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A obra de Janot, o denuncista compulsivo

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A imagem de Rodrigo Janot junto ao advogado de Joesley Batista em um boteco de quinta categoria em Brasília é o retrato da desmoralização a que a Procuradoria Geral da República foi submetida durante o seu mandato. Em meio a caixas de cerveja quente, lá estava o chefe do Ministério Público, portando óculos de sol em um ambiente fechado. Querendo ser James Bond, Janot só conseguiu reproduzir o estilo ridículo e atrapalhado do Inspetor Clouseou. Cabe perguntar, inclusive a Deltan Dallagnol e a Carlos Fernando, se o referido encontro foi fora da agenda.

Sempre disse, aqui e em todo lugar, que o principal risco para a Lava Jato não eram as supostas tramoias de políticos, mas a atuação temerária dos integrantes da Força-Tarefa. Apontei, entre outros problemas, que a operação havia deixado de produzir provas para produzir teoria política e, em muitos casos, teoria conspiratória. E esse é apenas o aspecto menos deletério de um conjunto de escolhas e posturas erradas.

A delação de Joesley e da JBS se configura como um dos grandes escândalos nacionais. Janot ofereceu a inimputabilidade penal como recompensa para um sujeito que confessara centenas de crimes. A coisa fedeu desde que foi parida. Antes da divulgação dos áudios capengas contra Michel Temer, a JBS fez operações financeiras com dólares. Sabendo do estrago que causaria na economia ao tentar atingir o Presidente, o delator buscou lucrar um tantinho em cima. E foi de mala e cuia para os EUA, com o beneplácito dos moralistas inconsequentes.

Tudo teria ficado assim não fosse o próprio Joesley gravar a si e a seu colaborador, Ricardo Saud. No papo etílico, registrado por acidente, ambos evidenciaram a participação do braço direito de Janot, o ex-procurador Marcelo Miller, no esquema. Miller, que havia saído do MPF diretamente para a banca de advogados da JBS, foi peça ativa na negociação da delação. Agora se descobre que até de grupinhos de WhatsApp eles participavam conjuntamente.

A Lava Jato chegou na Procuradoria Geral da República. Além de Miller, as gravações de Joesley mencionam outros integrantes da instituição, incluindo Eduardo Pelella, nada menos do que o chefe de gabinete de Janot. Com tanta gente de seu entorno envolvida, é de se questionar se a teoria do domínio do fato, usada pelo Ministério Público para denunciar Lula e Temer, se aplicaria ao próprio chefe do Ministério Público.

Tivesse o Procurador-Geral da República o mínimo de compostura, o mínimo de recato institucional, teria recuado imediatamente, permitindo que toda e qualquer nova ação ficasse a cargo de sua sucessora, Raquel Dodge. Mas não, ele preferiu o protagonismo, viciado e compulsivo que se tornou pelos holofotes.

No esforço de reverter o noticiário negativo que o atingia, saiu como um verdadeiro maníaco, oferecendo uma denúncia atrás da outra. Em pouco mais de uma semana, representou contra Lula, contra Dilma, contra a cúpula do PT, contra a cúpula do PMDB e, agora, contra Temer. Nada disso, entretanto, esconde o fato de que Janot continua em uma situação complicada. O que ele conseguiu com sua ação desesperada foi contaminar as suas iniciativas.

O desgaste da imagem de Janot, e até mesmo da sua autoridade, comprometeu suas ações, que nasceram viciadas pelo oportunismo e pelo açodamento. Esta última denúncia contra Temer nasce politicamente morta. As demais, apresentadas em série, já caíram no esquecimento. É a árvore das frutas envenenadas produzindo a impunidade no longo prazo. Rodrigo Janot encerra melancolicamente sua passagem pela Procuradoria-Geral da República. A grandiloquência com que a conduziu é proporcional ao efetivo rebaixamento da credibilidade produzido na instituição. Eis ai uma obra digna de constar em uma exposição do Santander Cultural.

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