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Afinal, qual é a função da escola?

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A Lócus inicia uma série de artigos sobre a Educação brasileira, procurando analisar o sistema de ensino nacional e, não menos importante, incluir a cidade de Passo Fundo nesse contexto, para que assim seja possível a compreensão da realidade local. Neste primeiro artigo, faz-se necessário questionar: afinal, qual é a função da escola?

Os estoicos, filósofos da Grécia Antiga, acreditavam que toda sabedoria deveria justificar a si mesma por meio de resultados práticos. O saber, portanto, estava condicionado à sua serventia, como um bom hábito de consumo: é realmente preciso comprar outro sofá para a sala de estar?

No Brasil, o Ministério da Educação, órgão responsável pelas diretrizes do ensino[1], é como um maratonista tentando competir nas Olimpíadas com uma perna quebrada. Claro que se fosse uma empresa já estaria falido há muito tempo: no setor privado, são os bons resultados que garantem a permanência no mercado. Entretanto, é inegável é que a população continua confiando no governo como o gestor do ensino, talvez por falta de opção. Então as crianças continuam sendo sequestradas de suas casas, enjauladas numa sala de aula, por quatro ou cinco horas diariamente, a um custo elevadíssimo, e descobrindo, oito anos depois, que a maioria dos estudantes não sabe escrever, nem mesmo a fazer contas de cabeça.[2]

Talvez a educação tenha sido séria noutros tempos, formando sujeitos para a vida. Mas o país navega a remo nesse campo. O patrono da educação brasileira é Paulo Freire, um fulano-de-tal que mal educou a si mesmo, mas que acabou se tornando um amuleto dos saltimbancos da esquerda. Isso já representa uma amostra de que as coisas não estão indo muito bem por aqui.

Para suprir o problema da qualidade, o mercado é obrigado a aceitar como “apto” para o trabalho um sujeito diplomado. Então o país está legitimando um grupo de sabichões, que mal sabem fazer um troco, contentando-se apenas com a aparência de conhecimento, mas não o saber em si.[3]

Arthur Schopenhauer, filósofo alemão, apontou que, em geral, o objetivo almejado pelos estudantes e estudiosos não é a instrução, mas a informação, sem saber que a informação é apenas um caminho para a instrução, constituindo pouco valor em si.[4] Talvez seja o que mais se aproxima hoje das escolas e das universidades, uma busca incessante por informações, mas pouca substância para que o estudante seja capaz não só de enfrentar o mercado de trabalho, como também a vida.[5]

Por isso, o reconhecimento das instituições de ensino brasileiras como “especializadas em produzir conhecimento” é um erro, ao menos até que se prove o contrário. Com que direito? Simples: os funestos resultados que veem sendo alcançados ao longo dos anos[6]. Isso não necessariamente significa que seja possível apontar a instituição como a única culpada, ou o professor, ou mesmo o aluno: a verdade é que nem mesmo o melhor professor do mundo, na melhor escola do mundo, possa – por sua única e exclusiva vontade – ensinar um aluno que não tem o mínimo interesse em aprender. O contrário, no entanto, já foi mais do que provado que funciona: uma pessoa iteressada, nem mesmo as piores condições financeiras, nem as mais devastadoras circunstâncias existências serão capazes de frear a sua vontade de se instruir.[7]

A educação não pode ser universal porque nem todos querem aprender as mesmas coisas. Os currículos acadêmicos e escolares, mesmo assim, foram padronizados por vias ministeriais, e o único resultado alcançado até o momento foi o de nivelar o conhecimento da população por baixo. É preciso ficar claro que:

A igualdade de oportunidades na educação é meta desejável e realizável, mas confundi-la com obrigatoriedade escolar é confundir salvação com igreja. A escola tornou-se a religião universal do proletariado modernizado, e faz promessas férteis de salvação aos pobres da era tecnológica. O Estado-nação adotou-a, moldando todos os cidadãos num currículo hierarquizado, à base de diplomas sucessivos, algo parecido com os ritos de iniciação e promoções hieráticas de outrora. O Estado moderno assumiu a obrigação de impor os ditames de seus educadores por meio de inspetores bem intencionados e de exigências empregatícias; mais ou menos como o fizeram os reis espanhóis que impunham os ditames de seus teólogos pelos conquistadores e pela Inquisição.[8]

O efeito foi ainda mais nocivo, porque são raros os empregos oferecidos para aqueles que não completaram o Ensino Médio. Que importa se uma empregada doméstica sabe calcular uma função ou se ela sabe diferenciar um átono de uma molécula? O trabalho dela é o de limpar, e é exatamente isso que ela precisa fazer bem.[9]

Desde quando um diploma torna alguém apto para um ofício? Trata-se no máximo de uma presunção de habilidade, mas nunca uma relação diretamente proporcional. Para Ivan Illich, a maior parte do conhecimento não é adquirido na escola, mas fora dela, pois assim o aprendizado ocorre casualmente, e não por imposição.[10]

Se o leitor tivesse que fazer uma opção entre cursar uma faculdade de Letras ou ter o domínio da língua, o que seria melhor? É claro que é ter o domínio da língua. No entanto, o governo instituiu que um diploma é o que condiciona uma pessoa ao mercado de trabalho. Pois bem: se o desejo é aprender, o ideal é ir direto às fontes, evitando intermediários institucionais, até porque:

A Nova Igreja do Mundo é a indústria do conhecimento, ao mesmo tempo fornecedora de ópio e lugar de trabalho durante um número sempre maior de anos na vida de uma pessoa. A desescolarização está, pois, na raiz de qualquer movimento que vise à libertação humana.[11] [sic]

Que se traga novamente a luz, para que assim os estudantes possam se tornar capazes de enxergar o que está na sua frente, iluminando os passos para que do abismo renasçam homens com amor à sabedoria. Os exemplos de virtudes humanas são imprescindíveis àqueles que se encontram num abismo intelectual e cultural. O futuro depende de pessoas capazes de se renovar, isso sem que se rompam os laços com aqueles que os antecederam, abrindo as trilhas, pois foram estes homens que construíram pontes e estradas para que a jornada das gerações seguintes pudessem dar passos ainda mais largos, enxergar novos horizontes. E o sistema de ensino nacional oferece muitas amostras de que está muito longe de cumprir esse papel.

[1] Em postagem recente nas redes sociais, bem colocou Luiz Philippe de Orleans e Bragança:

“O MEC, Ministério da Educação e Cultura, foi criado pelo ditador fascista Getulio Vargas em 1930 para controlar todo o sistema de ensino. Mais tarde nas constituições de 1934, 37, e 46, as primeiras constituições socialistas que tivemos, a educação de 4 a 17 tornou-se compulsória. Isso forçou com que toda família submetesse seus filhos ao controle e doutrina estipulada pelo MEC aparelhado por socialistas – sempre. Por isso que sou a favor do projeto Escola Sem Partido. Quando o MEC for extinto, ou não ter mais o monopólio do controle da doutrina escolar, ou tivermos a opção de educar via homeschooling e outros meios, o projeto Escola Sem Partido se tornará inócuo. Até essa realidade chegar, pais do Brasil, o projeto Escola Sem Partido é a melhor proteção contra doutrinadores ideológicos de seus filhos.” [sic]

[2] “No Brasil, depois de sequestrarmos as crianças de suas casas pelo menos cinco horas por dia e gastarmos com elas um quarto do orçamento, descobrimos, oito anos depois, atônitos, que a maioria não sabe ler… E isto apesar de todas as siglas atrás das quais se esconde a bilionária incompetência pública.” NASSER, José Monir. Para Entender O Trivium. In: JOSEPH, Miriam. O Trivium: As Artes Liberais da Lógica, Gramática e Retórica. Trad. e adapt. De Henrique Paul Dmyterko. São Paulo: É Realizações Editora, 2011, p. 11.

[3] “Quando observamos a quantidade e a variedade dos estabelecimentos de ensino e de aprendizado, assim como o grande número de alunos e professores, é possível acreditar que a espécie humana dá muita importância à instrução e à verdade. Entretanto, nesse caso, as aparências também enganam. Os professores ensinam para ganhar dinheiro e não se esforçam pela sabedoria, mas pelo crédito que ganham dando a impressão de possuí-la. E os alunos não aprendem para ganhar conhecimento e se instruir, mas para poder tagarelar e para ganhar ares de importantes.” SCHOPENHAUER, Arthur. Sobre a erudição e os eruditos. In: A arte de escrever. Org., trad., pref. E notas de Pedro Sussekind. Porto Alegre: L&PM, 2005, p. 19.

[4] SCHOPENHAUER, Arthur. Sobre a erudição e os eruditos. In: A arte de escrever. Org., trad., pref. E notas de Pedro Sussekind. Porto Alegre: L&PM, 2005, p. 20.

[5] “Muitos estudantes, especialmente os mais pobres, percebem intuitivamente o que a escola faz por eles. Ela os escolariza para confundir processo com substância. Alcançado isto, uma nova lógica entra em jogo: quanto mais longa a escolaridade, melhores os resultados; ou, então, a graduação leva ao sucesso. O aluno é, desse modo, «escolarizado» a confundir ensino com aprendizagem, obtenção de graus com educação, diploma com competência, fluência no falar com capacidade de dizer algo novo. Sua imaginação é «escolarizada» a aceitar serviço em vez de valor. Identifica erroneamente cuidar da saúde com tratamento médico, melhoria da vida comunitária com assistência social, segurança com proteção policial, segurança nacional com aparato militar, trabalho produtivo com concorrência desleal. Saúde, aprendizagem, dignidade, independência e faculdade criativa são definidas como sendo um pouquinho mais que o produto das instituições que dizem servir a estes fins; e sua promoção está em conceder maiores recursos para a administração de hospitais, escolas e outras instituições semelhantes.” ILLICH, Ivan. Sociedade sem escolas. Trad. de Lúcia Mathilde Endlich Orth. 7. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1985, p. 16.

[6] Os dados serão apresentados ao longo da série de artigos que serão publicados sobre este tema.

[7] Então, “[…] a capacidade de educar alguém é inversamente proporcional à oficialidade do ato e diretamente proporcional à liberdade de adesão do educando. A educação prospera mais quando se a procura livremente.” NASSER, José Monir. Para Entender O Trivium. In: JOSEPH, Miriam. O Trivium: As Artes Liberais da Lógica, Gramática e Retórica. Trad. e adapt. De Henrique Paul Dmyterko. São Paulo: É Realizações Editora, 2011, p. 11-12.

[8] ILLICH, Ivan. Sociedade sem escolas. Trad. de Lúcia Mathilde Endlich Orth. 7. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1985, p. 25.

[9] ” A escolaridade não promove nem a aprendizagem e nem a justiça, porque os educadores insistem em embrulhar a instrução com diplomas. Misturam-se, na escola, aprendizagem e atribuição de funções sociais. Aprender significa adquirir nova habilidade ou compreensão, enquanto que a promoção depende da opinião formada de outros. A aprendizagem é, muitas vezes, resultado de instrução, ao passo que a escolha para uma função ou categoria no mercado de trabalho depende, sempre mais, do número de anos de freqüência à escola.” [sic] ILLICH, Ivan. Sociedade sem escolas. Trad. de Lúcia Mathilde Endlich Orth. 7. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1985, p. 26.

[10] “O sistema escolar repousa ainda sobre uma segunda grande ilusão, de que a maioria do que se aprende é resultado do ensino. O ensino, é verdade, pode contribuir para determinadas espécies de aprendizagem sob certas circunstâncias. Mas a maioria das pessoas adquire a maior parte de seus conhecimentos fora da escola; na escola, apenas enquanto esta se tornou, em alguns países ricos, um lugar de confinamento durante um período sempre maior de sua vida.

“A maior parte da aprendizagem ocorre casualmente e, mesmo, a maior parte da aprendizagem intencional não é resultado de uma instrução programada. As crianças normais aprendem sua primeira língua casualmente, ainda que mais rapidamente quando seus pais se interessam. A maioria das pessoas que aprendem bem outra língua conseguem-no por causa de circunstâncias especiais e não de aprendizagem seqüencial. Vão passar algum tempo com seus avós, viajam ou se enamoram de um estrangeiro. A fluência na leitura é também, quase sempre, resultado dessas atividades extracurriculares. A maioria das pessoas que lê muito e com prazer crê que aprendeu isso na escola; quando conscientizadas, facilmente abandonam esta ilusão. [sic] ILLICH, Ivan. Sociedade sem escolas. Trad. de Lúcia Mathilde Endlich Orth. 7. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1985, p. 27.

[11] ILLICH, Ivan. Sociedade sem escolas. Trad. de Lúcia Mathilde Endlich Orth. 7. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1985, p. 60.

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“Ao vencedor as batatas”: Feliz Dia do Médico

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Depois de tudo, depois de centena de pacientes que atendi, que ajudei, que tratei, acordo com a notícia que o passaporte vacinal, hoje no Dia do Médico, me impedirá de circular, pois uma vez imunizado naturalmente pela doença, optei por deixar de me vacinar 

Hoje acordei recebendo várias mensagens de felicitações pelo dia do médico. Agradeço a todos, sei que vieram de coração. No entanto, há mais de vinte anos essa era uma data para me sentir gratificado; hoje, pelo contrário, me sinto humilhado, desprezado.

Este é um desabafo, um relato pessoal, não representando a opinião dos meus colegas. Haverá aqueles que concordarão, e muitos que discordarão ou mesmo ficarão indignados. Não escrevo pelos aplausos.

Desde março do ano passado, estamos vivendo no Brasil esta pandemia. Desde o início vemos homenagens em redes sociais sobre a bravura e a capacidade dos médicos. Vemos figurinhas de super-heróis nos cumprimentando e diuturnamente seguimos, como todos os profissionais da saúde envolvidos em postos, clínicas e hospitais com o tratamento de enfermos, com ou sem Covid.

A imprensa jogando confetes nos colegas e demais profissionais que escolhiam a dedo para representar e defender a opinião politicamente correta. Enquanto isso, nos hospitais, enfrentávamos uma doença ainda pouco conhecida, agarrados nos votos de ajudar a todos os enfermos. Sabíamos dos riscos, enquanto políticos gastavam milhões com respiradores e hospitais de campanha. Enfrentávamos sozinhos os pacientes doentes, ali na nossa frente, às vezes sem máscaras ou aventais em quantidades necessárias, pois não haviam para comprar. Não havia vacinas, não tínhamos certeza de como evitar a transmissão, mas continuávamos ali, sem faltar plantões, sem recuar, sem greves ou paralisações, pois sabíamos que precisavam de nós. Muito pelo contrário, muitas vezes fomos chamados para plantões e horas-extras, isso porque colegas adoeciam e o movimento aumentava com o passar das semanas.

Durante os meses que seguiram, contrai dentro do hospital o Covid. Sem remuneração, cumpri o isolamento. Tratei-me, fiquei recuperado e voltei ao trabalho, agora com mais contas pra pagar. Vi colegas sem tanta sorte, indo para CTI – e até perdemos alguns, deixando famílias e filhos. Deus quis que eu me curasse, com os desejados anticorpos que agora me possibilitam acreditar que posso dormir mais tranquilo. Muitos não pegaram e a vacina chegou: foram também imunizados, mesmo aqueles que fecharam seus consultórios e optaram por não atender enquanto não estivessem seguros.

Todos agora podemos continuar a fazer o que sempre fizemos: tratar os pacientes não só do Covid mas de todas as moléstias, algumas muito mais mortais, “esquecidas” ou colocadas em segundo plano, fazendo um número equivalente de vítimas como infarto, aneurismas, câncer, etc. Hospitais respiram aliviados assim como médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, nutricionistas, entre tantos que fizeram das tripas coração para atender a todos que pudessem sem receber um centavo de aumento.

Depois de tudo, já numa situação um pouco mais confortável do ponto de vista numérico, sem desprezar aqueles que ainda agonizam, governos e autoridades aparecem agora nos obrigando a usar esta ou aquela máscara dentro dos hospitais. E isso ainda agora, com vacina, momento em que a pandemia recua, que já enfrentamos a doença em nossa pele? Agora preciso usar uma N95? E, muito além, instituem agora um passaporte vacinal, quando já atingimos um número confortável de vacinados e baseado em todo conhecimento disponível para que pudéssemos compreender que, sem uma mutação nesse quadro, não haverá novo surto, que somente haverá caso uma mutação significativa ocorra, a qual também desconsiderará a imunidade produzida pela vacina neste caso.

Depois de tudo, depois de centena de pacientes que atendi, que ajudei, que tratei, acordo com a notícia que o passaporte vacinal, hoje no Dia do Médico, me impedirá de circular, pois uma vez imunizado naturalmente pela doença, optei por deixar de me vacinar (já tive reação importante a vacinas no passado, que quase me custaram a vida).

Descobri que sou uma ameaça se circular em cinemas, teatros ou outros eventos. Sou um risco agora, tendo sido a esperança em outro momento. Então perdoem-me se vejo algo de hipócrita nesta sociedade que hoje me parabeniza.

Leia também: Vacinas: dúvidas, medos e certezas

*Dr. Guilherme Krahl é cirurgião cardiovascular em Passo Fundo

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Eduardo Leite no Flow – Análise da entrevista no Podcast

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eduardo leite no flow

O governador Eduardo Leite participou do programa em São Paulo na última sexta-feira, transmitido ao vivo pelo Youtube

O governador Eduardo Leite mais uma vez deu um tempo em suas atribuições palacianas para participar de programas nacionais. A escolha da vez foi o Podcast Flow, canal do Youtube com mais de três milhões de inscritos, conhecido por realizar entrevistas despojadas e longas. Leite falou por quase 3 horas para os apresentadores Monark e Igor 3K.

Apresentações, amenidades e discussões sobre como funciona o sistema eleitoral brasileiro e opções na democracia (como consultas populares) tomaram conta dos primeiros 30 minutos da entrevista. Então vem o primeiro ponto de interesse, a questão das drogas. Quando indagado sobre o que os gaúchos pensam sobre as drogas, Leite afirmou que é não é muito diferente do resto do Brasil, onde há aprovação para uso medicinal, mas existe ainda preconceito para o uso recreativo. Disse ainda que há muitos medos sobre isso e pouco esclarecimento, por isso é preciso promover o debate para formar consciência. Em tempo: o Flow tem um perfil jovem, um tanto debochado e o assunto é de interesse da casa. O próprio Monark se declara “maconheiro máximo”.

Então vem a razão das piadinhas sobre Pelotas. Leite sustentou a velha história sobre os filhos de estancieiros ricos produtores de charque que voltavam dos estudos na Europa como modos requintados. Em meio à habitantes rudes em pleno século XIX, criou-se assim a fama que todos nós conhecemos.

 

eduardo leite flow piadinha gay

Leite em momento descontraído da entrevista, falando sobre Pelotas.

O assunto “governador gay” foi abordado em diversos momentos, com detalhes íntimos (1:44:00) sobre descobrimentos pessoais e namorados, a relação com movimento gay e a defesa de ideias de grupos organizados. Leite generaliza quanto à defesa de agendas, dando a entender que não levanta bandeiras de movimentos, mas seus governos defendem minorias. Citou ações governamentais como a adaptação de banheiros (já falamos aqui).

“A agenda estará presente, como sempre esteve, quando fui prefeito, sendo governador, e, se tiver oportunidade de ser presidente, também. Mas não é só a agenda LGBT, é a agenda da igualdade, de mulheres, de homens, trans, gays, negros, brancos, índios. A gente precisa fazer este país avançar do ponto de vista civilizatório”.

Eu fui muito sincero na campanha

Sobre o funcionalismo – especialmente no caso dos professores – Leite declarou que “foi muito sincero na campanha, não tem como resolver uma situação dramática nas contas com soluções simpáticas ”. Espantado, o apresentador pergunta “tu falou isso na campanha e ganhou?”. Sim, pode consultar, diz o então candidato que prometia para senhoras de idade em vídeo que pagaria o salário em dia no primeiro ano de governo.

Eduardo Leite Presidente

O governador, ainda que levemente comedido neste momento, quer ser candidato enfrentando Dória e outros grandes nomes do PSDB nas prévias (dias depois desta entrevista, Tasso Jereissati abandonaria a corrida interna para abrir apoio a Eduardo). O cenário mostrado na entrevista coloca a possibilidade do nosso governador ser o candidato tucano para enfrentar Bolsonaro em 2022. No conjunto de propostas, luta contra desigualdade social, defesa de crianças, desburocratização, reforma tributária e transparência.

Críticas ao presidente Bolsonaro

Em vários momentos, entre uma conversa e outra, Bolsonaro é considerado divisor, despreparado, antidemocrático, burro (em outras palavras) e agente que ajudou a desequilibrar a economia e aumentar o “preço do gás da Dona Maria”.

Outros destaques

Leite continua celebrando bons números da segurança pública, com diminuição de vários índices nos últimos anos e jogando na conta unicamente de suas boas ações, sem considerar o período de pandemia.

Há uma ambiguidade constante nas narrativas da entrevista: algo é importante para um governante, minutos depois é considerado menor – frente aos outros problemas mais imediatos – e um pouco mais tarde é novamente relevante. Isso fica bem claro na questão das agendas progressistas e identitárias.

Muita coisa ainda vai rolar

A linha “nem Lula nem Bolsonaro” dá o tom no embate pré-eleitoral na já bem estudada estratégia do nosso governador. Leite não quer conflito, focando nos problemas reais do país e tentando convencer o eleitor “centro-direita pra cima” de que ele próprio não será um problema. Se do lado de lá existe a queima controlada de capital político ao discutir temas e propor soluções, do lado do eleitor mais preocupado existe o temor pela queima de capital moral. O que você aceitaria perder para ganhar um país melhor? Este sim, o xis da questão no pleito de 2022, para todos os lados.

Foi um bom programa, dentro da proposta do Flow, obviamente. Até meados da tarde de quarta, 29, o vídeo contava com 458 mil visualizações, 29 mil likes e 2,2 mil “dislikes”. Para comparar, outros convidados que por lá passaram estão assim: João Amoedo (372 mil), João Dória (971 mil) e Ciro Gomes (2,6 milhões, transmitido três meses atrás).

Eduardo Leite no Flow – o destaque dado pela equipe do governador para algumas falas

É interessante acompanhar os temas filtrados e destacados pelas equipes das redes sociais do governador. Das três horas de entrevista, estes foram os pontos publicados no Twitter, durante o evento:

“Espero vocês logo mais, às 20h, no Flow Podcast, para uma conversa descontraída e profunda sobre política, vida, ideais, sonhos, futuro, ideias para um Brasil mais justo e igual e transformações que estamos fazendo no Rio Grande do Sul.”

“Não se faz política pública no improviso. No Brasil é assim. Alguém pergunta ‘por que isso é feito desse jeito?’. A resposta é: ‘porque sempre foi assim’. Precisamos de dados e tecnologia para resolver os problemas, não de jeitinho.”

“Política não pode ser feita só pelo desejo pessoal. Não estou na política pelo que ela pode fazer para mim, mas pelo que ela pode fazer para os outros. E se é pra fazer uma politica do contra, que seja contra a inflação e o desemprego.”

“Num país que tem uma desigualdade brutal, combatê-la e gerar oportunidades é obrigação de um governo. No fim das contas, o que o brasileiro quer é trabalhar e ser feliz.”

“No Brasil, 17 milhões de pessoas vivem com menos de R$ 460. Há mecanismos de proteção para os adultos, mas não para as crianças. Falta dinheiro para comida e também para a compra de material escolar. O combate à pobreza infantil é uma necessidade.”

“A gente é criado num mundo que nos faz acreditar que ser gay é errado. Acredito que a pessoa tem que ser quem ela quiser, isso não interfere na vida dos outros. Não sou melhor por ser gay, mas não aceito que seja colocado como pior.”

“O Brasil não precisa de um terceiro polo de radicalização. Não quero fazer uma campanha contra o Lula ou Bolsonaro, mas a favor do Brasil. Quero falar das soluções que temos para o Brasil. Ir em frente pelas nossas qualidades e não pelos defeitos dos outros.”

Veja também

Eduardo Leite: um político refém das próprias mentiras contadas na campanha eleitoral

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“Se hoje o Bolsonaro disser que água faz bem, amanhã vão começar a dar Qboa para o pessoal tomar”

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Ada Munareto (PL) e Rodinei Candeia (PSL) criticaram a maneira com a qual a grande mídia retrata as ações do Governo Bolsonaro

Na Sessão Plenária do dia 9 de junho, Rodinei Candeia (PSL) criticou recente texto da Folha de São Paulo do jornalista Vinicius Torres Freire, com o seguinte título: “Economia dá mais sinais de despiora”. Para o parlamentar, a grande mídia é incapaz de colocar qualquer palavra que sinalize algo de positivo referente ao Governo Bolsonaro:

Olha a que ponto chega o escárnio de uma mídia corrupta que quer manipular a opinião pública a ponto de não querer colocar uma palavra positiva para retratar com fidelidade a situação que nós estamos vivendo na economia brasileira atual”.

Já na Sessão Plenária desta segunda-feira (14), Ada Munaretto (PL) criticou as recentes postagens de jornalistas de esquerda. Uma delas até uso de expressões racistas para se referir a manifestantes a favor de Bolsonaro. De acordo com a parlamentar, se a mesma postagem tivesse sido feita por um apoiador do presidente, a grande mídia não iria deixar passar em branco.

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