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Deitado eternamente? ACORDA BRASIL!

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Escrevo este texto momentos antes do encerramento dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro. Certamente a cerimônia de encerramento vai nos levar à inspiração por um mundo melhor, com mais justiça, fraternidade entre os povos, permitindo-nos sonhar com um mundo de paz.

O que o mundo viu pela televisão infelizmente não reflete a realidade que todos os brasileiros passarão a viver à partir de Segunda-feira, o dia depois da festa.
Vamos pegar aquela condução para ir trabalhar, voltar acompanhar e nos indignar com o passo a passo do processo de Impeachment. Nos noticiários ao invés de conquistas de medalhas e superação dos atletas com os seus recordes olímpicos e mundiais, darão espaço às notícias de corrupção, dos hospitais sem médicos, dos prontos-socorros sem atendimento, sem remédio, os buracos de rua ( no percurso da maratona, o asfalto, salvo algumas poças d’água, estava impecável e é essa a imagem das “ruas do Brasil” que mostramos lá fora ).

Certa vez, há alguns anos atrás, eu estava assistindo ao noticiário do Brasil, uma matéria que mostrava as condições precárias de uma pequena escola do interior onde tinha goteira, não havia merenda escolar, as crianças tinham que caminhar para a escola pois o ônibus tinha problema mecânico, as carteiras em pedaços em completa falta de sintonia com o lema do governo, “Pátria Educadora.”
Sentada ao meu lado estava a minha filha, na época cursando a 7ª série, meio que não acreditando no que via e ouvia pelo noticiário, me interrompe e pergunta:
– Como assim, não tem merenda na escola? …E as crianças vão estudar como se elas não tem carteiras, se tem goteira na sala de aula e os professores fazem greve?
Respondi, que infelizmente as coisas são assim no Brasil.
E ela que estava estudando “Civismo, Cidadania e Governo” na escola daqui, saiu com esta pergunta:
– O povo no Brasil não paga imposto? Se eles pagam imposto, como é que a escola é desse jeito? Até no hospital não tem remédio?

O amigo ou amiga que está lendo este texto já deve ter percebido que não moro no Brasil. Por questão de trabalho, eu deixei o Brasil em 1993 para cumprir um contrato de 3 anos que se transformou numa extensão de mais 3 a cá estou vivendo com a minha família e com uma filha, Naomi, nascida em Miami, mas registrada e com certidão de nascimento como brasileira. E foi a Naomi quem me fez a indagação acima.

Essa interação com a minha filha permitiu uma reflexão do ser um cidadão no Brasil.
Como a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, lembramos do dever cívico de votar apenas nos anos de eleição. Feita a obrigação, simplesmente “esquecemos” do nosso dever como cidadão de acompanhar e cobrar aqueles que com o nosso voto, colocamos lá, na Câmara dos Vereadores, na Prefeitura, no Palácio do Governo, no Congresso, Senado Federal e a Presidência da República.

O não cobrar, o não ficar em cima, ou usando um jargão do futebol, o fato de não fazermos a marcação cerrada nos eleitos, permitem a eles que atuem por conta própria. Sabemos que o sítio onde mais se rouba bergamota é exatamente o sítio onde o dono não fica em cima vigiando a plantação.

Nessa esteira, temos ZERO de transparência nas contas públicas, NOSSAS contas, afinal é o imposto que pagamos, e no caso brasileiro, se chega ao absurdo de termos na nossa Presidência, um cartão de crédito corporativo onde as despesas são sigilosas. Despesas sigilosas como o NOSSO dinheiro? É um absurdo, mas isso subsiste dentro de um panorama onde os eleitos se sentem seres superiores e imunes a toda sorte seja do alcance das leis, da justiça e com privilégios que eles mesmos criaram para prosperar e perpetuar no usufruto desses privilégios.

Certa vez, minha esposa e eu fomos convocados para uma reunião-assembléia dos pais na escola na nossa filha. No ginásio de esportes da escola, com projeções em telões, os coordenadores, a diretora e o vice diretor explicavam da necessidade de aumentar a quota de impostos para serem utilizados na reforma do laboratório de ciências, música e no upgrade dos sistemas financeiro e administrativos do distrito escolar e que necessitava de uma “quota de sacrifício” dos pais por dois anos no imposto municipal.

O debate foi acalorado e já havia passado a meia noite quando eu perguntei ao pai de uma amiga da minha filha, de quanto seria a “quota de sacrifício” em questão, e a resposta foi, pasmen: “ 1,5%!”
E eu perguntei para a minha esposa quanto seria um e meio porcento no imposto municipal e ela, de cabeça, me disse: -Algo em torno de 10 dólares.
E eu: -10 dólares? -10 dólares por mês?
E a minha esposa Cristina: -Não, 10 dólares por ano.

A minha vontade naquele momento foi a de dizer que eu pagaria os 10 dólares e iria para casa porque já era tarde e não consegui entender o porque daquele debate todo por causa de 10 dólares a mais de imposto por ano.

Mas naquele momento, o que estava acontecendo na escola, eram os pais exercendo a sua cidadania. Discutindo do porque das coisas e nos detalhes, pois afinal de contas, o dinheiro é NOSSO, do NOSSO imposto. Isso sem levar em consideração de que para aqueles que têm o dinheiro contado, 10 dólares são 10 dólares e numa comunidade, devemos também levar em consideração ou ajudar àqueles que enfrentam dificuldades.

Foi quando me dei conta de que quando pagamos os impostos, a prefeitura nos passa um extrato onde aparece o imposto municipal cobrado de cada residência e para onde vão cada centavo do imposto arrecadado. Essa transparência acontece em todas as esferas, Estadual e Federal. Eu nunca vi algo semelhante no Brasil.
Eu estou enviando um anexo que mostra o extrato que recebemos da prefeitura como referência.

Talvez seja essa uma forma de visualizar o uso do nossos recursos.
Talvez, por causa desta transparência possamos cobrar dos nossos governantes.
Foram horas de discussão com todos os pais envolvidos para no final aprovarem 1,5% adicional por dois anos, nos recursos destinados para as escolas.
E tão pronto os impostos começaram a ser cobrados, na primeira férias, a escola foi fechada e lá estavam os trabalhadores da construção, derrubando paredes, refazendo encanamentos, fiação e tudo o mais para estar tudo pronto uma semana antes do início das aulas.

Quem sabe um dia, isso não aconteça no nosso país.
Quem sabe um dias os recursos cheguem ao destino para os quais tais recursos foram aprovados e não parem nos bolsos de quem não têm direito.
Quem sabe assim, uma passarela não desmorone com a batida de uma onda de um mar que sempre esteve lá, muito antes que o primeiro habitante do Rio de Janeiro.
Quem sabe assim, as nossas pontes e os nossos edifícios não caiam pelo próprio peso.
Quem sabe assim, tenhamos talvez pequenos buracos na estrada e não uma pequena estrada em meio aos enormes buracos.
Quem sabe assim, os médicos estejam onde devem estar, que os remédios e até a gaze do curativo apareçam.
Somos o país que mais investe em educação no nosso planeta.
Somos o país do pior retorno referente ao montante de imposto pago.

O Brasil finalmente ganhou o Ouro Olímpico no futebol, o povo acompanhou, vibrou e chorou com a conquista inédita. Inédita mesmo, e muito mais importante do que ver os 18 atletas da seleção ostentando a medalha de ouro pendurada no pescoço, será a conquista de todo o povo brasileiro quando TODOS tiverem acesso à educação e saúde dignos de cidadãos.

Em meio ao furor das conquistas das medalhas e do título inédito, lamento informar de que o tal legado da Olimpíadas não será muito diferente do legado da Copa. Não vai tardar muito para as rachaduras e os problemas estruturais aparecerem nos estádios, ginásios e outros locais de competição construídos às pressas para o grandioso evento.

A chama olímpica vai se apagar daqui há pouco e com ele o transe que todos nós passamos com os jogos que certamente mudou a nossa rotina.

O ouro no futebol serviu para redimirmos do vergonhoso 7 a 1 que sofremos no final da Copa. Mas o placar continua vergonhosamente contra o nosso país, quando tratamos da educação, saúde e segurança. Esta última melhora consideravelmente com a melhora das duas primeiras. É aí que devemos redimir. É aí onde nós temos que ganhar de goleada.

Temos um longo caminho a percorrer.

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