A crise de credibilidade da imprensa americana

Se você vive no Brasil, já deve ter ouvido falar algo a respeito de Donald Trump. Muito provavelmente, a maior parte dos comentários que você ouviu a seu respeito — por meio da imprensa ou na sua roda de amigos — é negativa.

Saiba que você não está sozinho. Muitos americanos estão sendo expostos pela imprensa americana a este mesmo tipo de comentário diariamente. No final de seus 100 dias de governo, no mês de abril, estimava-se que 89% da cobertura da mídia americana ao presidente era negativa. Não é de se surpreender, portanto, que muitas pessoas, nos EUA e afora, tenham uma imagem péssima deste que atualmente é o homem mais poderoso do mundo. Visto que muitos jornalistas brasileiros obtêm informações sobre política americana através de grandes veículos de comunicação como a CNN, The New York Times e Politico, é natural que a cobertura jornalística das agências de notícia no Brasil reflita o tom negativo destes meios.

Em uma sólida República como a dos EUA, a imprensa exerce o importante papel de fiscalizar o governo e ser um veículo de prestação de contas daqueles que foram eleitos para representar o povo. Justamente por isso, a imprensa é apelidada de “Quarto Poder”. Mas se a imprensa tem o dever de fiscalizar os agentes do Estado, quem está incumbido de fiscalizar os agentes da imprensa? Como podemos saber se imprensa está cumprindo sua nobre missão de informar o cidadão, de maneira isenta, ou se as agências de notícias se tornaram grandes corporações a serviço de poderosas elites que, por meio de desinformação, moldam a opinião pública de acordo com os seus interesses?

A verdade é que o Quarto Poder nos EUA passa por uma crise de credibilidade sem precedentes. Menos de dois meses antes das eleições presidenciais, a opinião dos americanos a respeito da imprensa não era das melhores: somente 32% deles diziam que a mídia era confiável, o índice mais baixo desde que a pesquisa começou a ser feita pelo Instituto Gallup nos anos 70. Naquele momento, a grande dúvida ventilada pelos jornalistas não era se Hillary iria ganhar as eleições – um fato tido como concreto –, mas quão grande seria sua vantagem sobre Trump. Praticamente todas as pesquisas de opinião e todos os jornais de expressão previam uma vitória avassaladora da democrata. Duas semanas antes das eleições, o Washington Post publicava que “As chances de Trump vencer a eleição se aproximam de zero”. O Huffington Post foi um pouco mais generoso, dando a Trump 2% de chance de vitória, enquanto o The New York Times, o mais otimista, lhe dava 15% de chances de vencer. Quando Donald Trump contrariou todas as previsões, o anúncio de sua vitória caiu como uma bomba nuclear sobre o establishment midiático e um cataclismo se abateu sobre todas as redações da América. Os modelos de previsão haviam falhado miseravelmente e todos – a começar pelos membros da comunidade jornalística – foram obrigados a refletir sobre a miopia generalizada da grande mídia. Em um editorial dirigido aos seus assinantes, o The New York Times fez um mea culpa, reconhecendo que havia “subestimado o apoio dos eleitores americanos a Trump”, prometendo a seus leitores “dedicar-se novamente aos princípios fundamentais do jornalismo” e agradecendo-os por sua fidelidade.

Muitas teorias surgiram para explicar este fiasco monumental como, por exemplo, o fenômeno conhecido como “bolha midiática” – o fato de a imprensa ser majoritariamente composta por membros das chamadas “elites urbanas” em Los Angeles, Nova Iorque e Washington, totalmente desconexas da realidade de eleitores das zona rurais nos EUA (onde o apoio a Donald Trump foi maior do que o previsto). Apesar de este ser um fator plausível, há outros fatores mais relevantes que devem ser levados em consideração em nossa análise.

Atualmente, 93% dos jornalistas americanos se identificam como democratas e 96% das contribuições à campanha presidencial feitas por jornalistas foram destinadas à Hillary Clinton. Centenas de e-mails vazados pelo Wikileaks trouxe à luz uma série de revelações embaraçosas que igualmente demonstram um preocupante grau de aproximação entre a imprensa americana e o Partido Democrata: desde confraternizações secretas entre a equipe de Hillary e conhecidos âncoras americanos – como Gloria Borger (CNN), George Stephanopoulos (ABC) e Rachel Maddow (MSNBC) – até a coordenação de uma lista de perguntas elaboradas por membros do Partido Democrata a serem feitas aos presidenciáveis Ted Cruz e Donald Trump durante entrevistas e debates na CNN.

Tais revelações naturalmente levam qualquer cidadão intelectualmente honesto a questionar o nível de integridade e objetividade da imprensa. Era de se esperar que, diante dos lamentáveis espetáculos envolvendo a grande mídia nos últimos meses, membros da comunidade jornalística pudessem aprender a lição, se não por uma questão de caráter, pelo menos por uma questão de autopreservação: atualmente, 65% dos eleitores americanos acreditam que a grande mídia deliberadamente propaga “Fake News” (notícias falsas), uma tendência que, caso se mantenha, não garante um futuro promissor aos veículos tradicionais de mídia.

Pelo que tudo indica, no entanto, nada mudou. Imediatamente após a vitória de Donald Trump, diversas narrativas foram propagadas pela grande mídia no intuito de deslegitimar o seu mandato. Entre as mais populares, está a de que Trump teria sido favorecido por um levante de supremacistas brancos ; uma avalanche de “Fake News” (notícias falsas) nas mídias sociais que teria influenciado a opinião dos eleitores a favor de Trump; e a narrativa de que hackers russos, a serviço de Vladmir Putin, teriam influenciado os resultados das eleições e favorecido Trump. Diante da falta de evidências, todas as narrativas foram perdendo força e morreram com o passar dos meses, com exceção da narrativa dos hackers russos – que estabelece um conluio entre Trump e Putin e se tornou uma verdadeira obsessão na grande mídia. Entretanto, até mesmo esta narrativa parece estar com seus dias contados.

A CNN, que hoje ocupa quase toda sua programação falando dos hackers russos, assegurava (quando ainda tinha absoluta certeza de que Hillary ia vencer) que, devido à descentralização do sistema eleitoral, “a probabilidade de um ataque cibernético influenciar as eleições americanas é zero”. Meses de investigação não foram suficientes para encontrar nenhuma prova que estabeleça o suposto conluio entre Donald Trump e Vladmir Putin. Um documentário de James O’Keefe, ativista conservador, mostra um produtor da CNN confirmando que a rede tem alimentado a narrativa dos hackers sem nenhum tipo de prova, somente para aumentar sua audiência. Com o passar do tempo, na falta de provas que possam sustentar a teoria de que “Putin elegeu a Trump”, a narrativa se desmorona e começa-se a questionar a competência de Barack Obama, já que as supostas tentativas se deram em diferentes ocasiões quando as agências de inteligência e segurança ainda estavam sob sua liderança (o feitiço vira contra o feiticeiro).

Trump não foi o primeiro e nem será o último presidente a ser criticado pela imprensa. No entanto, ele foi o único a denunciar de forma contundente o viés daqueles que dizem ser imparciais. Projetando-se como alguém de fora do establishment político, financiado com seu próprio dinheiro e que, portanto, não estava à mercê dos grandes lobbies, Trump expôs a imprensa americana como um conjunto de grandes corporações que não estavam a serviço do povo americano, mas sim do Partido Democrata e de grandes grupos de interesse. “Eu sou a sua voz contra os grupos de interesse” – dizia, e sua voz não podia ser calada ou abafada por aqueles que presumiam ter o monopólio da comunicação. Durante toda sua campanha, Trump conseguiu passar por cima da imprensa ao falar diretamente com os seus por meio das mídias sociais e em seus comícios.

Apesar de sucessivas tentativas, a mídia não pôde destruir Donald Trump, mas colaborou muito para sua autodestruição. Aguardamos por uma imprensa que surja como a fênix que reluz a partir das cinzas, que propague notícias e não narrativas, fatos e não propaganda, e que possa resgatar os princípios da ética jornalística hoje negligenciados por grande parte dos profissionais da imprensa.

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