Assine Zero Hora, assine Zero Hora!

A propaganda na televisão não para. O jargão pega como um hit que não desgruda da cabeça: “Assine Zero Hora, Assine Zero Hora”. Como os articulistas do jornal mais conhecido entre os gaúchos tratou a questão recente sobre a exposição do Santander Cultural?

A QueerMuseu, exposição com temática LGBT, estava aberta para todos os públicos, sem restrição de idade. Seu curador, Gaudêncio Fidelis, já admitiu isso nas entrevistas. Imagens contendo sexo explícito, sexo de humanos com animais e ataques contra a religião cristã compunham os pilares das obras expostas.

(https://www.youtube.com/watch?v=N42k_zPK5l0&t=210s)

O jornal Zero Hora e o Grupo RBS apoiaram a QueerMuseu desde o início. Veja:

(Edição impressa de 15 de agosto de 2017 divulgando a exposição)

Depois que a população conseguiu pressionar o Santander Cultural para que encerrasse a exposição, o jornal classificou como “ataques” o que foi, na verdade, uma demanda popular nacional.

É preciso lembrar que muitas normas de natureza penal foram violadas na exposição, mas o principal estava relacionado com a necessidade de impor classificação de idade na entrada, impedindo que crianças e adolescentes ingressassem no local. Isso é o que determina o Estatuto da Criança e do Adolescente.

Assim é que destacaram na reportagem:

A decisão do Ministério Público não foi unânime entre os seus Promotores, embora uma nota oficial não tenha reconhecido as violações. Procuradores da Justiça Criminal constataram que, à exceção de algumas obras, a exposição tinha o nítido propósito de erotizar o público alvo e induzi-lo a tolerar condutas como orgias, zoofilia e vilipêndio a símbolos religiosos.

Na edição de 11 de setembro de 2017, o texto “Mostra é cancelada após críticas” foi publicado com a seguinte justificativa:

Foi a reação da instituição ao movimento de protestos de entidades e pessoas que a avaliaram como ofensiva, por razões que vão de “blasfêmia” no uso de símbolos católicos à difusão de “pedofilia” e “zoofilia” em algum dos trabalhos expostos.

Um dos artistas entrevistados pela reportagem, Sandro Ka, com obras na exposição, lamentou a “onda conservadora, motivada por posições equivocadas e ignorantes”. Disse ainda que a exposição “traz uma temática importante para se pensar o mundo de hoje”.

Uma das entidades LGBT’s saiu “em defesa da liberdade de expressão artística, das liberdades democráticas e contra os retrocessos políticos que limitam o exercício de cidadania da população LGBTT”. Ainda, destacaram o recuo do Santander Cultural “diante de manifestações fascistas de ódio e preconceito”.

ZH apontou que a seleção das obras foi feita para ampliar visibilidade de temas LGBTT, “propondo a provocação estética e estimulando as obras e artistas marginalizados”.

No Informe Especial, contido na segunda página da edição de 12 de setembro, destacava o texto “Arte e Covardia”:

O que choca nessa história não são as reclamações contra as obras expostas. Ou toda a polêmica envolvendo símbolos religiosos. […] O que me choca nessa história é a posição do Santander. Ceder a esse tipo de pressão é sintoma de que algo muito estranho está acontecendo no mundo. […] Na mesma linha, é democrático e legítimo que o MBL e seja lá quem for não considerem a exposição do Santander uma exposição de arte. O que não é democrático é impedir que outros a considerem. Vejo no horizonte sinais de perigo. Vejo e ouço. Quem grita mais ganha. Pouco importa onde esteja a razão.

No artigo “Arte e democracia” (edição de 12 de setembro, p. 21), Roger Raupp Rios, desembargador federal do TRF4, apontou:

É o espaço do novo e da diversidade. Não espanta que incomode quem não deseja um mundo plural e livre. Ainda mais quando extremismos e ódio sufocam o convívio das diferenças. […] É preciso cultivar a liberdade artística.

Mateus Colombo Mendes, uma voz solitária em meio a tantas notícias criticando o encerramento da exposição, na mesma edição, em “Viva à censura”, destacou:

Todos nós, seres humanos, somos contrários à liberdade de expressão irrestrita. […] A ideia de que é “proibido proibir” e que não se deve censurar nada é uma arma pérfida, engendrada por mentalidades que desejam subverter a realidade e aproveitar-se do caos instaurado. O reino da loucura em que vivemos […] tem como base esse discurso de que a liberdade de expressão deve sempre prevalecer.

Paulo Germano escreveu o texto “São todos autoritários” (edição de 12 de setembro, p. 23). Segue um trecho:

Que besteira. E que tragédia se abate sobre nós quando uma instituição tão fundamental na promoção da arte expressa uma visão tão estreita e tacanha. […] A arte é o que artista quiser que ela seja. E acabou.

Na mesma edição, Luiza Piffero sugere que a campanha tenha sido encabeçada pelo Movimento Brasil Livre (MBL). Aqui vale um parêntese. O próprio pioneirismo desta pauta foi levantada pela Lócus. A Revista Época fez uma matéria apontando a ordem cronológica (“Como movimentos ultraconservadores conseguiram encerrar a exposição QueerMuseu”) – embora tenha erroneamente enquadrado todo mundo como ultraconservador e ter claramente se posicionado pela continuidade da exposição. No entanto, vale destacar que foi uma tomada de ações conjuntas: a sociedade em peso foi a protagonista. Estranhamente, um editor do ZH se manifestou com as seguintes palavras em ataque ao MBL nas redes sociais:

Lamentavelmente, há sempre uma tomada de posição contrária ao MBL pela imprensa em geral.

Seguindo o tema, Alexandre Santos, professor do Instituto de Artes da UFRGS, levantou a questão: “Como trabalhar com temas polêmicos como a questão da sexualidade e gênero em um museu sem ferir certos moralismos retrógrados?”. Outro que segue a mesma linha de Gaudêncio Fidelis, o curador da exposição. Importante ressaltar o comentário recente de um artista plástico que prepara alunos para o Instituto de Artes: “Cada vez os candidatos desenham menos. Ou seja, ignoram a forma. E os professores aprovam porque a arte se tornou qualquer coisa”, lamentou-se.

A historiadora Daniela Kern destacou que “o Santander não é uma instituição religiosa, não tem obrigação de respeitar valores religiosos”. O Santander tem sim a obrigação de respeitar porque a lei impede o desrespeito.

David Coimbra escreveu em “A arte proibida do Santander” (edição de 12 de setembro, p. 47) que “a arte é transgressora, causa rupturas e faz o mundo evoluir. A arte está à frente da sociedade; o jornalismo e o Direito, atrás dela.” E ainda:

O veto, a censura, o boicote é o olho fechado, é a cabeça da avestruz enterrada no buraco para não ver o predador que se aproxima. É a escuridão e o silêncio. É a ignorância. Abra os olhos, Porto Alegre. Até para saber para o que não se quer olhar.

No Informe Especial de 13 de setembro (p. 2), duas notas chamam a atenção. A primeira delas:

Efeitos Colaterais

Só uma decisão pode ser pior do que a de fechar exposição por causa da gritaria: enfraquecer ou descontinuar o projeto cultural do Santander em Porto Alegre. É um espaço que precisa ser mantido e apoiado pela continuidade.

Esse “projeto cultural” foi devidamente explicado no encarte da exposição, inclusive foi apontado no primeiro artigo sobre o assunto (http://www.locusonline.com.br/2017/09/06/santander-cultural-promove-pedofilia-pornografia-e-arte-profana-em-porto-alegre/):

Para o Presidente da instituição, Sérgio Rial, a exposição “está ancorada em um conceito no qual realmente acreditamos: a diversidade observada sob aspectos da variedade, da pluralidade e da diferença”, que cada vez mais ganha “atenção por parte da nossa organização”, segundo consta no encarte de apresentação. Quer com isso promover o “questionamento entre a realidade das obras e do mundo atual em questões de gênero e suas nuances”. No mínimo se trata de um sujeito para o qual não há diferença nenhuma entre uma laranja e uma mexerica.

Segue ainda afirmando: “Diferentes ângulos de visão e abordagens são fundamentais e extrapolam questões institucionais ou relacionadas ao politicamente correto. Trata-se de um valor para a nossa empresa, pois acreditamos que a diversidade é a impulsionadora da criatividade e da eficiência”. Há, é claro, no mínimo uma confusão entre processo criativo e necessidade de expor intimidades.

Ou seja, para os desavisados, o Santander Cultural tem uma agenda cultural voltada para a ideologia de gênero e outros temas coligados. Nada mais do que preferência sexual sendo imposta como arte e agenda política, assim como Jean Willys fez nas suas campanhas para o Congresso.

A segunda nota dizia:

Controle

Um projeto protocolado na Assembleia propõe a introdução de classificação indicativa em exposições, mostras, exibições de artes e eventos culturais no Rio Grande do Sul.

O Estatuto da Criança e do Adolescente determina isso nos seus artigos, não se fazendo necessário lei estadual para garantir o seu cumprimento. Basta que o Ministério Público faça a sua parte e que os curadores tenham um mínimo de bom sendo para analisar o que está sendo exposto.

Martha Medeiros, escritora amada pelos gaúchos e colunista do ZH, não pode deixar de escrever algumas notas sobre o assunto:

É a isso que se dá o nome diversidade, tema da polêmica exposição. […] O Santander Cultural deu um tiro no pé ao ceder ao medo. Demonstrou estar mais preocupado em afagar o moralismo do que em promover a horizontalidade da nossa cultura. Como se sabe, medo e moralismo são dois aliados imbatíveis contra a modernidade.

Provavelmente Martha Medeiros nunca tenha sido proprietária de um negócio: marca é reputação. Os demais especialistas do Direito (p. 26), consultados na mesma edição, apontaram que as obras não incitavam ao crime. Uma pena que o ZH apenas tenha anotado opiniões favoráveis (e não unânimes) à exposição.

Carlos Gerbase, também colunista do ZH e cineasta gaúcho, vociferou contra o grupo de “incomodados” que “agrediram” os visitantes e funcionários da exposição. Não é digno de crédito porque absolutamente nada foi comprovado em relação a isso.

Cláudia Tajes, na edição dos dias 16 e 17 de setembro, também fez uma confusão danada: “De onde saíram tantos donos da verdade – e tão violentos?”. E ainda:

Pessoalmente, e sem ter visto a exposição, escolhi meu lado quando os defensores da moral porto-alegrense começaram a falar em blasfêmia – palavra em desuso desde aproximadamente o século 12 d.C. Vai que, na sequência, eles queiram reativar a roda da tortura e o cinto de castidade. Melhor formar com os hereges enquanto há tempo.

É claro que se ela tivesse lido algum livro de história que não fosse indicado pelo MEC não relataria tantas asneiras de cunho historiográfico. Tampouco sabe números romanos. Muito menos o que realmente significa blasfêmia, fazendo uso da expressão em sentido lato.

Infelizmente o Zero Hora não deu atenção às demandas gerais, saindo em defesa daquele velho coro que quer o direito de fazer tudo sem qualquer responsabilidade. O grito por “liberdade de expressão” já passou dos limites. A população está de olhos abertos e já não tolera ataques aos seus valores como objeto de arte.

Lamentavelmente o Zero Hora não apoiou o coro das ruas, apenas deu espaço para um pequeno grupo de histéricos. O que há de tão errado nos velhos veículos de informação?

“Assine Zero Hora, assine Zero Hora”? Não! Corra em busca da verdade: “Assine Lócus, assine Lócus”.

 

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