de história da educação, filosofia e cultura. Criador do canal Filosofando Podcast e pai do Dante.

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