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Cultura

Novos crimes contra cristãos: a exposição “Santificados” chega a Porto Alegre

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Como se não tivesse bastado os crimes configurados com a QueerMuseu (Santander Cultural) e com a apresentação do bailarino e coreógrafo Wagner Schwartze (Museu de Arte Moderna) há pouco tempo, nova exposição conceitual é sediada em Porto Alegre: conheça a “Santificados”. 

A exposição

Segundo consta na página do evento do Facebook, a exposição SANTIFICADOS, de Rafael Dambros, é o resultado de uma pesquisa autônoma de 4 anos sobre a iconografia católica e a sua importância dentro da educação cultural. A pesquisa contou com o auxílio do Dr. Celso Bordignon e tem curadoria de Mona Carvalho.

A exposição reúne cerca de 15 obras, em sua grande maioria desenhos de diversos tamanhos variando do papel à tela, com técnicas mistas de pintura e desenho tendo a caneta esferográfica como base. Embora a exposição seja inédita, algumas das obras, como o desenho de “São João Batista”, já participou de exposições coletivas em Porto Alegre em editais da Casa Chico Lisboa, incluindo a BIENAL C, que expôs as obras em pontos como o Atelier Livre, Câmara de Vereadores de Porto Alegre entre outros. Segundo informado, a obra circulou pelo Estado em exposições diversas, inclusive recebendo visitas de escolas

RAFAEL DAMBROS
Rafael Dambros é caxiense, formado em produção audiovisual pela Universidade Estácio de Sá no Rio de Janeiro, onde viveu por sete anos trabalhando para a RECORD e como professor de desenho e pintura artística em escolas profissionalizantes e na ONG SERCIDADÃO. 

Em 2006, realizou sua primeira exposição individual, intitulada “Efeitos” no Centro Cultural Suassuna, RJ, com seus primeiros desenhos em caneta BIC. De 2007 até 2011, concentrou-se em pesquisas técnicas e experiências sensitivas na composição. Nos anos seguintes, dedicou-se a participar de projetos culturais e exposições coletivas na cidade de Porto Alegre e São Paulo. Alguns de seus trabalhos estão em acervos particulares em Porto Alegre, Rio de Janeiro, São Paulo, Glasgow, Amsterdan e no AMARP, em Caxias do Sul.

Atualmente o artista segue produzindo em seu atelier na cidade de Caxias do Sul, mesclando técnicas de pintura com desenho produzindo obras com características pop, minimalistas e realistas amparadas por longas pesquisas de temáticas atuais ou revisitando conceitos.

O artista plástico Rafael Dambros (Imagem: Camila Domingues/ Facebook do Evento)

AUXÍLIO NA PESQUISA ICONOGRÁFICA: Frei Celso Bordignon

Segundo informações também contidas na página do evento no Facebook, Celso Bordignon, conhecido como Frei Celso na cidade de Caxias do Sul, foi parceiro do projeto SANTIFICADOS auxiliando o artista Rafael Dambros em sua pesquisa iconográfica. O Frei Celso tem mestrado e doutorado realizados em Roma, ambos voltados para técnicas de pinturas da antiguidade. Foi diretor do Museu dos Capuchinhos, inaugurado já sob a sua coordenação no ano de 2001. Desde então, o Frei cuida do acervo histórico, que guarda os mais diversos documentos sobre a história da Ordem Franciscana no Rio Grande do Sul, história que começou no ano de 1896.


Não é a primeira vez que os capuchinhos entram em polêmicas. Em 2018, os padres capuchinhos gaúchos homenagearam Lula e ofereceram pousada para quem viesse a Porto Alegre protestar em frente ao TRF-4 no dia do seu julgamento. Veja:

Algumas polêmicas

Em Caxias do Sul, em 2018, a exposição já havia sido realizada, inclusive sendo alvo de muitas críticas, sobretudo da população local. Veja: 

O Grupo RBS publicou matéria sobre a exposição em Porto Alegre, na qual o artista entrevistado disse:

Ao longo desse trabalho, descobri que os santos eram mortos das maneiras mais cruéis possíveis, porque eles tinham a filosofia de Jesus de levar o amor para lugares intolerantes e também porque eles batiam de frente com o poder vigente. Aí, me perguntei: quem são essas pessoas hoje? São aqueles que lutam pelos direitos humanos, das mulheres, da comunidade negra e da população LGBT+. São esses indivíduos que exercem essa função e são apedrejados por isso.

A Exposição

Abaixo, é possível ver algumas das imagens realizadas pela equipe da Lócus no local da exposição.

 

Como é possível ver abaixo, o evento contou com a presença de Gaudêncio Fidelis, o curador da Exposição QueerMuseu, do Santander Cultural:

A violação de direitos presente na Exposição

Muitas imagens representam verdadeiro atentado aos cristãos, violando a redação do art. 5º, VI da Constituição Federal:

VI – é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias; 

Não há qualquer restrição de idade à entrada de menores de 18 anos no local. Na página do Facebook que divulga o evento, conforme mostrado anteriormente, informa que algumas das obras já receberam visitas de escolas (quando expostas em outros lugares) – embora, quando visitada na sua inauguração, não tivesse sinal da presença de menores de idade no local, não havia qualquer cartaz indicando o teor das obras e nem restrição à entrada. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) aponta que é “dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária” (art. 4º). E ainda:

Art. 5º Nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão, punido na forma da lei qualquer atentado, por ação ou omissão, aos seus direitos fundamentais.

Art. 15. A criança e o adolescente têm direito à liberdade, ao respeito e à dignidade como pessoas humanas em processo de desenvolvimento e como sujeitos de direitos civis, humanos e sociais garantidos na Constituição e nas leis.

Art. 16. O direito à liberdade compreende os seguintes aspectos:

I – ir, vir e estar nos logradouros públicos e espaços comunitários, ressalvadas as restrições legais;

II – opinião e expressão;

III – crença e culto religioso;

IV – brincar, praticar esportes e divertir-se;

V – participar da vida familiar e comunitária, sem discriminação;

VI – participar da vida política, na forma da lei;

VII – buscar refúgio, auxílio e orientação.

Art. 17. O direito ao respeito consiste na inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral da criança e do adolescente, abrangendo a preservação da imagem, da identidade, da autonomia, dos valores, idéias e crenças, dos espaços e objetos pessoais.

Art. 18. É dever de todos velar pela dignidade da criança e do adolescente, pondo-os a salvo de qualquer tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor.

É preciso lembrar ser “dever de todos prevenir a ocorrência de ameaça ou violação dos direitos da criança e do adolescente” (art. 70). Portanto,

Art. 74. O poder público, através do órgão competente, regulará as diversões e espetáculos públicos, informando sobre a natureza deles, as faixas etárias a que não se recomendem, locais e horários em que sua apresentação se mostre inadequada.

Parágrafo único. Os responsáveis pelas diversões e espetáculos públicos deverão afixar, em lugar visível e de fácil acesso, à entrada do local de exibição, informação destacada sobre a natureza do espetáculo e a faixa etária especificada no certificado de classificação.

As crianças e adolescentes só podem ter acesso às diversões e espetáculos públicos classificados como adequados à sua faixa etária (art. 75), sendo que as crianças menores de dez anos somente poderão ingressar e permanecer nos locais de apresentação ou exibição quando acompanhadas dos pais ou responsável (art. 75, Parágrafo Único). E ainda:

Art. 98. As medidas de proteção à criança e ao adolescente são aplicáveis sempre que os direitos reconhecidos nesta Lei forem ameaçados ou violados:

I – por ação ou omissão da sociedade ou do Estado;

II – por falta, omissão ou abuso dos pais ou responsável;

III – em razão de sua conduta.

A injúria constitui violação tipificada pelo Código Penal, para o qual:

Art. 140 – Injuriar alguém, ofendendo-lhe a dignidade ou o decoro:

Pena – detenção, de um a seis meses, ou multa.

1º – O juiz pode deixar de aplicar a pena:

I – quando o ofendido, de forma reprovável, provocou diretamente a injúria;

II – no caso de retorsão imediata, que consista em outra injúria.

2º – Se a injúria consiste em violência ou vias de fato, que, por sua natureza ou pelo meio empregado, se considerem aviltantes:

Pena – detenção, de três meses a um ano, e multa, além da pena correspondente à violência.

3º – Se a injúria consiste na utilização de elementos referentes a raça, cor, etnia, religião, origem ou a condição de pessoa idosa ou portadora de deficiência:     

Pena – reclusão de um a três anos e multa. 

As imagens também constituem crime de ultraje a culto:

 Art. 208 – Escarnecer de alguém publicamente, por motivo de crença ou função religiosa; impedir ou perturbar cerimônia ou prática de culto religioso; vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso:

Pena – detenção, de um mês a um ano, ou multa.

Parágrafo único – Se há emprego de violência, a pena é aumentada de um terço, sem prejuízo da correspondente à violência.

As obscenidades presentes na exposição podem violar os seguintes dispositivos do Código Penal:

Escrito ou objeto obsceno

Art. 234 – Fazer, importar, exportar, adquirir ou ter sob sua guarda, para fim de comércio, de distribuição ou de exposição pública, escrito, desenho, pintura, estampa ou qualquer objeto obsceno:

Pena – detenção, de seis meses a dois anos, ou multa.

Parágrafo único – Incorre na mesma pena quem:

I – vende, distribui ou expõe à venda ou ao público qualquer dos objetos referidos neste artigo;

II – realiza, em lugar público ou acessível ao público, representação teatral, ou exibição cinematográfica de caráter obsceno, ou qualquer outro espetáculo, que tenha o mesmo caráter;

III – realiza, em lugar público ou acessível ao público, ou pelo rádio, audição ou recitação de caráter obsceno.

Considerações finais

Espera-se que, a partir deste ano, ações movidas no campo da arte comecem a ser contidas, sobretudo quando há crimes tipificados no evento. 

Em matéria recente aqui na Lócus foi mostrado que tramita na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei 9000/17, do agora Ministro da Casa Civil Onyx Lorenzoni (DEM/RS), que criminaliza o uso de recursos públicos para a realização de projetos artísticos que promovam a sexualização precoce de crianças e adolescentes ou façam apologia a crimes ou atividades criminosas.

Há também o PL 10583/2018, de autoria da deputada federal Mariana Carvalho (PSDB/RO), quer a inclusão de medidas de conscientização, prevenção e combate à erotização infantil (sexualização precoce) nas escolas públicas do Brasil. O Projeto está aguardando Designação de Relator na Comissão de Seguridade Social e Família (CSSF) da Câmara dos Deputados. 

Embora seja um momento de esperança, nada será resolvido se as autoridades competentes não cumprirem seu papel fiscalizatório, permitindo que eventos dessa natureza ganhem novos tentáculos sobre a cultura nacional. 

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Quem é que se importa com a sexualidade dos super-heróis?

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Há muito as HQ’s perdem espaço com propostas superficiais, como a lacração por inclusão e discussão de gênero. Tornam seu enredo cansativo e irritante, demonstrando a hipocrisia tanto da editora quanto dos críticos.

Para os aficionados por histórias em quadrinhos (HQ’s), o nome Joe Kent é bastante conhecido. Para aqueles que não acompanham esse universo tão de perto, Joe Kent é nada mais nada menos que filho de Kal El (o Clark Kent – Superman). Dois fatos relevantes sobre Joe: (a) ele herdou a capa vermelha, ou seja, agora nas HQ’s ele é o Superman; (b) em novembro, assumirá um relacionamento bissexual.

É certo que, para a maioria das pessoas, isso não significa nada. A opção sexual é um direito de qualquer pessoa – até mesmo dos personagens de ficção. De qualquer forma, o que decepciona é a reiterada necessidade da “lacração” – como dizemos – das editoras de HQ’s, procurando publicidade engajada sobre polêmicas e não no valor intelectual do produto. Não parece razoável pensar que, noutros tempos, os fãs adquiriam as histórias para ver Clark Kent beijar Lois Lane, tampouco para saber detalhes do casamento de Tony Stark. Também não parece razoável pensar que a atual geração de jovens busque gibis do Homem-Aranha para saber se ficará com a Mary Jane – parece mais provável que queiram vê-lo derrotar o Venon, o Duende Verrde, o Abutre, etc.

Romances nas HQ’s nunca (ou muito raramente) fizeram sucesso, a não ser que deles algo importante para o universo dos quadrinhos acontecesse. Poucos se interessaram pela paixão de Talia por Bruce, mas todos gostam de acompanhar o que o filho do Cavaleiro das Trevas com ela, o jovem Damian Wayne, apronta como novo Robin (inclusive matando Dick Grayson, o Robin original).

É de se pensar que, talvez, a criatividade esteja em baixa nesse universo de super-heróis, por isso que as editoras acabem apostando em temática social, inclusão e outras formas de lacrar. Qual é o sentido, afinal, de trazer à tona, justamente nestes tempos, debates sobre a opção sexual dos personagens? Há muito as HQ’s perdem espaço com propostas superficiais, como a lacração por inclusão e discussão de gênero. Tornam seu enredo cansativo e irritante, demonstrando a hipocrisia tanto da editora quanto dos críticos.

Ignoram que o retorno de He-Man na Netflix, o qual desde seu trailer chamou a atenção pela semelhança com o foco original da série, pela pancadaria, sangue, efeitos e pela trilha sonora nada convencional para os jovens de hoje, mas que causou arrepios nos fãs quarentões da série com a música “Holding out for a hero”, de Bonnie Tyler. O sucesso está no que sempre agradou. Tentar mudar o foco remete ao fracasso instantâneo, como visto no remake de She-Ra, com temática juvenil, lacração e superficialidade.

Leitores, fãs ou casuais procuram no novo Superman o que viam nos seus pais, alguém que lute pela justiça, promova os valores certos, não importando o que faz nos períodos de folga. Talvez uma boa dica para a DC Comics é manter Joe na luta contra inimigos do mundo, ameaças nucleares, tóxicas, extraterrestres, socar e chutar inimigos fazendo-os sangrar, aliando-se aos bons. Seria horrível vê-lo perseguindo quem postou algo ofensivo sobre seu namorado no Twitter.

É embaraçoso ver jovens idolatrando o Pantera Negra por ser um herói negro. Um herói do país fictício Wakanda, localizado numa posição geográfica onde, na realidade, tribos ainda são perseguidas e escravizadas na África Central. Um herói vindo da realeza com sangue azul que representa os pobres negros favelados? Um herói de uma nação nada inclusiva, que somente permitiu ao Buck (Soldado Invernal) morar numa casa isolada por ser estrangeiro e branco? Orgulho para os negros por ter sido criada na cabeça de dois quadrinistas brancos – Kirby e Stan Lee?
Mais inclusiva então é Asgard, a terra nórdica do Thor, que nos filmes tem pessoas de todas etnias, mesmo historicamente sendo uma terrra do panteão escandinavo, onde só deveriam ter habitantes brancos na maioria loiros.

E que tal a terra das amazonas da Diana, a Mulher Maravilha, onde se isolaram dos homens? É de se imaginar, na próxima temporada, sendo escolhida dentre as novas guerreiras uma transexual, que ganhará nas provas graças à testosterona que acompanhou-a durante a juventude, como já temos exemplos nos dias atuais.

Pior ainda a cena feminista – e talvez a única dispensável – no filme “Vingadores Ultimato”, a ceninha do “time das meninas”, na qual ridiculamente, durante alguns minutos, apenas heroínas se intercalaram para enfrentar o Thanos, algo impensável numa guerra, ao abandonar as linhas onde todos os heróis lutam em conjunto para provar algo politicamente correto – mesmo que signifique o fim do universo.

Não, ninguém quer esse tipo de discussões. O público quer é ver o Batman surpreendendo o Coringa, o Thor chegando em Wakanda e clamando pelo Thanos, a Capitã Marvel entrando na atmosfera e destruindo toda a nau capitania da invasão, a Arlequina com o sorriso macabro estrangulando o vilão com as pernas. Melhor é que o filho do Clark se preocupe em evitar a criptonita, chegar voando para salvar os inocentes – isto já está de bom tamanho.

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Você sabe o que seu filho faz no celular?

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O TikTok não é apenas um aplicativo divertido que obteve sucesso e alcance imediato. É uma nova linguagem que está reformulando as mídias digitais, cujos efeitos começam a ser estudados.

De acordo com a edição de 2021 do The State of Mobile Report, relatório sobre os hábitos de uso do celular divulgado pela empresa App Annie, o aplicativo mais baixado e utilizado no mundo foi o TikTok, ultrapassando os afamados Facebook, Instagram e Twitter. No momento da redação deste texto, o aplicativo conta com 1,5 bilhões de usuários ativos. O Brasil aparece como o país que mais teve downloads do aplicativo em 2020.

O TikTok surgiu em 2017, quando a empresa chinesa Beijing Bytedance Technology comprou o aplicativo Musical.ly, o renomeou e aprimorou a sua utilização. Trata-se de um aplicativo de mídia social para criação, interação e compartilhamento de vídeos curtos, com duração de 15 a 60 segundos. Ali, encontram-se coisas as mais variadas possíveis – dublagens, danças e clipes, caretas e exibicionismo, tendências diárias, exposição e divulgação de trabalhos, artistas e famosos. Além disso, devido ao grande alcance, empresas e negócios já adotaram o aplicativo como uma das formas para comunicação rápida, propagandas e campanhas de marketing.

A missão, segundo o próprio aplicativo, é ser “o principal destino para vídeo móvel no formato curto, inspirar a criatividade e trazer alegria”. O grande diferencial está na experiência altamente customizada: os vídeos são direcionados de acordo com o que o usuário vai clicando, assistindo ou produzindo e compartilhando – é o algoritmo digital trabalhando ferozmente.

Quase 70% dos usuários ativos desse aplicativo têm entre 16 a 24 anos; 17% têm entre 13 e 16 anos (nos EUA, 35% têm menos de 19 anos, número também muito provável no Brasil). 90% acessam diariamente. Em geral, os usuários gastam uma média de 1 a 3 horas por dia usando o aplicativo. Isso significa que os usuários ativos ficam expostos de 120 a 240 vídeos curtos por dia, 840 a 1.200 por semana – quando não estão envolvidos produzindo ou criando os próprios vídeos.

Isso representa uma verdadeira inundação de informações em doses frenéticas e de poucos segundos. Não se trata apenas de um aplicativo divertido que obteve sucesso e alcance imediato, mas de uma nova linguagem que está reformulando as mídias digitais, cujos efeitos começam a ser explorados e estudados. (Devido ao imediato sucesso do TikTok, as demais redes como Instagram e Youtube já aderiram a esse formato de compartilhamento de vídeos).

Ainda que o aplicativo engaje seus usuários – em sua maioria jovens – tanto no consumo como na criação de vídeos, já é possível antecipar que, considerando as pesquisas sobre os impactos das tecnologias digitais na concentração humana, são até previsíveis os efeitos imediatos dessa inundação de vídeos curtos, seja na atenção prolongada, na concentração focada, ou na habilidade de leitura dos usuários.

Quantos desses efeitos já não são visíveis em salas de aula? Quantos desses efeitos já não são sentidos por professores que precisam manter o foco dos alunos, seja em explicações mais demoradas ou texto e redações? Quantos desses efeitos já não são percebidos por pais que cobram atenção dos filhos ao realizar a tarefa de casa? A boa educação, bem sabemos, requer atenção e constância. Distrações sempre existiram e existirão. A cada nova geração, maiores serão os desafios não só dos pais e professores, mas sobretudo dos próprios alunos que, a todo momento com celular na mão, são chamados a tentação de assistir “só a mais um vídeo”.

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Geração TikTok: muita tecnologia, pouca concentração

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Os usuários ativos ficam expostos de 120 a 240 vídeos curtos por dia, 840 a 1.200 por semana – quando não estão envolvidos produzindo ou criando os próprios vídeos. O TikTok foi feito para viciar.

Que toda tecnologia influencia de alguma forma na nossa maneira de perceber o mundo, é fato conhecido. Antes do advento da escrita, por exemplo, a memória certamente era uma habilidade intensamente requisitada, de modo que as redes neurais responsáveis por essa função estavam em constante treino. Nesse contexto, ao percebermos a presença habitual dos smartphones mediando praticamente todas as experiências e ações diárias das pessoas, não será difícil reconhecer que é altamente provável que essa tecnologia cause alterações cognitivas nos indivíduos que a usem compulsivamente.

De acordo com a edição de 2021 do The State of Mobile Report, relatório sobre os hábitos de uso do celular divulgado pela empresa App Annie, o aplicativo mais baixado e utilizado no mundo foi o Tik-Tok, ultrapassando os afamados Facebook, Instagram e Twitter. No momento da redação deste texto, o aplicativo conta com 1,4 bilhões de usuários ativos. O Brasil aparece como o país que mais teve downloads do aplicativo em 2020.

O Tik-Tok surgiu em 2017, quando a empresa chinesa Beijing Bytedance Technology comprou o aplicativo Musical.ly, o renomeou e aprimorou a sua utilização. Trata-se de um aplicativo de mídia social para criação, interação e compartilhamento de vídeos curtos, com duração de 15 a 60 segundos. Ali, encontram-se coisas as mais variadas possíveis – dublagens, danças e clipes, caretas e exibicionismo, tendências diárias, exposição e divulgação de trabalhos, artistas e famosos. Além disso, devido ao grande alcance, empresas e negócios já adotaram o aplicativo como uma das formas para comunicação rápida, propagandas e campanhas de marketing. A missão, segundo o próprio aplicativo, é ser “o principal destino para vídeo móvel no formato curto, inspirar a criatividade e trazer alegria”. O grande diferencial está na experiência altamente customizada: os vídeos são direcionados de acordo com o que o usuário vai clicando, assistindo ou produzindo e compartilhando – é o algoritmo digital trabalhando ferozmente.

Quase 70% dos usuários ativos desse aplicativo têm entre 16 a 24 anos; 17% têm entre 13 e 16 anos (nos EUA, 35% têm menos de 19 anos, número também muito provável no Brasil). 90% acessam diariamente. Em geral, os usuários gastam uma média de 1 a 3 horas por dia usando o aplicativo. Isso significa que os usuários ativos ficam expostos de 120 a 240 vídeos curtos por dia, 840 a 1.200 por semana – quando não estão envolvidos produzindo ou criando os próprios vídeos. É uma verdadeira inundação de informações em doses frenéticas e de poucos segundos. Não se trata apenas de um aplicativo divertido que obteve sucesso e alcance imediato, mas de uma nova linguagem que está reformulando as mídias digitais, cujos efeitos começam a ser explorados e estudados. (Devido ao imediato sucesso do TikTok, demais redes como Instagram e Youtube já aderiram a esse formato de compartilhamento de vídeos). No entanto, já é possível antecipar que, considerando as pesquisas sobre os impactos das tecnologias digitais na concentração humana, são visíveis os efeitos imediatos dessa inundação de vídeos curtos na atenção prolongada, na concentração focada e na habilidade de leitura dos usuários – em sua maioria, jovens.

CONCENTRAÇÃO FRAGMENTADA

Recentemente, em um artigo publicado na revista digital Frontiers in Public Health, “Sobre a psicologia do uso do TikTok”, pesquisadores da Alemanha, China e EUA, concluíram que o grande alcance e o alto engajamento no uso do TikTok é resultado de uma aperfeiçoada análise psicológica das mídias:

“As empresas de mídias sociais criaram serviços altamente imersivos, com o objetivo de captar a atenção dos usuários o máximo possível. Como resultado da permanência prolongada dos usuários, as empresas de mídia social obtêm insights profundos sobre as características psicológicas dos usuários”.

Neste sentido, o TikTok pode ser considerado o produto mais representativo e avançado das mídias sociais, obtido a partir do comportamento diário dos usuários na internet e nos smartphones. Quanto mais você usa, mais eles conhecem você, mais você receberá o que lhe atrai, mais você ficará engajado. No fim, você acaba despendendo mais tempo do que o pretendido – e desligar não será uma opção considerada. O TikTok foi feito para viciar.

O uso compulsivo de um aplicativo como esse não está essencialmente ligado ao conteúdo distribuído. As informações veiculadas podem ser engraçadas, inúteis, criativas ou importantes – seu efeito não está essencialmente aí. Todo o conteúdo criado e distribuído no TikTok poderia, muito bem, ser distribuído em outras plataformas. A diferença está na forma com que é feito nesse aplicativo – vídeos rápidos, em fluxo contínuo e de alto engajamento. A concentração é requisitada em doses de spiccato, de 15 a 60 segundos, igual a uma mordida, dentro de uma timeline personalizada e de rolagem infinita. A atenção do usuário é mantida em uma constante sensação de novidade e curiosidade sobre o que aparecerá.

O TikTok não foi feito para o usuário ter longos períodos de concentração. Trata-se do paradoxo da atenção: o aplicativo prende a atenção para quebrá-la. Agora, você consegue imaginar o que um hábito como esse pode causar em um indivíduo de 13 a 17 anos, que dedica 2 a 4 horas diárias a este tipo de concentração fragmentada?

Em um estudo publicado em 2019, na Nature Communications, pesquisadores alemães e dinamarqueses concluíram que o tempo de atenção média dos usuários de redes sociais está diminuindo coletivamente devido à rapidez das informações distribuídas e consumidas. Outras pesquisas neurológicas já demonstraram que muitas práticas e ações frequentes, dentro de determinados ambientes, podem alterar as redes neurais do cérebro, criando hábitos rígidos e comportamentos difíceis de serem alterados – para o bem ou para o mal. Se um indivíduo tem o hábito diário de desafiar sua resistência física, com o tempo seu cérebro irá se habituar a resistência com maior facilidade; seus gatilhos mentais o levarão a ter maior facilidade em ser uma pessoa resiliente. O mesmo processo pode acontecer com um indivíduo que tem o hábito compulsivo e diário de estar conectado às mídias sociais por horas ou de assistir continuamente muitos vídeos rápidos, como no TikTok – sua capacidade de concentração e atenção prolongada irá diminuir, pois sua mente estará sendo treinada diariamente a ter curtos períodos de concentração. As consequências podem ser vistas na impaciência dos usuários diante de atividades mais prolongadas como ler um livro, ler textos longos na internet, assistir um filme inteiro, assistir a uma palestra ou, especialmente entre os jovens, assistir atentamente a uma aula de 50 minutos.

Em 2010, Steve Jobs revelou a um jornalista do New York Times que seus filhos nunca haviam usado iPad, sua própria invenção. Em 2018, Bill Gates admitiu que tinha severas regras de tempo para os filhos usarem tecnologia. Chris Anderson, antigo editor da prestigiada revista de tecnologia Wired, afirmou que nunca permitiu seus cinco filhos usarem aparelhos com tela em seus quartos. Evan Williams, um dos sócios-fundadores do Twitter, sempre evitou dar um iPad ou celular aos seus filhos pequenos. Se os próprios envolvidos na criação da tecnologia admitem os prejuízos pelo uso compulsivo, não ser ingênuo diante da mídia de algoritmos é o primeiro passo para recuperar a capacidade de concentração profunda, que tanto fez bem à humanidade. E se você leu até aqui, parabéns e obrigado.

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