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Você sabe o que seu filho faz no celular?

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O TikTok não é apenas um aplicativo divertido que obteve sucesso e alcance imediato. É uma nova linguagem que está reformulando as mídias digitais, cujos efeitos começam a ser estudados.

De acordo com a edição de 2021 do The State of Mobile Report, relatório sobre os hábitos de uso do celular divulgado pela empresa App Annie, o aplicativo mais baixado e utilizado no mundo foi o TikTok, ultrapassando os afamados Facebook, Instagram e Twitter. No momento da redação deste texto, o aplicativo conta com 1,5 bilhões de usuários ativos. O Brasil aparece como o país que mais teve downloads do aplicativo em 2020.

O TikTok surgiu em 2017, quando a empresa chinesa Beijing Bytedance Technology comprou o aplicativo Musical.ly, o renomeou e aprimorou a sua utilização. Trata-se de um aplicativo de mídia social para criação, interação e compartilhamento de vídeos curtos, com duração de 15 a 60 segundos. Ali, encontram-se coisas as mais variadas possíveis – dublagens, danças e clipes, caretas e exibicionismo, tendências diárias, exposição e divulgação de trabalhos, artistas e famosos. Além disso, devido ao grande alcance, empresas e negócios já adotaram o aplicativo como uma das formas para comunicação rápida, propagandas e campanhas de marketing.

A missão, segundo o próprio aplicativo, é ser “o principal destino para vídeo móvel no formato curto, inspirar a criatividade e trazer alegria”. O grande diferencial está na experiência altamente customizada: os vídeos são direcionados de acordo com o que o usuário vai clicando, assistindo ou produzindo e compartilhando – é o algoritmo digital trabalhando ferozmente.

Quase 70% dos usuários ativos desse aplicativo têm entre 16 a 24 anos; 17% têm entre 13 e 16 anos (nos EUA, 35% têm menos de 19 anos, número também muito provável no Brasil). 90% acessam diariamente. Em geral, os usuários gastam uma média de 1 a 3 horas por dia usando o aplicativo. Isso significa que os usuários ativos ficam expostos de 120 a 240 vídeos curtos por dia, 840 a 1.200 por semana – quando não estão envolvidos produzindo ou criando os próprios vídeos.

Isso representa uma verdadeira inundação de informações em doses frenéticas e de poucos segundos. Não se trata apenas de um aplicativo divertido que obteve sucesso e alcance imediato, mas de uma nova linguagem que está reformulando as mídias digitais, cujos efeitos começam a ser explorados e estudados. (Devido ao imediato sucesso do TikTok, as demais redes como Instagram e Youtube já aderiram a esse formato de compartilhamento de vídeos).

Ainda que o aplicativo engaje seus usuários – em sua maioria jovens – tanto no consumo como na criação de vídeos, já é possível antecipar que, considerando as pesquisas sobre os impactos das tecnologias digitais na concentração humana, são até previsíveis os efeitos imediatos dessa inundação de vídeos curtos, seja na atenção prolongada, na concentração focada, ou na habilidade de leitura dos usuários.

Quantos desses efeitos já não são visíveis em salas de aula? Quantos desses efeitos já não são sentidos por professores que precisam manter o foco dos alunos, seja em explicações mais demoradas ou texto e redações? Quantos desses efeitos já não são percebidos por pais que cobram atenção dos filhos ao realizar a tarefa de casa? A boa educação, bem sabemos, requer atenção e constância. Distrações sempre existiram e existirão. A cada nova geração, maiores serão os desafios não só dos pais e professores, mas sobretudo dos próprios alunos que, a todo momento com celular na mão, são chamados a tentação de assistir “só a mais um vídeo”.

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Geração TikTok: muita tecnologia, pouca concentração

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Os usuários ativos ficam expostos de 120 a 240 vídeos curtos por dia, 840 a 1.200 por semana – quando não estão envolvidos produzindo ou criando os próprios vídeos. O TikTok foi feito para viciar.

Que toda tecnologia influencia de alguma forma na nossa maneira de perceber o mundo, é fato conhecido. Antes do advento da escrita, por exemplo, a memória certamente era uma habilidade intensamente requisitada, de modo que as redes neurais responsáveis por essa função estavam em constante treino. Nesse contexto, ao percebermos a presença habitual dos smartphones mediando praticamente todas as experiências e ações diárias das pessoas, não será difícil reconhecer que é altamente provável que essa tecnologia cause alterações cognitivas nos indivíduos que a usem compulsivamente.

De acordo com a edição de 2021 do The State of Mobile Report, relatório sobre os hábitos de uso do celular divulgado pela empresa App Annie, o aplicativo mais baixado e utilizado no mundo foi o Tik-Tok, ultrapassando os afamados Facebook, Instagram e Twitter. No momento da redação deste texto, o aplicativo conta com 1,4 bilhões de usuários ativos. O Brasil aparece como o país que mais teve downloads do aplicativo em 2020.

O Tik-Tok surgiu em 2017, quando a empresa chinesa Beijing Bytedance Technology comprou o aplicativo Musical.ly, o renomeou e aprimorou a sua utilização. Trata-se de um aplicativo de mídia social para criação, interação e compartilhamento de vídeos curtos, com duração de 15 a 60 segundos. Ali, encontram-se coisas as mais variadas possíveis – dublagens, danças e clipes, caretas e exibicionismo, tendências diárias, exposição e divulgação de trabalhos, artistas e famosos. Além disso, devido ao grande alcance, empresas e negócios já adotaram o aplicativo como uma das formas para comunicação rápida, propagandas e campanhas de marketing. A missão, segundo o próprio aplicativo, é ser “o principal destino para vídeo móvel no formato curto, inspirar a criatividade e trazer alegria”. O grande diferencial está na experiência altamente customizada: os vídeos são direcionados de acordo com o que o usuário vai clicando, assistindo ou produzindo e compartilhando – é o algoritmo digital trabalhando ferozmente.

Quase 70% dos usuários ativos desse aplicativo têm entre 16 a 24 anos; 17% têm entre 13 e 16 anos (nos EUA, 35% têm menos de 19 anos, número também muito provável no Brasil). 90% acessam diariamente. Em geral, os usuários gastam uma média de 1 a 3 horas por dia usando o aplicativo. Isso significa que os usuários ativos ficam expostos de 120 a 240 vídeos curtos por dia, 840 a 1.200 por semana – quando não estão envolvidos produzindo ou criando os próprios vídeos. É uma verdadeira inundação de informações em doses frenéticas e de poucos segundos. Não se trata apenas de um aplicativo divertido que obteve sucesso e alcance imediato, mas de uma nova linguagem que está reformulando as mídias digitais, cujos efeitos começam a ser explorados e estudados. (Devido ao imediato sucesso do TikTok, demais redes como Instagram e Youtube já aderiram a esse formato de compartilhamento de vídeos). No entanto, já é possível antecipar que, considerando as pesquisas sobre os impactos das tecnologias digitais na concentração humana, são visíveis os efeitos imediatos dessa inundação de vídeos curtos na atenção prolongada, na concentração focada e na habilidade de leitura dos usuários – em sua maioria, jovens.

CONCENTRAÇÃO FRAGMENTADA

Recentemente, em um artigo publicado na revista digital Frontiers in Public Health, “Sobre a psicologia do uso do TikTok”, pesquisadores da Alemanha, China e EUA, concluíram que o grande alcance e o alto engajamento no uso do TikTok é resultado de uma aperfeiçoada análise psicológica das mídias:

“As empresas de mídias sociais criaram serviços altamente imersivos, com o objetivo de captar a atenção dos usuários o máximo possível. Como resultado da permanência prolongada dos usuários, as empresas de mídia social obtêm insights profundos sobre as características psicológicas dos usuários”.

Neste sentido, o TikTok pode ser considerado o produto mais representativo e avançado das mídias sociais, obtido a partir do comportamento diário dos usuários na internet e nos smartphones. Quanto mais você usa, mais eles conhecem você, mais você receberá o que lhe atrai, mais você ficará engajado. No fim, você acaba despendendo mais tempo do que o pretendido – e desligar não será uma opção considerada. O TikTok foi feito para viciar.

O uso compulsivo de um aplicativo como esse não está essencialmente ligado ao conteúdo distribuído. As informações veiculadas podem ser engraçadas, inúteis, criativas ou importantes – seu efeito não está essencialmente aí. Todo o conteúdo criado e distribuído no TikTok poderia, muito bem, ser distribuído em outras plataformas. A diferença está na forma com que é feito nesse aplicativo – vídeos rápidos, em fluxo contínuo e de alto engajamento. A concentração é requisitada em doses de spiccato, de 15 a 60 segundos, igual a uma mordida, dentro de uma timeline personalizada e de rolagem infinita. A atenção do usuário é mantida em uma constante sensação de novidade e curiosidade sobre o que aparecerá.

O TikTok não foi feito para o usuário ter longos períodos de concentração. Trata-se do paradoxo da atenção: o aplicativo prende a atenção para quebrá-la. Agora, você consegue imaginar o que um hábito como esse pode causar em um indivíduo de 13 a 17 anos, que dedica 2 a 4 horas diárias a este tipo de concentração fragmentada?

Em um estudo publicado em 2019, na Nature Communications, pesquisadores alemães e dinamarqueses concluíram que o tempo de atenção média dos usuários de redes sociais está diminuindo coletivamente devido à rapidez das informações distribuídas e consumidas. Outras pesquisas neurológicas já demonstraram que muitas práticas e ações frequentes, dentro de determinados ambientes, podem alterar as redes neurais do cérebro, criando hábitos rígidos e comportamentos difíceis de serem alterados – para o bem ou para o mal. Se um indivíduo tem o hábito diário de desafiar sua resistência física, com o tempo seu cérebro irá se habituar a resistência com maior facilidade; seus gatilhos mentais o levarão a ter maior facilidade em ser uma pessoa resiliente. O mesmo processo pode acontecer com um indivíduo que tem o hábito compulsivo e diário de estar conectado às mídias sociais por horas ou de assistir continuamente muitos vídeos rápidos, como no TikTok – sua capacidade de concentração e atenção prolongada irá diminuir, pois sua mente estará sendo treinada diariamente a ter curtos períodos de concentração. As consequências podem ser vistas na impaciência dos usuários diante de atividades mais prolongadas como ler um livro, ler textos longos na internet, assistir um filme inteiro, assistir a uma palestra ou, especialmente entre os jovens, assistir atentamente a uma aula de 50 minutos.

Em 2010, Steve Jobs revelou a um jornalista do New York Times que seus filhos nunca haviam usado iPad, sua própria invenção. Em 2018, Bill Gates admitiu que tinha severas regras de tempo para os filhos usarem tecnologia. Chris Anderson, antigo editor da prestigiada revista de tecnologia Wired, afirmou que nunca permitiu seus cinco filhos usarem aparelhos com tela em seus quartos. Evan Williams, um dos sócios-fundadores do Twitter, sempre evitou dar um iPad ou celular aos seus filhos pequenos. Se os próprios envolvidos na criação da tecnologia admitem os prejuízos pelo uso compulsivo, não ser ingênuo diante da mídia de algoritmos é o primeiro passo para recuperar a capacidade de concentração profunda, que tanto fez bem à humanidade. E se você leu até aqui, parabéns e obrigado.

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Colunista da Lócus publica livro voltado para o público infantil

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O lançamento ocorrerá dia 17/04, das 16h às 17h30, pela plataforma Zoom. O ingresso poderá ser adquirido na plataforma Sympla e dará direito a um exemplar da obra e acesso a live de lançamento.

A educação familiar tem ganhado espaço nos últimos anos no Brasil, assim como a busca por materiais adequados e boa literatura para as crianças. Nesse contexto está o lançamento do livro O Tomatinho no Jardim, obra de autoria de Cidney Junior e Bernardete Surdi. Trata-se de um poema narrando a jornada de uma avó que ensina o neto curioso a plantar, cuidar e agradecer ao ver o pé de tomate crescer. O livro, voltado para o público infantil, será publicado pela Editora Giostri.

O lançamento ocorrerá dia 17/04, das 16h às 17h30, pela plataforma Zoom. O ingresso poderá ser adquirido na plataforma Sympla (acesse aqui) e dará direito a um exemplar da obra e acesso a live de lançamento.

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Cancelando Beethoven: ingleses querem descolonizar os currículos de graduação em Música

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Segundo os envolvidos, o repertório clássico estudado em Oxford, abrangendo de Mozart a Beethoven, estaria dando muito foco a “música europeia branca do período escravo”. Além disso, outra proposta de reforma seria repensar os estudos sobre notação musical ocidental, por tratar-se de um “sistema representacional colonialista”.

É possível que estejamos num período de declínio de nossa civilização ocidental. Provas disso podem ser encontradas na frequência com que, nos últimos dois séculos, nossos componentes civilizacionais mais valiosos (religião, língua, estrutura familiar e cultura) são atacados ou desconstruídos.

Recentemente noticiado pelo jornal The Telegraph, estudantes e integrantes do corpo docente da Universidade de Oxford, na Inglaterra, propuseram reformas para “descolonizar” os currículos de graduação em Música, buscando “diminuir a hegemonia da cultura europeia branca”. Segundo os envolvidos, o repertório clássico estudado em Oxford, abrangendo de Mozart a Beethoven, estaria dando muito foco a “música europeia branca do período escravo”. Sim, você leu isso mesmo. Além disso, outra proposta de reforma seria repensar os estudos sobre notação musical ocidental, por tratar-se de um “sistema representacional colonialista”. Essas propostas ocorreram depois da pressão dos protestos realizados pelo movimento Black Lives Matter, em junho de 2020, em Londres. Por que essas reformas e acontecimentos merecem a nossa atenção? Porque são movimentos na superfície de tormentas mais profundas e catastróficas.

Se você já ouviu palavras como partitura, clave de Sol, bemol ou sustenido, então já ouviu algo sobre notação musical. É o sistema de escrita gráfica para registrar músicas e sons. Civilizações diferentes possuem formas diferentes desse registro. As raízes da notação musical no Ocidente remontam ao século VI, com as obras do filósofo Boécio introduzindo os estudos pitagóricos sobre as relações numéricas da música no mundo medieval. Mais tarde, o Papa Gregório I fundou a chamada Schola Cantorum, instituição que aprimoraria cada vez mais a notação, desenvolvendo o conhecido Canto Gregoriano. 350 anos depois, o italiano Guido D’Arezzo desenvolveu o solfejo, a arte de ler as notas em sequência em uma partitura. Esses sistemas seriam aprimorados cada vez mais com os compositores barrocos e renascentistas, estabelecendo as bases da arte musical do Ocidente. Não é difícil perceber que suas origens são anteriores ao período colonial ou do início do comércio de escravos africanos para as Américas. Então por que desconstrui-la ou bani-la sob o argumento de ser um “sistema representacional colonialista”?!

E quanto a Mozart ou Beethoven serem a expressão da “música europeia do período escravo”? Basta vasculhar algumas biografias desses compositores para perceber a ausência de pretextos escravagista ou colonialista como motivação de suas obras. Sob o argumento de tornar os currículos mais inclusivos, rebaixam-se grandes clássicos a meras expressões locais. Nada mais nefasto para a alma humana.

Conquistas civilizacionais sobre a arte, cultura, filosofia e espiritualidade são expressões de valores universais. Elas ultrapassam o momento histórico, as circunstâncias políticas e as modas do momento em que nasceram. Esses componentes elevados possuem universalidade porque atingiram verdades sobre a realidade e a alma humana. Homero, Dante, Shakespeare, Michelangelo, Bach, Beethoven não falaram ou compuseram apenas para os homens de seu tempo, mas para os de todos os tempos.

Otto Maria Carpeaux, um indubitável conhecedor da cultura ocidental, em sua Uma Nova História da Música (1977), afirmou claramente:

A arte de Beethoven é o maior documento humano em música. Se desaparecesse do nosso horizonte espiritual, a humanidade teria deixado de ser humana. Estão indissoluvelmente ligados o destino da música beethoveniana e o destino da nossa civilização”.

O revisionismo histórico, cultural e artístico impulsionado por agendas ideológicas revolucionárias, promovem um grande declínio espiritual ao reduzir as mais elevadas conquistas civilizacionais (entre essas conquistas, a própria Universidade onde os ativistas fazem barulho) como meros produtos elitistas ou supremacistas. Reduzir a cores aquilo que é universal é demonstrar um horizonte de consciência muito limitado.

O que está em jogo não são apenas discussões sobre música, compositores e currículos universitários. O que está em jogo é o destino espiritual da nossa civilização. A invasão vertical dos bárbaros está em pleno vapor. Desconhecer o que está se passando nas estruturas fundacionais que permitiram sermos o que hoje somos é dar espaço a uma destruição irreversível. Para que o mal triunfe basta que os bons fiquem de braços cruzados. Porque no final, com dizia Martin Luther King, nossas vidas começam a terminar no dia em que permanecemos em silêncio sobre as coisas que importam.

*Cidney Antonio Surdi Junior

Professor e pesquisador na área de história da educação, filosofia e cultura. Criador do canal Filosofando Podcast e pai do Dante.

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