Em tempos de desprezo pelo conhecimento, a autoeducação é um esforço pessoal imprescindível

 

Lima Barreto, na sua excelente obra “O triste fim de Policarpo Quaresma”, publicada em 1915, já relatava o desprezo nacional pelo conhecimento:

Não recebia ninguém, vivia num isolamento monacal, embora fosse cortês com os vizinhos que o julgavam esquisito e misantropo. Se não tinha amigos na redondeza, não tinha inimigos, e a única desafeição que merecera fora a do Doutor Segadas, um clínico afamado no lugar, que não podia admitir que Quaresma tivesse livros: “Se não era formado, para quê? Pedantismo!”

 

Aquela cultura dos bacharéis, embora muito acima daquilo que é entregue hoje pelas instituições de ensino, não era a única fonte da qual vertiam grandes obras. Lima Barreto e Machado de Assis, dentre muitos outros nomes, são exemplos de autodidatismo fecundo e, mesmo que as circunstâncias não tenham sido as mais favoráveis, foram capazes de marcar seu nome na história da literatura brasileira.

Graciliano Ramos, outro ilustre literato, viveu isoladamente em Alagoas por mais de quarenta anos até ter contato direto com os intelectuais do Rio de Janeiro, então capital do Brasil e centro cultural. Independentemente disso, já contava com traços seguros de uma produção literária que, embora alguns considerem miúda por conta da sua obsessão por correções e cortes, acabou lhe consagrando entre os grandes expoentes das letras.

A alta cultura, por assim dizer, é apresentada e representada pelos grandes espíritos de suas épocas.

Uma das principais justificativas dadas para a má formação dos brasileiros é o acesso à educação, sufocados não só pelas questões regionais, como também pelo panorama econômico. Trata-se de uma das maiores pilantragens acadêmicas produzidas, difundida como verdadeira praga: homens de distinto saber se formaram pensadores no seu tempo a despeito das circunstâncias em que viviam, emergentes da mais profunda miséria e isolamento intelectual.

Se a busca individual é pela verdade, será preciso estar aberto para abalar as estruturas que formaram o próprio pensamento. Não é um argumento de todo óbvio. Não são poucos os estudiosos que passam décadas escrevendo sobre um assunto e, quando descobre os entornos, negam-se a acreditar. Para tal, será necessário deletar a produção anterior, suas ideias, sua ideologia. Um verdadeiro estudioso deve saber que a busca pela verdade poderá colocar em xeque tudo aquilo que fora produzido anteriormente.

Recentemente, a CPI da Funai colocou na parede muitos ditos “defensores dos direitos indígenas”, dentre os quais alguns acadêmicos que produziram muitos trabalhos sobre o assunto, defendendo a demarcação de terras e os demais direitos decorrentes. Até agora não se soube de nenhum que se retratou publicamente.

Curioso foi que, quando muitos dos escândalos políticos recentes vieram à luz, muitos dos fundadores e apoiadores vieram a público, admitindo os equívocos, arrependidos das lides partidárias.

Uma lista bibliográfica é um mapa, muitas vezes da ignorância. Todo início de semestre há uma lista de indicações de livros para que os alunos consultem, que também não deixa de expor “aquilo que não se sabe sobre o assunto”. Se há um documento importante e não foi apontado, ou está sendo ignorado ou não se tem conhecimento sobre o mesmo. De qualquer forma, é uma amostra do que não está sendo ensinado. O currículo de uma instituição de ensino é o mapa daquilo que vem sendo ensinado.

A formação de longas listas de obras faz-se, portanto, tão importante quanto a leitura das mesmas. O aluno que se dedica a pesquisar as profundezas do assunto tem diante de si a abrangência do que foi publicado, quem são os autores, quais são as principais obras, quem foram os primeiros estudiosos. Tem-se, a partir daí, o conhecimento de quais são as fontes primárias, que são as obras que originaram o tema, como também das secundárias, isto é, os estudos sobre as obras e os autores originais.

De nada adianta debruçar-se sobre uma obra se o objetivo não for o de recompor a experiência do autor. É preciso entender que a realidade é uma experiência. No entanto, a linguagem escrita está muito aquém da experiência interna do autor, aquilo que São Tomás de Aqui chamou de “verbum mentis”, ou seja, a voz interior, a experiência que reside no pensamento, muitas vezes difícil de expor por meio de palavras. Os grandes autores foram guerreiros incansáveis na busca da expressão exata, da palavra certa, do sentido verdadeiro. A língua portuguesa está nas grandes obras, e não nas inúmeras gramáticas.

Mesmo assim, quando uma instituição de ensino não passa de um curso formação de estudantes de textos, sujeitos com aversão à prática ou ao mundo do trabalho,  buscando uma interpretação qualquer, e não o sentido da experiência, coloca-se no mercado verdadeiros reprodutores de frases prontas, sem qualquer esforço para se compreender as nuances daquilo que leram.

A ciência como disciplina também comete muitos pecados. A incessante “busca pela objetividade” é, acima de tudo, uma impossibilidade. O pesquisador é um observador que está retratando o seu estudo. Isso é o mesmo que acontece quando um sujeito qualquer se depara com um milagre: ele é o único observador.

Criou-se, portanto, um argumento persuasivo com o intuito de impor uma opinião com respaldo científico. É preciso sinceridade e perceber que, em qualquer roda de amigos ou debates, aquele que usa o jargão “pesquisas científicas mostram que…” raramente acaba contrariado. Aceita-se, muitas vezes caladamente, a falácia do especialista.

A ciência atual, portanto, é criminosa, pois o que tem mais realizado com todas as suas forças é ignorar a experiência comum.

Uma educação de verdade parte de interesse pessoal, e não da imposição de disciplinas com conteúdos programáticos, de uma formação universal. É uma vontade pessoal capaz de sufocar a fome, a miséria e todas as outras dificuldades impostas pela vida. Até que o brasileiro não parar de se sentir um coitadinho, um sujeito de direitos, nunca a alta cultura vai encontrar um campo fértil para florescer.

A principal barreira a vencer é o domínio da linguagem. Não são poucos aqueles que se escravizam por conta de opiniões que não conseguem se expressar. Não são raros os angustiados que não conseguem se tratar por não conseguir descrever as coisas que está sentindo. A sutileza da linguagem literária faz-se imprescindível para que se consiga expressar as experiências.

Divulga-se constantemente nos veículos de informação notícias manipuladas, criando falsas vítimas ou mesmo cometendo verdadeiros assassinatos de reputação. A linguagem é um elixir poderoso contra a insanidade dos tempos atuais, até mesmo um ato de rebeldia contra o sistema de informação imposto.

Vive-se, portanto, em tempos no qual a educação não é sinônimo de saber, nem mesmo o conhecimento é cultuado: traduz-se, assim, num emaranhado de funções burocráticas, distribuição social dos indivíduos caçadores de diplomas e adestramento do comportamento dos alunos, estes que são cada vez mais educados para serem covardes. O desejo de conhecer é humano: se por vias institucionais as falhas são gritantes, o que resta é a cada um é ir cuidar da vida.

 

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