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Passo Fundo

O golpe petista da fome em Passo Fundo

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Em ano eleitoral, vereadora vai usar recursos da Câmara para discutir um problema que é pauta do seu candidato a presidente, sem nem ao menos saber os dados sobre o tema na cidade. Por medo de posições impopulares ou simplesmente incapacidade de raciocínio, nossos 21 vereadores aprovaram a criação da Frente Parlamentar que usa dados nacionais com altíssimo teor ideológico em ano eleitoral.

Segundo o dicionário Michaelis, entre muitos significados, “golpe” pode ser definido como estratégia desleal para se obter vantagens, enquanto lealdade é mais simples de explicar, com apenas três sentidos: “conformidade com os preceitos que regem a honra, o dever e a probidade; dignidade, honradez, integridade“,  “cumprimento da palavra dada; fidelidade, respeito, responsabilidade” e “qualidade de quem se expressa ou se comporta sem artifício ou intenção de enganar; lisura, retidão, sinceridade.”.

Existe um grande debate nacional envolvendo a fome, amplificado pelas eleições e pela disputa entre Lula e Bolsonaro. O primeiro, sempre usou a tag “fome” em sua retórica, que na versão mais recente, acusa o concorrente de causar fome por má condução do governo, via inflação. Na realidade, “combate à fome” sempre foi um pilar da estratégia socialista no Brasil e ainda rende lucro político quase 40 anos depois do período de redemocratização, mesmo após 13 anos de governos petistas.

Em Passo Fundo, Lorenzato contra a fome

Que a vereadora petista local e representante direta da estrela vermelha em nosso município viva espalhando narrativas na tribuna, isso é esperado e do jogo, mas a edil foi um pouco além: criou a Frente Parlamentar de Combate à Fome, com a anuência de seus colegas, de forma unânime.

As atribuições da Frente Parlamentar

A Frente Parlamentar de Combate à Fome, segundo seu Projeto de Resolução, tem o nobre objetivo de “acompanhar as políticas públicas, discutir e propor ações de combate à fome e promover o mais importante dos direitos, à alimentação, que toda cidadã e todo cidadão deve ter resguardado pelo princípio da dignidade da pessoa humana.”. O Artigo 4 do PR desdobra as atribuições nos seguintes itens:

I – propor, analisar, acompanhar e apoiar políticas públicas que tenham como objetivo o combate à fome;

II – debater e elaborar Plano de Ação com o propósito de garantir o acesso à alimentação adequada às cidadãs e aos cidadãos passo-fundenses, em especial às mães chefes de família que se encontram em situação de vulnerabilidade social;

III – estudar propostas inovadoras que tenham como premissa o combate ao desperdício de alimentos;

IV – estudar, em conjunto com agricultoras e agricultores familiares, alternativas de políticas públicas com vistas ao fomento da produção de alimentos e posterior destinação às pessoas em situação de vulnerabilidade social;

V – realizar seminários, debates, fóruns, audiências e outros eventos sobre o tema;

VI – discutir e apresentar mecanismos que garantam, de forma qualificada, o acesso da sociedade civil às políticas públicas de distribuição de alimentos;

VII – elaborar levantamentos sobre a distribuição da merenda escolar e, em caso de suspensão das aulas presenciais, acompanhar a distribuição dos kits de merenda nas escolas municipais de educação infantil e nas escolas municipais de ensino fundamental;

VIII – produzir levantamentos sobre a distribuição de cestas básicas pela Secretaria Municipal de Cidadania e Assistência Social de Passo Fundo.

A Frente Parlamentar transforma uma simples consulta ao site da transparência e requisições via Lei de Acesso em grande dificuldade para justificar a necessidade de mobilizar recursos públicos durante 180 dias (prorrogável por igual período), atravessando o período eleitoral. É trabalho básico de vereador, com esteroides. Durante este tempo, vai mobilizar 5 vereadores titulares e 5 suplentes, além de ouvir diversos participantes externos.

A justificativa

Além de citações básicas sobre direito a alimentação e considerações sobre o problema da fome no Brasil, Eva Lorenzato considera em seu projeto que as cerca de 15,9 mil famílias cobertas pela máquina de assistência social da Prefeitura de Passo Fundo – recebendo (entre outras coisas)  cestas básicas – não são plenamente atendidas no atual cenário econômico pós-pandemia e de desemprego.

A fome é um dos grandes problemas que precisa ser enfrentado por todas aquelas e aqueles que lutam pela saúde, pelo bem-estar e pela dignidade das pessoas. Para combatê-la, são necessárias ações efetivas, que transformem as demandas em políticas públicas e contribuam com a garantia do acesso à alimentação, especialmente às pessoas em situação de vulnerabilidade social.

Acima: destaque do documento “Projeto de Resolução”, onde a vereadora meteu um “todas aquelas e aqueles”.

No centro da justificativa, um relatório da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan) que aponta dados sobre a fome no Brasil, informações que a vereadora acredita serem compatíveis com a realidade da nossa cidade. O Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da COVID-19 diz que, nos últimos meses de 2020, 19 milhões de brasileiros passaram fome.

Segundo o próprio relatório, a Rede se apresenta como uma entidade criada em 2012 e que “congrega pesquisadoras(es), estudantes e profissionais de todo o país na forma de uma rede de pesquisa e intercâmbio independente e autônoma em relação a governos, partidos políticos, organismos nacionais e internacionais e interesses privados. Entre os objetivos previstos em seu estatuto, destacam-se o exercício de uma pesquisa cidadã comprometida com a superação da fome e a promoção da Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (SSAN), e também a contribuição para o debate público de ações e políticas públicas que tenham interação com a SSAN”.

O relatório sobre Insegurança Alimentar da Rede Penssan, embasamento da Frente Parlamentar de Combate a Fome da vereadora petista Eva Lorenzato. Disponível neste link em PDF.

Apesar da declarada independência, a Rede Penssan é coordenada por Renato Sérgio Jamil Maluf. Especialista em políticas sobre alimentação, Maluf foi presidente do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional – CONSEA durante o segundo governo de Lula. O CONSEA foi extinto por Bolsonaro em 2019 e sua função era a de prestar assessoramento imediato para a Presidência da República em políticas para a segurança alimentar. Se a fome é um dos pilares da retórica socialista brasileira, é possível dizer que Maluf é do inner circle dos pensadores da matéria no Brasil.

Maluf sobre um encontro com Lula, em 2012.

Maluf é um crítico das práticas privadas na comercialização de alimentos, que chama o impeachment de Dilma Rousseff  de golpe e não acredita no modelo empresarial de caridade com os pobres, o qual denomina de “propaganda institucional”. O homem é uma cartela de bingo esquerdista completamente preenchida e não acredita que suas ideias funcionariam no governo Bolsonaro ou similar. Conheça alguma de suas ideias nesta entrevista ao site O Joio e o Trigo.

É claro que não podemos analisar a situação ideológica da pesquisa apenas pelo perfil do coordenador da entidade responsável. Para tanto, vamos conferir um destaque das considerações finais do relatório:

“Tem sido uma constante nos debates públicos no país a associação da piora nas condições de vida observadas neste relatório com circunstâncias econômicas e políticas em curso há alguns anos, em especial a execução de uma agenda governamental neoliberal de ajuste fiscal em que as regras orçamentárias, a exemplo da Lei do Teto de Gastos, foram desvinculadas das necessidades sociais, políticas públicas desmanteladas, empresas estatais privatizadas e organizações sociais descartadas. O protagonismo mais tímido do Estado daí resultante é visto como requisito falacioso para uma recuperação econômica nunca ocorrida. As mazelas da fome e demais manifestações de IA voltaram a patamares alarmantes, já nos indicadores referentes à POF de 2018, expondo os traços estruturais deletérios calcificados da sociedade brasileira que têm encontrado ambiente favorável à sua perpetuação. Seu enfrentamento implica recuperar a capacidade do Estado de agir em favor do interesse público.”

 

Eles não sabem sobre o que estão falando

A Frente Parlamentar foi criada e instalada com aprovação unânime dos vereadores. Com escalação definida, a responsabilidade pelas argumentações iniciais já não é exclusiva da vereadora Eva, mas também de Janaína Portella (MDB, presidente),  Édson Nascimento (União Brasil, vice-presidente),  Regina dos Santos (PDT, relatora). Israel kujawa (PT) e Michel Oliveira (PSB). Kujawa devolverá o mandato para Eva Lorenzato – licenciada no momento – no início de julho.

Todo este trabalho iniciou sem mostrar um único dado sobre a fome em Passo Fundo, apenas o inverso: que a Prefeitura de Passo Fundo dá cestas básicas para 15,9 mil famílias. Toda a motivação oficial vem de uma pesquisa em que 2.180 entrevistados deram sua percepção sobre a fome, tabulada e estimada para a situação nacional. Talvez não seja coincidência o aparecimento de reportagens sobre a atuação da Prefeitura contra o problema da fome  na Uirapuru e no próprio site. Talvez.

 

Eva Lorenzato e Lula, em encontro recente. Foto: Facebook da vereadora.

Sobre a primeira reunião da Frente, realizada no dia 6 de junho, o site da Câmara publicou notícia com a incrível informação: “A vereadora Regina apresentou alguns dados nacionais sobre o tema, informando que não teve acesso a dados locais. Segundo pesquisa que citou, no Brasil, 116,8 milhões de pessoas não têm acesso pleno e permanente a alimentos. Desses, 43,4 milhões (20,5% da população) não contam com alimentos em quantidade suficiente (insegurança alimentar moderada ou grave) e 19,1 milhões (9% da população) estão passando fome (insegurança alimentar grave), segundo dados do inquérito nacional sobre insegurança alimentar no contexto da pandemia, dados de abril de 2021, chamando atenção para a insegurança alimentar em Passo Fundo.”.

Por medo de posições impopulares ou simplesmente incapacidade de raciocínio, nossos 21 vereadores aprovaram a criação da Frente Parlamentar que usa dados nacionais com altíssimo teor ideológico em ano eleitoral. Feio para os vereadores de direita da casa, que deixaram passar. Ainda mais feio para os vereadores da situação, que são diretamente ligados ao prefeito Pedro Almeida. Eles deram uma banana para toda a estrutura assistencial da Prefeitura de Passo Fundo, virtualmente classificada como incompetente e ineficaz.

Não é preciso dizer que a fome é um problema sério, dinâmico e complicado que merece um estudo e monitoramento permanente, sem uso político. São muitos os caminhos que levam o homem para a miséria, mas poucos os capazes de mitigar a situação. E um dos mais belos vai bem em Passo Fundo sem a interferência governamental: a caridade privada, sem pedido de votos nas entrelinhas. No entanto, isso é assunto para outro artigo.

Se continuar assim, dando um olé de ponta a ponta nas forças políticas de Passo Fundo, Eva Lorenzato ainda vai virar prefeita. A Frente Parlamentar de Combate à Fome foi um golpe de mestre.

 

 

Passo Fundo

Passo Fundo precisa agora de um Conselho Municipal de Habitação Popular?

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Proposta dos vereadores Luizinho Valendorf (PSDB) e Wilson Lill (PSB) quer reativar o Conselho Municipal de Habitação Popular. Na prática, sabemos o que vem pela frente…

 

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Passo Fundo

Vereadores aprovam projeto de inclusão que vai onerar empresários e setor público

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Projeto de autoria da vereadora Regina dos Santos (PDT) estabelece a inserção de senhas sonoras, letras ampliadas e impressão em braile simultaneamente às senhas eletrônicas utilizadas para atendimento ao público nos estabelecimentos públicos e privados do município

As pautas de inclusão sempre aparecem travestidas de “movimento democrático”, no sentido de ampliar os direitos e garantias para a parcela da população. No entanto, é preciso estar atento: na maior parte das vezes, os projetos pouco modificam a realidade desses grupos, pois não passam de ativismo político travestido de políticas públicas. O projeto recentemente aprovado por unanimidade entre os parlamentares na Câmara de Vereadores de Passo Fundo é uma amostra disso.

O Projeto de Lei nº 105/2021, de autoria da vereadora Regina dos Santos (PDT), estabelece a inserção de senhas sonoras, letras ampliadas e impressão em braile simultaneamente às senhas eletrônicas utilizadas para atendimento ao público nos estabelecimentos públicos e privados do município.

De acordo com a justificativa, a proposta foi construída pela “necessidade de tornar a cidade mais inclusiva e atender aos direitos das pessoas com deficiência”. Nota-se, na própria justificativa do projeto, que os termos utilizados uníssonos nas pautas inclusivas, mas demasiadamente generalista. Quando se quer resolver tudo, na prática não ocorre – ou muito pouco.

O texto da matéria ainda determina para os estabelecimentos públicos e privados que não optarem pela impressão de senhas em braile deverão implantar a senha com aviso sonoro por voz ou identificar, além de disponibilizar um atendente exclusivo enquanto a pessoa com deficiência ou limitação visual estiver no recinto. Parece que os parlamentares desconhecem o comércio da própria cidade, possivelmente a maior parte sendo gerida pelo dono – ou por poucos funcionários. A obrigação, portanto, está fora da realidade.

Embora alguns tenham se posicionado contrário a uma possível oneração do setor empresarial, sobretudo numa economia em fase de recuperação, no voto os parlamentares acabam cedendo: pautas inclusivas ganham um sim até mesmo quando o vereador é, no fundo, contra.

Segundo previsto na redação do art. 3º, o descumprimento ao que dispõe a presente Lei pelos estabelecimentos sujeitará aos infratores às seguintes sanções: I – advertência, em caso de primeira notificação; II – multa de 100 (cem) UFMs (Unidades Fiscais Municipal) em caso de segunda notificação; III – multa de 200 (duzentas) UFMs (Unidades Fiscais Municipal) em caso de reincidência. As sanções pecuniárias decorrentes desta Lei serão aplicadas em favor de políticas públicas para as pessoas com deficiência.

Se o prefeito não vetar a proposta, a proposição entra em vigor 180 (cento e oitenta) dias contados da data de sua publicação.

A discussão pode ser acompanhada no vídeo a seguir (11:53-28:25):

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Passo Fundo

A narrativa da fome: até quando a esquerda vai alimentar pautas com dados dissimulados

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Se por muito tempo a dinâmica de luta de classes foi o eixo do pensamento esquerdista, a forma agora aparece em diferentes contornos. Direitos de minorias, invasões urbanas e outras aparecem com frequência nas pautas. No entanto, uma delas tem aparecido com forma nos últimos tempos: a fome.

No artigo “O golpe petista da fome em Passo Fundo“, o articulista da Lócus Jesael Duarte da Silva mostrou como o discurso da fome vem ganhando espaço aqui mesmo em Passo Fundo. recentemente, foi criada a Frente Parlamentar de Combate à Fome na Câmara de Vereadores de Passo Fundo.

Contrastando a informação fornecida pelo vereador petista de que, no Brasil, 119 milhões de brasileiros vivem em situação de insegurança alimentar, Rodinei Candeia (PL) buscou a fonte dessa narrativa, já que vem sendo reverberada pela imprensa de uma maneira geral. Veja:

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