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Pandemia não é para amadores

A Lócus Online convidou o médico Dr. Guilherme Krahl, cirurgião cardiovascular de Passo Fundo, para escrever sobre suas impressões em relação às medidas tomadas para enfrentamento do Covid-19

Não é de hoje que seres vivos convivem com epidemias, tampouco que a vida é alvo de imponentes ameaças.  Todos animais já enfrentaram doenças ou situações  incompatíveis com a vida.  Aqui não há espaço para falar de dinhossauros e meteoros.  Muito mais recentemente extintos foram tigres dentes de sabre, mamutes, megalodontes e tantos outros.  Muitas espécies se descontinuaram, outras se adaptaram e sobreviveram. As ameaças, portanto, fazem parte da vida humana e animal.

Desastres naturais com consequências continentais ou doenças infectocontagiosas de alta letalidade são raríssimos. Nesta confortável posição, o aparecimento de uma epidemia global – mesmo sem potencial genocida – causou um desproporcional estresse social global, levando a civilização à beira da inimaginável desestruturação social por pânico generalizado.

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Um vírus oriundo da China – sim, aquele país lá do outro lado do mundo – conseguiu criar uma avalanche socioeconômica até mesmo na sua antípoda, a América do Sul.  Criou-se a pandemia do pânico, aquele medo incontrolável ao enfrentar uma ameaça desconhecida. Esse medo virou uma bola de neve aliado à desinformação e à imaturidade com a qual esta virose foi tratada ao redor do globo.  Nos próximos meses, será possível vislumbrar o Sars-COV-2 matar centenas de milhares de pessoas no mundo, sem dúvida, e tragicamente serão perdidos conhecidos e familiares.  Mas a desgraça humana que se seguirá poderá ser muito maior.

Toda vida é importante sim, mas também, como tem sido entendido nos últimos séculos, os direitos básicos são até mais preciosos, caso contrário tantos milhares não teriam se arriscado ou mesmo sucumbido tentando garantir a liberdade, a igualdade e o direito a oportunidades justas em guerras e revoltas no passado.  No contrapasso dos nossos ancestrais, a sociedade fica catatônica ao enfrentar uma virose, imaturamente iludida por uma imprensa infantil e oportunista e pela ambição política de muitas pessoas.

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Nunca na história da humanidade foi a civilização palco de uma quarentena de pessoas sadias neste nível atual.  Epidemias no passado ensinaram as pessoas sadias a se afastarem das adoecidas. Em algumas espécies é fato que os vitimados por afecções simplesmente abandonam o bando, na esperança de não contaminar os demais.  Mas desta vez houve uma inovação: parou-se tudo de forma geral, da produção ao convívio – a sociedade optou por estagnar-se escondida.  Por ordem imperativa e impessoal, difundiu-se que seria mais seguro a todos o isolamento em casa, numa frustrada tentativa de esperar que o coronavírus se cansasse e fosse embora.

A imprensa adotou o sensacionalismo típico, para que houvesse o consumo massificado da notícia.  “Ensinaram-se”, nos telejornais, coisas que médicos nunca aprenderam,  i.e. que vírus respiratórios são transmitidos por quem corre na praia ou por aqueles que se sentam em bancos públicos.

Enganou-se a sociedade, sim. Primeiramente pela China, que não compartilhou dados nem alertou devidamente o mundo em tempo hábil para conter a ameaça.  Tampouco forneceu dados exatos sobre mortalidade, fatores de risco, meios de contágio.

Quando o vírus chegou na Europa, o pânico já tinha garantido seu espaço no mundo.  Nações europeias foram obrigadas a enfrentar às cegas o vírus. No desespero de fazer algo, começaram a isolar países mais afetados, e estes fecharam suas fronteiras e casas. Ali, a grande manchete fez brilhar os olhos de editores esfomeados e repórteres esculachados de várias partes do mundo que enfrentavam a indignação da população com a manipulação que tiveram sido vítimas de órgãos de imprensa com importantes vieses ideológicos nas últimas décadas.  Além disso, o grande número de idosos com insuficiência respiratória fez nações inteiras apostarem na compra de respiradores para dispor a todos os doentes graves.  Rasgavam-se ali todos os conceitos da medicina baseada em evidências.  Pouco se sabia sobre a doença, mas  todas as fichas foram apostadas em manter vivos os pacientes através de pulmões artificiais.  Não era de se esperar outra coisa de políticos mal intencionados senão uma oportunidade de ouro: compras indiscriminadas de equipamentos caríssimos e com autorização legal para fazê-las sem licitação – pois a humanidade agora tinha um inimigo em comum a combater.

Para dar subsídio àquilo que estava acontecendo nas entrelinhas, nada melhor que o povo trancado em casa, apavorado, assistindo a “Doutora Imprensa” ensinar a todos como se tratar e como se espalha um vírus com dados que nem os maiores especialistas ainda tinham conhecimento.

A busca do conhecimento epidemiológico começou a ser importante para muitos e, assim, como para países menos susceptíveis ao pânico global, cujo foco era aprender antes de tratar.  Testes diagnósticos começaram a ser estimulados e pesquisas de tratamentos efetivos e ao alcance do mundo começaram a ser estudados.

Resultados animadores ainda a serem efetivamente comprovados foram conseguidos com drogas baratas como a hidroxicloroquina – conhecidas há décadas e já disponíveis em todas as farmácias – mas começaram a fazer frente com novíssimos antivirais, cuja pesquisa é inicial e pouco se sabe, mas muito se quer ganhar em cima.

Dados epidemiológicos começaram a apontar para mortalidade inferior ou no máximo igual a uma virose respiratória comum como a gripe (Influenza) para pacientes hígidos menores de 50 anos, embora muito mortal para idosos acima dos 70 anos com comorbidades.

Mais e mais dados aparecem diariamente apontando para a fragilidade do vírus no meio ambiente, sob a luz solar, e também sugerem a necessidade de contato prolongado (por exemplo, em indústrias e escritórios fechados) para a disseminação, indo de encontro com a política de algemar quem caminha na praia sozinho ou vai ao parque alimentar pombos.

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Respiradores, pelo menos isso foi certo? Muito ainda há para aprender, mas até o momento a tão indicada intubação precoce dos Covid-19 se mostrou mais associada a resultados ruins, quando comparados ao só fazê-la em paciente muito hipoxêmicos e com incapacidade ventilatória avançada.

Resultam, ao fim deste emaranhado de tendências pandêmicas, mais incertezas do que verdades, mas o horizonte já está iluminado e a humanidade como um todo não sucumbirá ao Covid-19. Fica a expectativa se ela aguentará as crises sociais que virão. O autor deixa, por fim, um conselho médico a todos: na próxima pandemia, esperem e confiem na ciência e nos médicos antes de tentarem obter certezas “cinematográficas” nos telejornais de horário nobre.

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