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A esquerda britânica trabalha para impedir o Brexit: entenda algumas das estratégias

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Ampliar o poder do Momentum através de perseguições políticas e espalhar Fake News com auxílio da grande mídia são algumas das estratégias da esquerda britânica para desmoralizar o voto popular e frear o Brexit. A cartada final será a convocação de um segundo plebiscito.

O Brexit pode não ocorrer. A esquerda britânica está disposta a fazer de tudo para reverter a decisão da maioria da população do Reino Unido, tomada no referendo de junho de 2016, quando 51,89% dos eleitores optaram por deixar a União Europeia.

Por um lado, o Momentum, movimento radical de ideologia marxista e internacionalista, continua a aumentar sua influência dentro do Partido Trabalhista, preparando-o para se opor ao acordo com a União Europeia -qualquer que seja.

Por outro lado, a grande mídia continua fornecer cenários econômicos catastróficos para um pós-Brexit, tentando convencer a opinião pública de que a escolha democrática pela emancipação política foi um tremendo erro. A novidade agora é uma enxurrada de ‘fake news’ que buscam deslegitimar o referendo questionando a sua legalidade. O caso “Cambridge Analytics”, ainda que não tenha tido o impacto esperado, é um exemplo de que a esquerda britânica, em conluio com os líderes internacionalistas e a grande mídia, fará qualquer coisa para reverter a decisão da maioria da população e subjugar a democracia quando ela contraria seu projeto de poder.

Um novo referendo

Ainda que figuras importantes da direita britânica tenham se engajado fortemente na campanha contra o Brexit antes do referendo – como foi o caso da própria Primeira Ministra Theresa May – e algumas outras, mesmo após o referendo, não perdem nenhuma oportunidade de manifestar abertamente a sua contrariedade.

O Partido Conservador, bastião da direita no Reino Unido, assumiu o compromisso de deixar a União Europeia, com acordo ou sem acordo. Sem dúvida a posição assumida pelo Partido Conservador é a mais penosa. O voto a favor do Brexit não teve motivação tão coesa quanto o voto para permanecer, e chegar a um acordo com a União Europeia que satisfaça todos aqueles eleitores é uma tarefa impossível. Existem mil maneiras de desfazer um acordo, mas apenas uma de mantê-lo. O desgaste é inevitável.

A esquerda, representada pelo Partido Trabalhista e pelo Partido Liberal Democrata, de forma muito perspicaz, se aproveita dessa situação, explorando as insatisfações particulares dos diferentes tipos de eleitores que formaram o voto pelo Brexit.

Essa situação se reflete sobre o Parlamento. No Reino Unido impera o voto distrital. Com isso, interesses regionais ganham maior relevância.  As regulações impostas pela acordo de livre comércio da União Europeia teve enorme impacto em economias locais, restringindo e empurrando pequenos produtores e comerciantes para fora do mercado. Um acordo de saída da União Europeia inevitavelmente envolverá concessões do governo britânico e com isso algumas dessas regulações deverão permanecer como contrapartida para um novo acordo comercial com o bloco. O resultado é que alguns distritos favoráveis ao Brexit podem vir a ser contrários ao acordo final, influenciando os parlamentares representantes dessas regiões, sejam eles trabalhistas ou conservadores.

Não obstante, insatisfações pontuais contra o acordo final advindas de dentro do Partido Conservador não seriam motivo suficiente para impedir o Brexit. A esquerda, contudo, tem outros planos. A estratégia que tem mais chance de sucesso é a de convocar um segundo referendo. Essa seria uma posição “intermediária” que poderia seduzir alguns parlamentares conservadores. Quando questionados a respeito, representantes trabalhistas não negam a possibilidade de eventualmente apoiar um novo referendo. Foi o caso de Tom Watson, importante líder trabalhista dentro do Parlamento, em recente entrevista ao jornalista Andrew Marr. Assim, os trabalhistas deixam aberta a possibilidade caso a conjuntura política lhes dê a chance. Claro que restaria ainda enfrentar a resistência dentro do próprio Partido Trabalhista. Mas Jeremy Corbyn e seus seguidores sabem muito bem como fazer isso.

Momentum Cresce de Golpe em Golpe

De golpe em golpe, o Momentum catapulta adversários políticos dentro do próprio Partido Trabalhista. Aos poucos o movimento vai consolidando o controle sob o Partido Trabalhista, amparado por seu líder Jeremy Corbyn. Claire Kober (foto) do distrito de Haringey foi a primeira. Em janeiro, ela renunciou ao cargo após o Momentum atingir votos suficientes para minar sua base política no distrito. Após anunciar a renúncia, Claire, que já havia resistido uma primeira tentativa de golpe no final de 2017, disse ao Evening Standard que “o sexismo, o bullying, o comportamento antidemocrático e os ataques pessoais dirigidos a mim como a mulher mais graduada do governo trabalhista me deixaram desapontada e desiludida”.

No início de março foi a vez do prefeito do distrito de Newham, Sir Robin Wales. Com mais de 20 anos de experiência no cargo, Sir Wales foi preterido na eleição interna e não concorrerá à reeleição. Rokhsana Fiaz, a nova candidata, foi apoiada publicamente pelo fundador do Momentum, Jon Lansman.

Outro a sofrer uma tentativa de golpe foi Simon Hogg, líder do partido trabalhista em Wandsworth, considerado como ‘moderado’. O Evening Standard teve acesso aos áudios de uma reunião privada de ativistas do Momentum em que discutiam táticas para catapultar Hogg do cargo. Um dos ativistas diz: ‘não se esqueçam que vocês são Momentum, vocês ainda podem fazer campanha contra um trabalhista’.

Claire Kober

Claire Kober acusa sexismo e comportamento antidemocrático no Partido Trabalhista (Foto: The Times)

Outra tática usada pelo Momentum que vem sendo denunciada na mídia pelos trabalhistas moderados é a implementação de conselhos regionais para escolha dos candidatos. Uma medida aparentemente democrática é, na verdade, um golpe do Momentum que se apressa em ocupar os Conselhos e manipular as indicações.

Alarmismo: o papel da mídia e Cambridge Analytica

Mesmo antes do referendo, a participação da grande mídia no debate sobre um possível pós-Brexit foi, com algumas raras exceções, a de profetizar o apocalipse. Existe uma imensidão de exemplos nesse sentido.

É bastante ilustrativa a matéria do Telegraph de março: “Trabalhadores britânicos são ‘mais preguiçosos e mais caros’ que imigrantes”. (Não é preciso dizer qual seria a reação da intelligentsia caso a matéria fosse “trabalhadores imigrantes são mais preguiçosos que britânicos”). Na matéria, lê-se que, com a queda da imigração, a economia britânica seria menos produtiva, a população da Irlanda e do País de Gales deve decair, e o impacto na proporção entre jovens e idosos vai reduzir o crescimento econômico.

Matérias alarmistas como essa são recorrentes na mídia britânica. O caso Cambridge Analytica, porém, foi mais fundo na lama. Cambridge Analytica é uma empresa canadense de análise de dados que presta consultoria para campanhas políticas, traçando o perfil de eleitores, a fim de potencializar o impacto da publicidade. A empresa trabalhou para a campanha presidencial de Donald Trump e, na Inglaterra, para o grupo BeLeave, um dos grupos que fez campanha em favor do Brexit. Segundo denúncia do ex-diretor de pesquisa da companhia, Christopher Wylie, a empresa teria utilizado dados pessoais de perfis de Facebook adquiridos de forma supostamente ilegal, sem o consentimento ‘explícito’ dos usuários. O Guardian noticiou como se fosse um apocalipse. Mas como bem lembrou Ben Shapiro, comentarista conservador americano, o mesmo Guardian se derramou em elogios aos marqueteiros de Obama quando ele foi eleito presidente utilizando o mesmo expediente.

Até aqui, nada demais. Porém, na sequência desse escândalo, Shahmir Sanni, que trabalhou como voluntário para os grupos Vote Leave e BeLeave, denunciou um suposto esquema de manipulação de gastos de campanha. As regras eleitorais no Reino Unido determinam um teto de gastos para os diversos grupos registrados. Segundo Sanni, os dois eram distintos formalmente, mas na prática funcionavam como o mesmo grupo. Ou seja, o BeLeave seria apenas um grupo de fachada com propósito de compartilhar os fundos de campanha de maneira que o teto não fosse ultrapassado. Os documentos que comprovariam essa acusação teriam sido destruídos. A única ‘prova’ que a mídia conseguiu para sustentar a história é um pendrive contendo arquivos de campanha que foi utilizado pelos dois grupos.

Ainda que as manchetes fantasiosas tenha repercutido em todos os veículos de mídia por algum tempo, a história agora esfriou porque, além do risível pendrive, nenhuma prova foi encontrada. Todavia, o caso é ilustrativo. A extensão da cobertura foi absolutamente desproporcional com os fatos apresentados. Mais um claro exemplo de Fake News como instrumento de manipulação política.

Falta combinar com os Russos

Enquanto o Momentum e a mídia conspiram por trás dos panos, algumas figuras públicas não escondem que trabalham para impedir o Brexit. Tony Blair, ex-Primeiro Ministro trabalhista, recentemente afirmou que as chances de reverter o Brexit aumentaram e acrescentou: “é absolutamente necessário que o Brexit não aconteça”.

Theresa May, por sua vez, continua a sua maratona para alcançar um acordo para o Brexit, ainda que com alguns tropeços. A escalada dos conflitos entre o bloco europeu e a Rússia de Vladimir Putin – reacendida depois da tentativa de assassinato do agente-duplo russo Sergei Skripal e intensificada pela situação geopolítica no Oriente Médio – fez amenizar temporariamente as diferenças político-econômicas entre os líderes europeus. As trocas de farpas deram lugar as declarações de solidariedade e apoio mútuo. As negociações entre Theresa May e os representantes da União Europeia agora se dão em tom mais amistoso e a evolução das tratativas é evidente. O beijo gracioso de Michel Barnier (foto), chefe das negociações para o Brexit da União Europeia, foi um sinal público de mudança de postura. Além do mais, o Partido Conservador conseguiu um excelente resultado nas eleições locais no início do mês de maio, freando o crescimento do Momentum e do Partido Trabalhista.

O beijo da trégua – Michel Barnier surpreendeu Theresa May e a mídia com um gesto simbólico que sinalizou a mudança de postura entre o governo britânico e a União Europeia (Foto: Evening Standard)

O beijo da trégua – Michel Barnier surpreendeu Theresa May e a mídia com um gesto simbólico que sinalizou a mudança de postura entre o governo britânico e a União Europeia (Foto: Evening Standard)

O destino do Reino Unido continua nas mãos do Partido Conservador. Apesar de todas as dificuldades, o pior momento do governo de Theresa May parece ter ficado pra trás. Se a Primeira Ministra conseguir manter o seu partido minimamente unido e evitar grandes polêmicas, é pouco provável que o plano escuso da esquerda prospere. Caso contrário, o Momentum e a mídia estarão prontos para boicotar o Brexit e escurecer ainda mais o cenário já nebuloso.

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Ernesto Araújo é convidado para explicar apoio brasileiro ao Plano de Paz de Trump

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Conforme divulgado pelo site de notícias do Senado Federal, a Comissão de Relações Exteriores (CRE) aprovou na quinta-feira passada (6) um convite para que o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, preste informações sobre a posição brasileira em relação ao plano de paz apresentado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para o conflito entre Israel e Palestina. A data da audiência pública ainda não foi definida.

Depois de estreitar os laços da Coreia do Norte com o Ocidente, algo antes nem sonhado por Barack Obama, o democrata que inclusive foi agraciado com Nobel da Paz, agora Donald Trump quer dar um rumo para um conflito que se estende desde a fundação do estado de Israel. O plano divulgado pelo governo norte-americano no dia 28 de janeiro prevê o reconhecimento de Israel e Palestina como estados soberanos.

De acordo com o plano, Jerusalém permaneceria indivisível como capital israelense, enquanto o povoado de Abu Dis abrigaria a capital do Estado Palestino. Lideranças palestinas criticaram a proposta, considerando que ela favorece os interesses de Israel. Ainda, estabelece a soberania israelense sobre boa parte do vale do rio Jordão, a oeste da fronteira com a Jordânia. Este território engloba partes da Cisjordânia, região de maioria palestina que é reivindicada como parte do Estado palestino. Trump anunciou o plano na Casa Branca ao lado do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, que historicamente defende a anexação do Vale do Jordão por Israel (imagem).

No seu pronunciamento, o presidente norte-americano apontou que será uma solução realista para os dois Estados, sendo que, assim, nenhum palestino ou israelense “será retirado de suas casas”. A proposta também inclui um investimento comercial de US$ 50 bilhões, que geraria, segundo Trump, 1 milhão de empregos para os palestinos nos próximos dez anos.

No entanto, a proposta não está sendo vista pelos mesmos olhos do lado palestino. O presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, criticou e recusou nesta terça-feira, 11, perante o Conselho de Segurança da ONU, o plano de paz para israelenses e palestinos proposto pelos Estados Unidos. Na sua avaliação, o plano não proporciona soberania ao povo palestino.

O apoio brasileiro foi imediato. É notório o estreitamento dos laços do presidente Jair Bolsonaro com EUA e Israel. O autor do requerimento de convite para o ministro Ernesto Araújo é o senador Esperidião Amin (PP-SC). Ele destacou que, um dia após a apresentação do plano, o Itamaraty divulgou uma nota de apoio à proposta de Donald Trump. “Trata-se de iniciativa valiosa que, com a boa-vontade de todos os envolvidos, permite vislumbrar a esperança de uma paz sólida para israelenses e palestinos, árabes e judeus, e para toda a região”, destaca a nota do Ministério das Relações Exteriores brasileiro.

Para Esperidião Amin, a postura do Itamaraty representa uma “mudança de posição”: “O Brasil tem uma história de relação tanto com Israel quanto com a Palestina. Nenhum país do mundo tem uma relação tão diplomática, tão intensa. Chamar o ministro para explicar essa mudança da posição do Brasil não significa contestar. Mas ignorar isso, creio que seria uma irresponsabilidade”.

O presidente da CRE, senador Nelsinho Trad (PSD-MS), afirmou que o ministro Ernesto Araújo se dispõe a participar da audiência pública.

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A crise venezuelana não deixa dúvidas: votar em Bolsonaro foi dever cívico

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O apoio incondicional à ditadura de Maduro vinda do PT e de todos os partidos que formam sua linha auxiliar (PSOL, PC do B, PCB e afins) não é segredo e causa repulsa. Gleisy Hoffmann, atual presidente do PT, fez questão de comparecer pessoalmente à renovação do mandato de Maduro.

A esquerda não poupa esforços em verdadeiras ginásticas pseudo-intelectuais para tentar justificar os horrores que estão acontecendo no que era um dos países mais promissores da América Latina. Perguntado sobre o chocante registro de um atropelamento de manifestantes por um blindado, Pepe Mujica, ídolo da militância progressista, disse que “as pessoas não devem ficar em frente aos tanques”. Ou seja: em nome da causa, todo tipo de violência e arbitrariedade será válido.

Para a esquerda, assim como não importa o que é dito, mas sim, quem diz, também não importa o que é feito, mas sim, quem faz.

É difícil fazer um prognóstico dos próximos desfechos. O certo é que, ao povo venezuelano, restam apenas duas alternativas: insurgir-se até a derrubada de Maduro – aos moldes do que fizeram os heróis ucranianos na praça Maidan em 2014 – ou reconhecer a derrota e sujeitar-se à ditadura, abrindo mão de sua liberdade.

Qualquer intervenção militar internacional antes do levante total do povo venezuelano será vista como ato imperialista, contando com possível reprovação da ONU – que, aliás, mantém postura exageradamente passiva, considerada a gravidade da crise.

Agora imaginem como seria se Maduro contasse com o apoio financeiro e político do maior país da América Latina? Se o ditador não sofresse a pressão do cerco formado por Brasil e Estados Unidos? Imaginem os constrangedores discursos de Haddad em defesa de Maduro, o nosso dinheiro sendo utilizado para esmagar pessoas inocentes! É de causar arrepios.

O governo Bolsonaro merece críticas, como qualquer governo. Parece uma sinfonia que ainda busca seu tom. Mas diante do cenário regional, não há como negar o fato de que cumpriu dever cívico quem digitou “17” nas urnas em outubro de 2018.

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A demissão de Roger Scruton: quando a razão é vítima da covardia

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Assim como o incêndio de Notre Dame é acontecimento simbólico da decadência do Cristianismo na França, a demissão de Roger Scruton será lembrada como o começo do fim do Partido Conservador britânico. Ao sacrificar o seu mais brilhante pensador e ideólogo, os atuais líderes do partido, que já amplamente demonstraram sua incompetência em matéria de prática política, agora explicitam a sua profunda covardia e inépcia moral.

No último dia 10 de abril o filósofo conservador britânico Roger Scruton foi demitido do seu cargo não-remunerado de presidente da comissão governamental Building Better, Building Beautiful (Construindo Melhor, Construindo Bonito). Scruton, que já tinha sido atacado pela máquina de destruição de reputações quando do seu apontamento em novembro do ano passado, resistiu à primeira onda de ataques e foi confirmado no cargo pelo Secretário da Habitação, James Brokenshire. Mas se há alguma coisa que a história nos ensina é que não há limites para a baixeza, a sordidez e a sem-vergonhice da esquerda, qualquer que seja a época, qualquer que seja o país onde ela atue. Desta vez, sob ataques ainda mais caluniosos e covardes do que antes, o filósofo foi demitido; e, pior, menosprezado por aqueles que justamente tinham o maior dever de defendê-lo e honrá-lo.

Assim como o incêndio de Notre Dame é acontecimento simbólico da decadência do cristianismo na França, a demissão de Roger Scruton, ao que tudo indica, será lembrada no futuro como o começo do fim do Partido Conservador britânico. Ao sacrificar o seu mais brilhante pensador e ideólogo dos últimos cinquenta anos, os atuais líderes do partido, que já amplamente demonstraram sua incompetência em matéria de prática política, agora explicitam a sua profunda covardia e inépcia moral. É como observar um ritual macabro: estão a lavar-se da culpa sentida pela própria letargia no sacrifício de um genial e leal combatente.

RELEMBRANDO A PRIMEIRA TENTATIVA

Em novembro de 2018, passados apenas três dias da nomeação do filósofo para a recém-formada comissão, a mídia esquerdista, com ajuda de alguns parlamentares do Partido Trabalhista, sem demora, ligou a máquina de destruição de reputações, apontando-a para Roger Scruton. A tática usada é velha: pinçar frases antigas de palestras ou artigos, tirá-las de contexto e fazer pose de escândalo histérico. Ainda que seja método batido, não deixa de impressionar aqueles de bom coração. Exemplo: em um trecho de uma palestra em que o filósofo condenava o antissemitismo existente na Hungria apontando que, entre outras coisas, dificultou a reunificação nacional, a frase “muitos dos intelectuais de Budapeste são judeus e fazem parte das extensas redes em torno do Império Soros” foi tomada como exemplo de que Scruton é antissemita.

A primeira tentativa de derrubar Scruton. Naquela oportunidade, o filósofo resistiu.

Na época, jornais de grande circulação deram eco às acusações. E num momento em que o Governo de Theresa May já se encontrava cambaleando ante tropeços por causa do Brexit, foi bonito de ver o Secretário da Habitação defender o filósofo e desmerecer as calúnias levantadas. Roger respondeu com bom humor prometendo lançar no seu site uma seção especial com o melhor de suas frases controversas e ‘ofensivas’ para poupar seus detratores do trabalho de ter que vasculhar a sua obra. Mas a generosa oferta não foi o suficiente para conter os canalhas.

DESSA VEZ, A VERDADE E A CORAGEM ÀS FAVAS

Em março Roger concedeu uma entrevista para a revista esquerdista New Stateman – por alguns anos, Roger foi o colunista especial de vinhos da revista. A entrevista foi requerida e conduzida pelo jornalista marxista George Eaton. “[Concedi a entrevista] pressupondo que, como ex-crítico de vinhos da revista, eu seria tratado com respeito e que o jornalista George Eaton estava sendo sincero em querer falar comigo sobre minha vida intelectual. Não pela primeira vez sou forçado a reconhecer que é um erro conversar com jovens esquerdistas como se fossem seres humanos responsáveis” escreveu Roger Scruton após sua demissão para a The Spectator num artigo intitulado ‘Um Pedido de Desculpas por Pensar’.

No dia anterior a publicação da entrevista, George Eaton escreveu em sua conta do Twitter que ‘o conselheiro do governo e filósofo Roger Scruton fez uma série de declarações ultrajantes’ durante entrevista que seria publicada no dia seguinte pela New Stateman. Em quatro tuítes, George pinçou citações do filósofo para pintá-lo como racista, islamofóbico e antissemita:

(1) “Cada chinês é uma espécie de réplica do outro e isso é algo muito assustador”.

(2) “Os húngaros estavam extremamente chocados com a repentina invasão de enormes tribos de muçulmanos do Oriente Médio”.

 (3) “[Islamofobia é] uma palavra de propaganda inventada pela Irmandade Muçulmana com objetivo de impedir a discussão sobre o problema”.

 (4) “Qualquer um que não saiba da existência de um império de Soros na Hungria não observou os fatos”.

Pouco importou que a publicação da entrevista no dia seguinte – e, há poucos dias, a publicação integral do áudio da entrevista – pôs as frases dentro de contexto. É incontestável que as frases (3) e (4), mesmo lidas fora de contexto, são simples verdades factuais e não podem – ao menos não sem afetação histérica – ser consideradas discriminatórias. A frase (2) seria no máximo uma inverdade já que na história recente a Hungria não recebeu imigrantes do Oriente Médio. Mas como o áudio depois revelou, Scruton se referia a invasão do Império Otomano nos séculos anteriores. De qualquer forma, o uso da palavra ‘tribo’ é demais para os ouvidos sensíveis da geração floco-de-neve. Em relação à frase (1), Eaton convenientemente exclui as frases precedentes: “Há algo bastante assustador no tipo de política de massa chinesa e na arregimentação do cidadão comum. Nós inventamos robôs e eles são eles. De certo modo, eles [o Partido Comunista] estão criando robôs a partir de suas próprias pessoas, restringindo o que pode ser feito. Cada chinês é uma espécie de réplica do outro e isso é algo muito assustador”. Ou seja, Scruton estava criticando a óbvia e inegável política de massificação do Partido Comunista Chinês. Que horror! No dia seguinte, quando confrontado com a verdade da frase no seu contexto, Eaton escreveu no seu Twitter que teve que editar as citações por ‘motivo de espaço’. Foi um prato cheio para o brilhante perfil satírico do Twitter da ‘feminista, ativista e poeta interseccionalista’ Titania McGrath, que ironizou fazendo troça: “Meu Deus! Se eu deletar 85 letras e rearranjar as restantes dessa citação, Roger Scruton está dizendo ‘Eu amo Hitler”.

Titania McGrath satirizou: “Nessa citação de Scruton, se eu deletar 85 letras e rearranjar as restantes, ele está dizendo ‘Eu amo Hitler’”.

A simples publicação destes tuítes, com as frases tal como supracitadas, foi o suficiente para, apenas cinco horas depois, o Secretário da Habitação anunciar a demissão de Scruton – o governo sequer esperou a publicação integral da entrevista. Sem uma ligação, sem uma comunicação oficial, sem possibilidade de defesa, Roger Scruton foi demitido por quatro tuítes escritos por George Eaton, um jornalista assumidamente marxista, que ainda no mesmo dia possuído por um orgulho infantil, publicou foto no Instagram bebendo champanhe, comemorando a demissão do filósofo. A incrível rapidez com que todo o episódio se desenvolveu leva a crer que o que houve foi um golpe orquestrado, mancomunado entre governo, parlamentares conservadores e o jornalista.

George Eaton comemora a demissão de Scruton: “Aquele sentimento quando você consegue demitir um racista e homofóbico direitista do governo”. Foto foi apagada em poucas horas.

Roger estava em Paris para promover a tradução francesa de Tolos, Fraudes e Militantes: Pensadores da Nova Esquerda, quando ficou sabendo da demissão. “Telefonei para casa, para descobrir que fui demitido de minha posição como presidente da comissão Building Better, Building Beautiful. Isso iria acontecer uma hora ou outra, mas fico surpreso em saber que é porque as histórias caluniosas sobre mim estão sendo recicladas. Como isso veio à tona? Eu devo ter dado uma entrevista em algum lugar! E então me lembro de um molequinho pretensioso do New Statesman que veio visitá-lo, dizendo que a revista queria escrever sobre meus livros” – escreveu Roger em outro artigo para a The Spectator.

A REPERCUSSÃO COVARDE DO PARTIDO CONSERVADOR

“Às vezes, um escândalo não é apenas um escândalo, mas uma biópsia da sociedade. E assim foi com o ataque a Roger Scruton”, escreveu Douglas Murray em matéria de capa da Spectator dessa semana: “vivemos na era do assassinato de caráter. O que agora desesperadamente precisamos é de uma contra-revolução baseada na importância dos indivíduos sobre as multidões, a primazia da verdade sobre a ofensa e a necessidade do pensamento livre sobre essa uniformidade insípida, estúpida e mal concebida”. Murray teve acesso à integra do áudio da entrevista – pode ser escutado aqui – e constatou outras armadilhas que George Eaton tentou armar. Entre elas, o fato de responder positivamente às afirmativas, como quem estivesse concordando com as proposições.

Se a demissão e a forma como foi feita causa repulsa, o episódio teve ao menos um efeito positivo: mostrou que diversos parlamentares conservadores, alguns aspirantes à posição de líder do partido, não tem a coragem que se exige de uma criança, quanto menos de um representante público. George Osborne, por exemplo, imediatamente após os tuítes de George Eaton, escreveu no seu Twitter: “Ontem, lideranças conservadoras com razão perguntavam o que eles podem fazer para se reconectar com a Bretanha moderna. Hoje, estas citações intolerantes deste homem bizarramente apontado como conselheiro. Como o governo pode manter Roger Scruton como conselheiro?”. Curvar-se às mentiras esquerdistas em prol do politicamente moderno é o que Osborne deseja para o ‘moderno’ Partido Conservador. Faltou combinar com o eleitorado: no último mês a intenção de voto no Partido Conservador caiu 10% enquanto os novos partidos pró-Brexit (UKIP e Brexit Party) já tem, somados, 13% da intenção de votos.

Outro que teve atuação vexaminosa foi James Brokenshire, o Secretário da Habitação que nomeou Scruton para o cargo. Em novembro, Brokenshire defendeu Scruton dizendo que ‘a má representação de suas ideias havia machado o seu caráter’. Desta vez, entretanto, não hesitou nem um segundo sequer em jogar Scruton aos leões sem oferecer razões. Quando pressionado, emitiu um pequeno comunicado institucional dizendo que Scruton havia dito ‘palavras inaceitáveis’. Quais? Nunca disse, nunca mais foi visto.

O candidato à liderança do Partido Conservador, George Osborne: “observações intolerantes do homem bizarramente nomeado como conselheiro”

 

Em uma entrevista de rádio dessa semana, Roger Scruton – que, aliás, nunca pediu para ser nomeado conselheiro do governo, mas sim aceitou a um convite que lhe foi feito – falou sobre a reação do Partido Conservador aos ataques que ele sofreu: “Eu sou um pensador conservador, conhecido como tal, franco e direto mas razoável nas minhas opiniões. E tem havido por todo o país e por toda a Europa uma tentativa de silenciar as vozes conservadoras. Somos identificados, caricaturados e, em seguida, demonizados, de forma que parecemos que somos um tipo de gente sinistra, fascista e racista. E assim que o Partido Conservador vê um de nós sendo demonizado dessa maneira, eles correm para se dissociar. Isso aconteceu. Nas mídias sociais apareceram todos os tipos de parlamentares dizendo: ‘Oh, ele não é um de nós’. E lá estou eu, na chuva. Minha única falha foi tentar defendê-los. E esse tipo de caça às bruxas das pessoas à direita é algo que está piorando. Acabamos de ver acontecer com Jordan Peterson em Cambridge. Pensadores absolutamente de primeira linha e que deveriam estar lá no debate, para que tenhamos um pouco de sua sabedoria… Mas estamos sendo excluídos”.

O ANTISSEMITISMO DA ESQUERDA

É importante compreender o contexto em que a demissão de Roger Scruton ocorre. Há algum tempo, o Partido Trabalhista tem sofrido com as denúncias de antissemitismo que aos poucos tem chegado a membros da alta cúpula e ao chefe maior do partido, o marxista adorador de tipos como Chávez, Maduro e líderes do Hamas, Jeremy Corbyn.

No início de março, parlamentares abandonaram por conta do antissemitismo (tratei sobre isso em vídeo). Recentemente, uma fita de áudio confirmou que um conselheiro próximo de Corbyn fez comentários amplamente antissemita em uma palestra pública – acusações que ele havia negado veementemente. Agora, já se sabe que Jeremy Corbyn agiu pessoalmente para encobrir denúncias e impedir que antissemitas fossem expulsos do partido. Nesse contexto, é quase inacreditável que parlamentares trabalhistas como Dawn Butler, que é conselheira próxima de Corbyn, comparem Scruton com ‘supremacistas brancos’.

É envolto nesse mar de desfaçatez e cretinice que Roger é alvo de acusações ridículas de antissemitismo, islamofobia e preconceito racial contra chineses. Mais vergonhoso se torna a covardia do Partido Conservador de sacrificar o filósofo que, como ele mesmo escreveu em artigo no The Telegraph, dedicou uma vida inteira de suporte e apoio intelectual, na tentativa de se livrar de acusações da horda do politicamente correto.

ROGER SCRUTON NO BRASIL

Roger Scruton, que recentemente completou 75 anos de idade, ganhou de presente do partido ao qual sempre ajudou uma demissão acompanhada da humilhação pública – justamente em um momento em que buscava novas formas de se comunicar com seus leitores. Recentemente, lançou o seu canal oficial no Youtube no qual promete publicar material exclusivo. Roger também tem ampliado os cursos de verão que promove em sua fazenda em Wiltshire – que ele carinhosamente chama de Scrutopia. Seus livros estão sendo reeditados e relançados não só no Reino Unido, mas também em outras partes da Europa.

Na última vez que estive com ele, em agosto do ano passado, conversamos sobre o Brasil e as eleições que se aproximavam. Contei a ele que havia uma grande possibilidade de o Brasil eleger o primeiro presidente conservador da sua história: “Então, talvez seja a hora de ir ao Brasil”, ele retrucou. No início do ano, fui informado de que ele de fato está indo ao Brasil. Entre o final de junho e início de julho, Scruton participará de palestras em Porto Alegre e São Paulo. Será uma oportunidade única de absorver um pouco do conhecimento desse genial filósofo. Se o conservadorismo britânico já não faz bom uso das suas cabeças pensantes, nós brasileiros precisamos urgentemente delas. Ainda mais quando se trata de alguém do calibre de Roger Scruton.

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