Prefeito Luciano concede entrevista coletiva para tratar da crise do coronavírus em Passo Fundo

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Fé, chocolates e decretos governamentais numa entrevista coletiva, com muitas palavras repetidas e pouco alento para quem está sem trabalhar

O prefeito de Passo Fundo Luciano Azevedo deu uma entrevista coletiva na manhã da quinta-feira, 9, para falar da crise do coronavírus na cidade, ocasião em que também mencionou seus decretos e permissões de abertura de ramos selecionados na economia – até mesmo das igrejas.

Um pouco desconfortável e usando máscara, junto a integrantes do alto escalão da Prefeitura, Luciano escolheu um espaço à frente do prédio para falar aos jornalistas, com um pequeno aparato de som e um banner com as marcas do Município. O conteúdo do pronunciamento foi transcrito pela equipe da Lócus (os destaques são nossos).

Pessoal, bom dia a todos! Obrigado por terem vindo. Eu acho que é importante nivelar algumas informações com vocês e essa é a primeira entrevista coletiva que a gente faz desde que começou esta questão do coronavírus. Eu estou aqui acompanhado do vice-prefeito João Pedro, secretários que estão atuando diretamente nesta questão e do líder do governo, que é o vereador Ronaldo [Rosa], também está aqui pra dar algumas informações e alguns esclarecimentos pra vocês.

Em primeiro lugar, eu gostaria de dizer que nós começamos este processo de isolamento das pessoas aqui em Passo Fundo há mais ou menos três semanas. Começamos simultaneamente à maioria das outras cidades gaúchas e brasileiras que enfrentaram este processo. Nós temos nos esmerado em dizer para as pessoas que este é um problema mundial, que não é um problema de Passo Fundo, todo mundo sabe disso; mas nós temos reafirmado isso porque a gente acha que é importante.

Desde o início desta questão, nós recebemos a orientação dos técnicos e médicos indicando que existe a grande probabilidade de um grande número de pessoas serem infectadas, aqui em Passo Fundo e nas outras cidades. Que este tempo de isolamento seria um tempo necessário para que se preparasse o sistema de saúde para aquilo que poderá vir. Então nós temos usado este tempo todo, sob a coordenação aqui da secretária Carla, pra que nós possamos preparar então o sistema de saúde como vêm fazendo outros estados e municípios. Pensando nisso, nós já fizemos, implementamos aqui uma série de medidas que vão desde a abertura do CAIS Petrópolis como centro de referência ao coronavírus, depois a abertura do CAIS 24 horas, depois a contratação de pessoas pra trabalhar, mais pessoas, depois a compra de respiradores e assim por diante, uma série de iniciativas que a gente pode detalhar depois se for o caso.

Em paralelo a isso, nós temos recebido uma grande pressão, como todos os outros prefeitos, que a economia volte a sua normalidade. Quer dizer, nós todos estamos enxergando as dificuldades decorrentes da paralisação das atividades. Nós sabemos que a economia parada ela é ruim pra todo mundo. Eu tô fazendo essa abertura pra dizer o seguinte: nós fizemos uma opção consciente, orientada pelos técnicos, por preservar a vida das pessoas. Essa foi a opção central que nós fizemos aqui desde o início. Sabemos das consequências, mas estamos seguindo aqui orientações permanentes dos profissionais de saúde.

Foi montado aqui um comitê de orientação ao coronavírus, o COE, que conta com a presença de todos os hospitais e das faculdades de medicina. Então os especialistas da nossa cidade estão dentro do COE, discutindo, dando opinião, contribuindo e ajudando a orientar tudo o que está sendo feito dentro da nossa cidade de Passo Fundo.

É importante repetir isso, viu pessoal? Nenhuma decisão é tomada sem que se tenha, sem que se leve em consideração as opiniões técnicas que estão sendo dadas.

Bom, há alguns dias nós liberamos o trabalho aqui da construção civil e o trabalho da indústria pra nossa cidade. Por que fizemos isso? Fizemos isso porque o decreto estadual já sinalizava neste sentido. O decreto estadual sinalizava que construção civil, indústria, poderiam trabalhar. Então nós liberamos a construção civil e a indústria no sentido de retomada da economia. Eu faço questão de dizer mais uma coisa: o princípio todo do isolamento é não permitir que pessoas se aglomerem; é retirar pessoas do convívio social; é retirar pessoas das ruas. Eu quero dar um exemplo aqui pra todos: ninguém sai de casa para ir visitar uma obra, ou para visitar uma indústria. Agora, as pessoas saem de casa para comprar uma camisa, para comprar um sapato, pra comprar uma caneta, pra comprar um celular. Então esta é uma diferença fundamental entre a indústria, a construção civil e o comércio, certo? A indústria e a construção civil geram menor movimentação. Esta decisão foi tomada lá atrás. Depois, nós tomamos a decisão de liberar (ajudem) salões de beleza. Bem, por que foram liberados os salões de beleza e não foi liberado, por exemplo, a estética? Porque houve um entendimento que salão de beleza  tem a ver com a higiene. E higiene é uma coisa e estética é outra. Nós tivemos este entendimento. Também porque nós queríamos já colocar pessoas na economia. Vamos lembrar que nós estamos falando aqui de aproximadamente 1.200, 1.300 profissionais – a sua grande maioria, especialmente nos bairros da cidade, trabalham sozinhos. Certo? E que foram liberados para trabalhar com uma série de restrições e de recomendações e de exigências.

Depois demos mais um passo. Qual é que foi este passo? Liberar as lojas que vendem chocolate, só até domingo, até segunda, por uma razão: é um período de Páscoa e estas lojas têm um investimento em produto perecível, né? É um bem perecível, não é como uma blusa ou um sapato: o chocolate vai estragar, vai se perder e existe uma tradição da população de dar chocolate.

Então, todas estas medidas que eu contei – construção civil, indústria, loja de chocolate, cabeleireiro – elas têm dois objetivos: permitir que as pessoas trabalhem, mas ao mesmo tempo trabalhem de forma controlada; e também atender algumas reivindicações que nós entendemos que eram possíveis naquele momento.

Bom, hoje nós estamos autorizando o funcionamento de igrejas, com regras muito rigorosas, igrejas e templos, sem celebração, ou seja, não pode ter missa, não pode ter culto: igrejas e templos vão trabalhar com no máximo 30 pessoas de cada vez, guardando distanciamento e isto está sendo feito em consideração ao feriado da Páscoa. A liberação vai de hoje até domingo. De hoje até domingo as igrejas podem funcionar com no máximo 30 pessoas sem aglomeração, guardando a distância, sem celebração. Certo? É para as pessoas entrarem, poderem fazer sua oração, o seu aconselhamento dentro dos templos e igrejas de todas as religiões.

Faço questão também de dizer o seguinte: nós queremos reiterar para a população que nós estamos seguindo rigorosamente as orientações do Ministério da Saúde e do Governo do Estado. Existe um decreto do Governo do Estado que regra a grande maioria das atividades econômicas, que é hoje o grande debate que está se fazendo. Alguém vai me perguntar aqui hoje, quando é que vai abrir o comércio, quando é que vão abrir as outras atividades. Nós vamos avaliar isso entre segunda e quarta-feira que vem, dependendo daquilo que decidam o Ministério da Saúde e o Governo do Estado. Então até segunda-feira nós não vamos ter nenhuma novidade. Vamos ficar com as regras que nós estamos, com a fiscalização que nós temos feito e apelando para as pessoas para que não saiam de casa. Para que as pessoas fiquem em casa. Para que as pessoas se protejam. Para que as pessoas se cuidem. Para que as pessoas possam lembrar que infelizmente nós já estamos tendo muitas contaminações e mortes aqui em Passo Fundo. E aí, entre segunda e quarta-feira, nós vamos fazer uma avaliação, que vai ser uma avaliação do cenário de Passo Fundo, do índice de contaminação, de todos aqueles itens que o Ministério da Saúde tá mencionando, número de leitos, de respiradores, de testes, EPIs para proteger as pessoas que estão nos hospitais trabalhando e aí, entre segunda e quarta-feira, nós devemos ter alguma novidade. Certo, pessoal?

Eu não tô dizendo aqui que vai abrir tudo depois de quarta-feira e também não tô dizendo aqui que tudo vai ficar fechado quarta-feira. Tô dizendo que entre segunda e quarta-feira – metade da semana que vem – a partir do que decidirem Governo do Estado e Ministério da Saúde, nós vamos ter uma posição aqui na nossa cidade. Até lá, quero dizer isso pra encerrar: nós fizemos uma opção, que é cuidar da saúde das pessoas, da vida das pessoas. As pessoas têm nos mandado muitas mensagens, vocês trabalham com isso e certamente sabem: pessoas dizendo assim: “ah, mas eu tô vendo muita gente na rua, tô vendo muito idoso na rua, tô vendo muita gente na parada de ônibus, no supermercado, vocês sabem disso. Só que, pessoal, nós não podemos amarrar as pessoas em casa. Isso é uma questão de conscientização. Nós estamos avisando as pessoas e pedindo para as pessoas ficarem em casa. Nós estamos fiscalizando as atividades econômicas. Agora, nós precisamos que as pessoas compreendam que é um problema grave, que é um problema que está no mundo inteiro, que a prefeitura não tem controle sobre ele, que a loja, o supermercado, ninguém tem, nem os hospitais. Então que a única solução é que o maior número de pessoas possa ficar em casa. Isso é o pedido que a gente tem feito para a comunidade e que quer fazer para vocês aqui também. E uma palavra para aqueles que não estão trabalhando: nós sabemos das dificuldades, nós estamos preocupados com isso, nós estamos solidários a isso, o secretário Cadu e nós temos discutido o plano de recuperação econômica que tá pronto, né? O plano de retomada de atividades que tá pronto, mas, infelizmente, nós temos esta questão do vírus, das contaminações que tá colocado aí. Tá, pessoal? Então eu acho que esta é a mensagem, estão liberadas as igrejas até domingo, em condições rigorosas que vão estar no decreto, né, doutor Adolfo? O nosso pedido para que as pessoas não façam aglomeração, fiquem o máximo possível em casa e nós vamos na semana que vem, entre segunda e quarta-feira, provavelmente dar mais informações.

 

Aós o final da entrevista coletiva, algumas perguntas foram feitas pelos profissionais de diversos veículos da cidade, em sua maioria reforçando os pontos já destacados. Quando indagado sobre “iniciativas isoladas” de indivíduos que fazem caridade em alguns bairros da cidade e como funcionaria neste período a assistência social, o prefeito elogiou a pergunta e disse que reforçou a equipe da assistência, que já entregou 10 toneladas de alimentos. Recomendou que a caridade seja feita por canais oficiais e aproveitou para emanar um “protesto” sobre as pessoas que usam a caridade para promoção pessoal: “caridade, na minha opinião, a gente faz anonimamente. A gente não faz caridade para tirar foto, anúncio disso ou daquilo não faz parte daquilo que nós acreditamos“.

Mais tarde, este destaque virou post no facebook do prefeito:

 

De fato, inúmeras são as pessoas que estão fazendo exatamente o que foi denunciado pelo Prefeito, com doações de comida pronta ou cestas básicas e até álcool gel nas comunidades carentes de Passo Fundo. Há inclusive parceiros políticos realizando esta prática. Vale lembrar que o comportamento não é de agora, e um exemplo é o festival de promoções por parte de várias “personalidades locais” durante as tradicionais entregas de cestas da LBV, misturando necessitados, comida e sorrisos dos benfeitores no mesmo quadro.

O Prefeito amarga uma crise sem precedentes e joga todas as fichas no controle social por decreto, com a esperança de receber bons números vindos dos hospitais em contágios, curas e mortes. Concentrador, nota-se na coletiva a falta da tão falada equipe técnica que deu o aval para muitas das escolhas colocadas nos decretos. Assim como um engenheiro assina (e assume a responsabilidade) a construção de um prédio, faltam nomes que estão por trás da manutenção de vidas e prejuízos de milhões de reais por estes dias.

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