De um dia para o outro, Eduardo Bolsonaro muda seu posicionamento sobre o déficit previdenciário

De um dia para o outro, Eduardo Bolsonaro mudou seu posicionamento sobre o déficit previdenciário.  No dia 3 de dezembro, foi taxativo: “a previdência não é deficitária”:

Hoje, depois de virar alvo nas redes sociais e ser contestado por inúmeras pessoas, afirmou o inverso do que havia escrito na véspera: “há deficit sim da previdência”:

Afinal, em qual Eduardo Bolsonaro acreditar? Naquele que diz peremptoriamente não existir déficit ou no outro que tenta se explicar dizendo que queria falar outra coisa? Tendo a desconfiar deste segundo Eduardo Bolsonaro. Não porque duvide que pessoas possam mudar de ideia, mas porque é difícil achar alguém que mude de ideia tão rápido.

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No início do ano, quando se começava a falar da Reforma da Previdência, Eduardo publicou um vídeo nas redes sociais com seu posicionamento. Se manifestava contra a Reforma em termos que, novamente, caberiam na boca de um sindicalista da CUT:

“Queria registrar aqui e antecipar o meu voto contrário a Reforma da Previdência. Eu fundamento isso basicamente num pilar: o de que, primeiro, é necessário que nós cobremos dos grandes devedores. (…) Eu não vi esforço do Governo pra cobrar. (…) São aqueles que mais devem a Previdência Social. Enquanto isso não for feito, não haverá moral para que o Congresso analise essa proposta. (…) Além disso, é necessário também ressaltar que a nossa Previdência, ela é superavitária, ou seja: ela não dá prejuízo.”

Não é diferente do que diz Ciro Gomes:

Também não é diferente do que diz o senador Paulo Paim, do PT. Assim como Bolsonaro, ele nega o rombo e ataca devedores: “Setores do patronato arrecadam, por ano, em torno de R$25 bilhões do bolso do trabalhador e não repassam à Previdência.”

Encerro este post compartilhando o trecho de um texto no qual o economista Alan Nader Ghani desmonta as mistificações de Bolsonaro, Ciro e Paim:

“Outra mentira espalhada por aí é que não existe déficit da Previdência Social porque a Seguridade Social é superavitária. Só para entendermos, a Previdência Social faz parte da Seguridade Social. A Seguridade Social é composta por Previdência Social, Assistência Social e Saúde. Bom, primeiro que os números da Previdência Social e do Tesouro são públicos. Basta checá-los para comprovar que o rombo de 150 bilhões de reais existe. Como bem observou o Procurador do Estado do Rio de Janeiro, Felipe Derbli, em um ótimo e didático artigo sobre o tema (aqui), “o financiamento das despesas previdenciárias estritamente com as receitas previdenciárias é inviável – se assim não fosse, não seria necessário tributar toda a sociedade.” Aliás, os gastos com a previdência representam 58% dos gastos da Seguridade Social, mostrando o óbvio: a Previdência é altamente deficitária! Como também precisamente observou o economista do IPEA especializado em Previdência, Paulo Tafner, “eles [os contrários à reforma] querem subtrair os recursos da Saúde e da Assistência para fechar as contas da Previdência, em vez de corrigir os problemas da Previdência.

(…)

É evidente que as empresas devem arcar com as suas dívidas com o governo; mas, novamente, o pagamento resolveria o problema por 3 anos e não garantiria para os próximos anos à sobrevivência do sistema. Parece haver uma confusão enorme entre dívida (variável estoque) e déficit (variável fluxo). O rombo da previdência é de 150 bilhões por ano. Em outras palavras, o governo tributa e pega dinheiro emprestado da sociedade para cobrir o roubo da previdência todo ano. O déficit constante da previdência aumenta anualmente a dívida pública, a qual segue trajetória insustentável.”

Em tempo: o paper mencionado por Eduardo Bolsonaro no Twitter tem o título de “Poupança Individual de Aposentadoria – PIÁ” e foi publicado na “Revista Brasileira de Previdência”.

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