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Educação

Tecnologia não é educação

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Confundir o mensageiro com a mensagem é um dos atos mais comuns em educação.

Normalmente, nenhum médico confunde o remédio com a doença, ou o bisturi com os órgãos do paciente. Ele sabe que os meios e os instrumentos que utiliza no tratamento não são a própria saúde (assim como um juiz sabe – ou deveria saber – que usar uma toga preta ou o martelo para pedir ordem não são sinônimos de competência jurídica). Uma coisa são os meios, outra coisa são os fins. Mas, curiosamente, essa confusão é muito comum em educação.

No início dos anos 90, as francesas Isabelle Stal e Françoise Thom, no livro A Escola dos Bárbaros (1991), observaram como era assombrosa a firme crença de professores em uma grande renovação escolar tendo como pedra angular a tecnologia computacional. A perplexidade daquelas autoras ainda hoje nos serve de lição.

A atual situação de isolamento social imposta no combate ao coronavírus trouxe impactos visíveis para a educação. Da noite para o dia, muitas pessoas resistentes as inovações tecnológicas tiveram que aprender a operar, por necessidade, aplicativos, salas virtuais, programas de hangout, câmeras e microfones. Saber apresentar-se diante de uma câmera passou a ser uma competência profissional – inelutavelmente.

Esse inevitável mergulho na tecnologia trouxe a frente das discussões uma tendência que, antes do vírus chinês, já ganhava atenção – o ensino híbrido, metodologia que assume a integração profunda e a inclusão da tecnologia nas práticas educacionais (no Brasil, firmemente promovida pela Fundação Lehmann). Trata-se, no fundo, de uma “velha nova tendência” – a esperança que os meios melhorem a busca pelos fins. Sim, é razoável pensarmos que a avançada tecnologia atual possa contribuir para tornar as coisas mais interessantes em educação. Mas certamente seria um exagero noticiar que o ensino híbrido seja a “nova realidade da educação brasileira”. Novos métodos tecnológicos não resolvem problemas graves sobre o sentido da educação, a relevância do que é ensinado e o desempenho cognitivo dos estudantes. Contribuem, mas não podem resolver. Afinal, conversar com o carteiro não é o mesmo que ler a carta.

Há mais de 60 anos, na obra Rumos da Educação (1959), o filósofo francês Jacques Maritain chamava a atenção para os erros comuns cometidos na educação moderna. Entre eles, o mais caro seria o desprezo dos fins. O filósofo lembra que a educação é uma arte, e como tal utiliza meios, os mais variados possíveis, em direção a um objetivo. Se os meios acabam tomando uma prevalência sobre os fins, a educação se torna cega ao seu verdadeiro propósito. Mas, às vezes, os meios são tão bons e atraentes que nos fazem esquecer o fim visado.

As lições do passado sempre podem nos ajudar a compreender a ebulição do presente. E essas lições sempre mostram que a discussão fundamental em educação nunca deve desprezar os fins, por mais que toda a tecnologia, a mais avançada possível, aumente o nosso horizonte de possibilidades. Por acaso Sócrates é lembrado pelas sandálias que usava para andar por Atenas? Michelangelo por ter escolhido os melhores cinzéis, ou Machado de Assis por ter escolhido as melhores canetas? Sigamos o conselho de Northrop Frye: não confunda a trama com a história!

 

*Cidney Antonio Surdi Junior – Professor e pesquisador na área de história da educação, filosofia e cultura. Mestre em Filosofia pela UFPR. Criador do canal Filosofando Podcast e pai do Dante.

Educação

O que esperar de uma geração que passa de 7h a 12 horas diárias grudada na tela de seu celular?

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Os números são alarmantes e confirmam que, atualmente, jovens de 13 a 18 anos passam cerca de 7 horas diárias de uso recreativo em seus celulares

Em 2001, o educador americano Marc Prensky cunhou o termo nativos digitais para celebrar a geração vindoura, pessoas que cresceriam absolutamente familiarizadas com a tecnologia em rede. Essa geração se destacaria por ter cérebros superestimulados, estruturas neuronais mais complexas, capacidades avançadas para multitarefas e raciocínio rápido. Construía-se um mito.

Recentemente traduzido para o português, o livro A fábrica de cretinos digitais, do psiquiatra francês Michel Desmurget, impugna totalmente aquela celebração. Reunindo a vasta literatura a respeito dos impactos da tecnologia no desenvolvimento dos jovens, Desmurget mostra que a euforia em torno dos nativos digitais já não condiz com as evidências observadas. Os números são alarmantes e confirmam que, atualmente, jovens de 13 a 18 anos passam cerca de 7 horas diárias de uso recreativo em seus celulares.

Os impactos cognitivos, psicológicos e sociais já são inegáveis. Trata-se de uma geração para a qual praticamente todas as relações passam a ser mediadas pelos smartphones – desde jogos, divertimentos, busca por informação e comunicação, até a aprovação social e a formação de identidade pessoal. Jean Twenge, psicóloga e autora do livro iGen, chega a dizer que se trata de uma geração completamente diferente das anteriores pelo modo como os indivíduos passam o seu tempo. O celular já é uma verdadeira extensão do corpo humano, diria o pensador Marshall McLuhan.

Esses números sobre o uso diário do celular não são exagerados, posso confirmar. Como professor do ensino básico e superior, já realizei pesquisas in loco, em sala de aula, e pude verificar a média de utilização registrada nas próprias configurações dos aparelhos de alunos entre 14 a 17 anos: 6 a 14 horas diárias. Sim, é isso mesmo: um mínimo de 6 horas diárias de utilização do celular tem sido muito normal.

Considere o que pode ser alcançado por uma atividade realizada 6 horas por dia, todos os dias da semana. Imagine o que poderia ser feito empregando 6 horas diárias de seu tempo em um trabalho, um projeto, estudos, em treinos, em esportes, em processos criativos ou artísticos. Muitos jovens dessa geração de nativos digitais simplesmente passam esse tempo em seus celulares.

Bem, e o que eles fazem durante essas 6 horas em seus celulares? De acordo com a edição de 2021 do relatório The State of Mobile Report, da empresa de consultoria global App Annie, as atividades mais realizadas por jovens são trocas de mensagens (Whatsapp em sua maioria) e utilização recreativa das redes sociais (Facebook, Instagram, Tinder e TikTok).

A história da humanidade nos mostra que, muito dos grandes talentos, vocações e realizações sempre dependeu da intensidade e amplitude de nossa persistência, dos nossos esforços e dos conhecimentos que adquirimos. Em seu livro Direto ao Ponto – os segredos da nova ciência da Expertise, o psicólogo sueco Anders Ericsson mostrou que aquilo pelo qual chamamos de talento, na verdade, é o resultado da prática concentrada durante muito tempo, frequente e continuamente (mais precisamente, a excelência em qualquer atividade é alcançada depois de 10 mil horas de prática frequente).

Assim como uma árvore que cria raízes antes de se expandir, o florescimento do talento e das vocações humanas sempre foi o resultado do cultivo diário e cuidadoso de habilidades. E no que os nossos jovens estão empregando a maior parte de seu tempo diário? A resposta deveria esclarecer por que ficamos espantados ao ver uma geração tão vulnerável psicologicamente, tão ansiosa pelas novidades imediatas e tão dependente da aprovação social. Como já disse Allan Bloom, o que cada geração é pode ver-se melhor na relação que tem com as preocupações permanentes da humanidade – ou com a tela do celular.

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Para Palhaço Uhu, educação domiciliar é um retrocesso

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Para não ficar mal entre professores e sindicatos, o vereador, que também é professor, decide atacar o direito de a família decidir os rumos da educação dos próprios filhos

Na Sessão Plenária da última quarta-feira (25), o vereador Gleison Consalter (PDT), mais conhecido como Palhaço Uhu, usou a tribuna para comemorar a manutenção do veto, na Assembleia Legislativa gaúcha, da proposta de regulamentação do homeschooling (educação domiciliar), que havia sido aprovada em junho. Por 24 votos a 22, a proposta foi arquivada.

Nas justificativas para não sancionar a medida, o Palácio Piratini considerou que havia dúvidas sobre a legalidade da matéria. Segundo a Procuradoria-Geral do Estado (PGE), um entendimento do Supremo Tribunal Federal (STF) atribui ao Congresso Nacional a regulamentação da prática. O projeto que visava autorizar o “homeschooling” no Rio Grande do Sul foi apresentado pelo deputado estadual Fábio Ostermann (Novo). Em junho, a matéria foi aprovada por 28 votos favoráveis e 21 contrários.

Leia mais em: Lei que regulamenta ensino domiciliar avança no Rio Grande do Sul

Gleison disse que costuma ouvir os dois lados antes de se posicionar. Será mesmo que o vereador se deu ao trabalho de ouvir os argumentos dos pais que querem garantir o direito de educar os seus filhos em casa? É bem possível que não. Se não os ouviu, usou a tribuna com esse posicionamento apenas para parecer imparcial, fazendo um teatro.

“Para mim, honestamente, é um retrocesso”, pontuou. Dá a entender, pela defesa que fez aos professores, que a educação domiciliar não passa de um ataque à categoria. Veja:

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Educação

Colunistas da Lócus publicam em revista científica artigo sobre a imposição da linguagem não-binária

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Cidney Surdi Junior e Cesar Augusto Cavazzola Junior publicam, em coautoria, texto que trata das consequências educacionais e jurídicas concernentes à imposição da linguagem não-binária como instrumento de ensino e comunicação

Nesta quinta-feira (19), na Ordem dos Advogados do Rio Grande do Sul, foi lançada a 9ª Edição da Revista Eletrônica da Escola Superior de Advocacia do Rio Grande do Sul (ESA/RS), desta vez com a temática “Gêneros, Feminismos, Mulheres, Direito e Interseccionalidades“.

Trata-se da primeira revista temática da ESA/RS, a qual representa uma quebra de paradigmas em várias perspectivas. Essa proposta inovadora, ampla e democrática veio através do Grupo de Estudos de Direito e Gênero da ESA/RS.

Com o título “A IMPOSIÇÃO DA LINGUAGEM NÃO-BINÁRIA É INSTRUMENTO LEGÍTIMO PARA IGUALDADE DE GÊNERO?”, os autores resgataram as origens ideológicas dessa linguagem, identificando-a diretamente a ideologia de gênero. Contrapondo a essa agenda ideológica considerações acerca da natureza da educação e a importância do domínio da linguagem, foi observada a própria natureza da língua portuguesa e sua gramática.

Além disso, considerando as estruturas e processos de diferentes tradições de ensino no país – no entorno da problemática do alfabetismo e analfabetismo funcional, foi constatado que as atuais defasagens da educação brasileira só seriam agravadas com a imposição de uma linguagem apartada da natureza gramatical da língua portuguesa.

Ainda, vislumbrando os possíveis imbróglios jurídicos advindos de projetos de leis proibitivas, questionou-se se a imposição da linguagem não-binária não trataria mais problemas e confusões ao direito e à educação.

Não só este trabalho, assim como os demais, podem ser conferidos AQUI.

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