Na Índia, Hillary mostra mais uma vez porque perdeu a eleição

Perder a eleição presidencial dos EUA não é o fim do mundo. Desde que você não seja conservador, será convidado a participar de talk shows e dar palestras em universidades. Poderá até mesmo emplacar um best seller de sua autoria que desvele, aos seus inconsoláveis fiéis, sua própria versão sobre “as verdadeiras razões” de sua derrota. É possível sentir-se “presidencial” mesmo após perder a eleição mais importante do mundo, à medida que as pessoas fazem fila e se amontoam, umas sobre as outras, para ouvir suas opiniões sobre cultura, economia e política externa, emitidas sem o ônus da responsabilidade dos verdadeiros tomadores de decisões. É como vestir o manto presidencial sem ter que lidar com a pressão de ser presidente. Sua credibilidade, pelo menos perante sua base, estará intacta. As pessoas continuarão amando-o e dando-lhe ouvidos. A não ser, claro, que você seja Hillary Rodham Clinton.

Luta contra o ostracismo

Hillary Clinton tem sido uma ex-candidata excepcional. “Excepcional”, neste caso, no sentido negativo da palavra. Como alguém que passou oito anos de sua vida como inquilina na Casa Branca, ela contemplou, de perto e como poucos, o “Santo dos Santos”. Assim como Frodo, no filme O Senhor dos Anéis, suas mãos tocaram o “Anel do Poder”, ainda que ela mesma nunca o tenha usado. Não seria um absurdo imaginar que, nas inúmeras noites que passou no palácio da República, ela tenha, de fininho, escapado da suíte presidencial para se sentar na cadeira de onde Bill governava, sonhando com o dia em que ela mesma ocuparia o Escritório Oval.

Talvez por esta experiência singular, a septuagenária luta contra seu inevitável ostracismo, recusando-se a captar a súplica de muitos democratas para que ela se aposente – enviada em 2008 (quando a preteriram pelo, até então, jovem e desconhecido Barack Obama), e mais recentemente em 2016 (quando muitos democratas não compareceram às urnas ou, simplesmente, votaram em Donald Trump).

Popularidade fabricada

Hillary foi uma criação das elites do Partido Democrata. Sua popularidade nunca foi um fenômeno orgânico como a de seu mais recente rival pela candidatura – o socialista senil, Bernie Sanders. Aprouve ao establishment escolher um dos seus em 2016, um tiro que saiu pela culatra e lhes custou a presidência. Hillary foi a candidata mais corrupta e impopular de toda a história dos EUA. E, a cada vez que ela abre a boca, fica evidente por que foi derrotada.

Não obstante, como uma assombração chata que resiste ao exorcismo, Hillary se recusa a desaparecer mesmo depois de ter se tornado politicamente defunta e fétida para muitos democratas.

Hillary Clinton
Hillary Clinton, no India Today Conclave, em março de 2018.

Lavando roupa suja pelo mundo

Em sua mais recente aparição, que foi na Índia, Hillary tropeçou novamente. Tropeçou no sentido literal, enquanto desfilava em seu caftan pelas ruas de Mumbai. Igualmente, tropeçou nas palavras ao tentar explicar as razões de sua derrota a uma audiência de estrangeiros. Como de praxe, ela culpou a todos – inimigos políticos, o então diretor do FBI, o machismo, o racismo, a instituição da família, etc. Só não culpou a ela mesma. Hillary tenta vender ao exterior a imagem de uma candidata rejeitada somente por ser mulher e representar a voz dos menos favorecidos da sociedade. Assim como naquela fatídica noite de novembro de 2016, quando se recusou a aparecer em público para reconhecer sua derrota, Hillary demonstra que ainda não aceitou o fim de sua carreira política, expondo ao mundo as feridas purulentas e não cicatrizadas de sua humilhação.

A narrativa

A ex-candidata alega que ganhou nas áreas costeiras, urbanas e mais ricas, como Nova Iorque e Califórnia. Para ela, os eleitores destas áreas são mais esclarecidos, modernos e moralmente superiores, em contraste com a população que vive no centro do país, fora dos enclaves progressistas – supostamente caipiras, racistas, xenofóbicos, chauvinistas, sem formação superior.

Diante de uma plateia de rostos morenos, na Índia, Hillary disse que metade da população americana não deseja que negros, mulheres e indianos prosperem nos EUA. Tais pessoas, segundo ela, votaram por Donald Trump. Hillary insultou as mulheres casadas que não votaram por ela, acusando-as de não terem opinião própria, de dependerem da autorização de seus esposos, de seus irmãos ou de algum outro “macho” para poder votar em um ou outro candidato.

A velha alinskiana, que não enxerga indivíduos de acordo com suas ideias (somente de acordo aos grupos a que eles pertencem), não aceita que algumas mulheres não a tenham escolhido como presidente só por ela ser mulher. Em seu ranço misândrico, Hillary transpira ódio pelo único coletivo que sua ideologia identitária não consegue infectar e destruir, o único grupo de pessoas que se interpõe entre ela e seu falido projeto de poder: a família.

Dois pesos, duas medidas

Eu ganhei nas áreas responsáveis por dois terços do PIB americano” – gaba-se a ex-candidata. Imaginem se Donald Trump, ou qualquer outro republicano, tivesse cometido tal ultraje: seu rosto estaria estampado nas capas de todos os jornais; âncoras e comentaristas políticos, histéricos, o acusariam de representar os interesses dos ricos, da Goldman Sachs e dos “lobos de Wall Street” – tudo aquilo que alguns democratas, sobretudo os apoiadores de Bernie, desconfiavam que a Sra. Clinton representava. Como as palavras vieram de Hillary, no entanto, a reação mais forte na mídia foi a tímida crítica de alguns estrategistas democratas que expressaram um certo incômodo (por lembrarem-se do fiasco cometido pela ex-candidata em 2016, quando ela categorizou a base eleitoral de Trump como “uma cesta de deploráveis”).

Mapa eleitoral de 2016 (EUA)
Mapa eleitoral de 2016: eleitores das áreas em vermelho votaram predominantemente em Donald Trump.

A Estratégia

A verdade é que a derrota da democrata não se deu por causa de nenhum bicho-papão imaginário (o racismo, o machismo, a xenofobia). Como já abordei em meu artigo “Supremacistas brancos e Antifa: dois retalhos do mesmo tecido”, a esquerda americana deixou de lado a velha luta de classes marxista e abraçou a ideologia identitária. Impulsionada pelo livro “The Emerging Democratic Majority” (A Maioria Democrata Emergente, em tradução livre), publicado em 2002, a estratégia ganhou maior adesão entre os democratas no começo do século XXI. Neste livro, os autores Ruy Teixeira e John Judis previram que, até o final da primeira década do século, uma coalizão progressista emergiria – formada por jovens profissionais liberais, mulheres e minorias étnicas – e se juntaria a já democrata classe operária criando, assim, uma maioria de eleitores democratas nos EUA.

Crentes na profecia, os democratas transformaram seu partido em algo irreconhecível aos olhos de John F. Kennedy, caso estivesse vivo. Como resultado, investiram pesado no pseudo-evangelho pregado aos negros, hispânicos, mulheres, gays, muçulmanos e demais grupos supostamente oprimidos pelo homem branco, cisgênero e cristão.

Em 2016, a campanha presidencial de Hillary Clinton produziu mais de dois mil e quinhentos comerciais em espanhol mirando a comunidade hispânica. Ungiu celebridades como Katy Perry, Miley Cyrus e Lena Dunham para conquistar o voto dos Millennials. Nomeou LeBron James, Jay-Z e Beyoncé como embaixadores entre os negros. Explorou até mesmo a dor de um pai muçulmano – cujo filho militar perdeu a vida no Iraque – para cativar a comunidade islâmica nos EUA. Na Convenção Democrata de 2016, Hillary aparece em um telão quebrando um “teto de vidro” – uma clara mensagem ao eleitorado feminista.

Uma Mensagem Vazia

Em 2006 e 2008 (quando os democratas tomaram controle do Congresso e Barack Obama foi eleito, respectivamente) a previsão parecia estar a caminho de se concretizar. “Stronger Together” (Juntos Somos Mais Fortes) foi o lema dos democratas para a campanha presidencial de 2016. A mensagem – a alusão a uma união entre os diversos grupos identitários supostamente excluídos na América – não encontrou ressonância entre a classe média que agonizou e encolheu dramaticamente durante a era Obama.

A narrativa não teve adesão fora das bolhas urbanas progressistas. O lema nada significou além da antítese a um espantalho criado pelos próprios democratas – o levante de supremacistas brancos na América, liderados pelo “Grande Mago” Donald J. Trump.

Por ironia do destino, foi justamente na era Obama – quando o Partido Democrata consolidou sua marca como o partido da “diversidade” – que os conservadores retomaram o controle do Congresso e elegeram Trump Presidente da República.

A boia salva-vidas, na qual Hillary e os democratas desesperadamente se agarraram, provou ser uma âncora. Em 2016, milhões de americanos colocaram sua família e sua bandeira acima de gênero, raça e demais divisões identitárias. Hillary veria o projeto de sua vida ruir, graças a estas teimosas áreas em vermelho que recusaram sua proposta de “progresso” – e, consequentemente, custou-lhe a presidência.

Omissões

Na Índia, Hillary não mencionou que Trump escolheu Nikki Halley, mulher e descendente de indianos, como sua embaixadora na ONU. Ainda, que nomeou o Dr. Ben Carson, afro-americano, como membro de seu gabinete. E que estados como Ohio, Wyoming, Pensilvânia e Michigan (que votaram em Trump em 2016) ajudaram a eleger o negro Barack Obama em 2008 e 2012. Como alguém que esperneia em areia movediça, Hillary nada mais tem a oferecer do que sua surrada ideologia identitária, afundando com ela todo seu Partido que, após experimentar uma bruta queda nas contribuições, sofre até para pagar suas contas.

Lições

Em 2016, alguns democratas aprenderam a duras penas que, se você insultar os eleitores do outro candidato, pode ser que eles jamais votem em você. “Sua Alteza”, inconformada, parece não ter aprendido a lição. E, uma vez mais, cospe nos plebeus que não fazem parte da Corte das elites costeiras: o agricultor, o metalúrgico, o trabalhador das minas de carvão, os montadores nas fábricas de veículos, os professores e demais trabalhadores sindicalizados no Cinturão da Ferrugem (tradicional reduto democrata) – todos aqueles que, negligenciados pelos “arautos da diversidade”, votaram em Donald Trump.

Na atual conjuntura, Trump pouco tem a fazer para se reeleger, além de assistir seus oponentes insultar metade do eleitorado americano. Hillary Clinton é, no momento, o melhor cabo eleitoral que o Presidente e que os republicanos poderiam ter.

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