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Lócus relembra as diferenças entre as manifestações públicas dos últimos anos em Passo Fundo

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Nos últimos trinta anos, a maior parte das manifestações sociais que ocorreram em nosso país foram organizadas e promovidas por sindicatos ou entidades de classe, que tem como função representar determinadas categorias profissionais. Geralmente os motivos são de ordem financeira – ou por maiores salários ou contra cortes em benefícios.

Em 2013, no entanto, algo mudou no Brasil. Houve manifestações populares contra o reajuste nas tarifas de transporte coletivo – pauta que depois se transmutou em pedidos para saúde e educação “padrão Fifa”, fim da corrupção, desmilitarização da polícia, dentre outros temas de ordem local.

Passo Fundo também teve seus protestos. Naquela época, houve manifestações no centro da cidade, com caminhada até os portões da prefeitura e o plenário da Câmara de Vereadores. A maior parte dos participantes foi composta por estudantes, seguindo a conclamação das lideranças que mantinham um discurso contra as empresas do transporte coletivo da cidade e ostentavam o slogan “não é só por 20 centavos”.

Dois anos depois, outro grande movimento popular ganhou as ruas e, desta vez, os destaques foram as cores verde e amarelo usadas pelos manifestantes, e não mais as bandeiras ideológicas que criticam o lucro das empresas. Os atos que pediam o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff e que apoiavam a Operação Lava Jato  reuniram milhões de pessoas por todo o Brasil e surtiram o efeito desejado, visto que o afastamento de Dilma ocorreu no ano seguinte, em 2016. Novamente, Passo Fundo teve suas atividades, mas desta vez organizadas por um grupo de pessoas não vinculado a entidades sindicais ou partidos políticos.

Em 2015, "Fora Dilma" reuniu milhares de pessoas em Passo Fundo (Rádio Uirapuru)

Em 2015, “Fora Dilma” reuniu milhares de pessoas em Passo Fundo (Rádio Uirapuru)

Assim, é possível perceber duas vertentes na forma da organização de protestos populares no Brasil. Há os liderados por entidades como sindicatos e suas centrais que reúnem seus filiados, e há aqueles que surgem de forma espontânea e que congregam não somente uma classe profissional, mas sim membros da sociedade civil.

Sem sindicato, caminhoneiros pararam por sua própria vontade

Caminhoneiros aliaram-se às manifestações, ainda em 2015, deixando as prateleiras dos supermercados vazias, corroborando com o coro daqueles que já percebiam a delicada situação política e econômica que o Brasil enfrentava.

O que se evidencia quando o assunto é a paralisação dos motoristas de caminhão, pelo menos em âmbito regional, é a organização do grupo, que independe de sindicatos ou entidades representativas. As mobilizações são combinadas diretamente entre os próprios caminhoneiros e, em cada cidade onde ocorrem protestos, surgem lideranças espontaneamente. Em Passo Fundo, quem ocupa o posto é André de Castro Silva Pretto: “Sou líder dos caminhoneiros de Passo Fundo há quatro anos. Todas as ações são organizadas por mim. A gente toma a frente porque o sindicato que deveria nos representar não é atuante”, afirma.

Segundo Pretto, os motoristas mais proativos tomam a frente e organizam os atos. “Existem algumas pessoas que puxam para si a liderança. Eu fiz isso em Passo Fundo, assim como tem outros colegas nas demais cidades”, revela. Mesmo assim, muitos caminhoneiros não aderem às paralisações. Pretto destaca que “tem uma grande quantidade de colegas que não param. E não é porque eles não são solidários com o movimento, mas sim porque estão envolvidos em uma situação financeira terrível, devendo para muita gente, muitos chegando em casa sem dinheiro nenhum e precisando de ajuda financeira para manter a família”.

Também há muitos motoristas que não se unem às paralisações pois não veem resultados práticos, e tornam-se descrentes aos efeitos dos movimentos. Outros chegam a realizar atos extremos, como obstruir rodovias, ação condenada por Pretto. “Sempre tem alguns radicais, tem colegas que perdem a cabeça. Nas nossas organizações pelo menos tentamos manter a linha de conduta de fazer paralisação sem queimar pneu em pista, sem paralisar automóveis e ônibus. Temos que ser vistos para que o governo não se esqueça das nossas pautas importantes”, diz.

Em janeiro de 2017, houve nova paralisação, não tão grande quanto a de 2015. No entanto, as mobilizações, especialmente as realizadas no Mato Grosso e no Rio Grande do Sul, surtiram efeitos, com a confirmação da redução do preço dos combustíveis nas refinarias. Para ele, a mobilização da população, cobrando ações eficientes por parte dos governantes, serve para pressionar quem administra a coisa pública. “Muitos governos mal administrados e gananciosos simplesmente para tapar furo de suas incompetências, jogam aumentos atrás de aumentos para a população toda, não somente para os caminhoneiros”, afirma.

Greve anual surte efeito?

Os bancários formam um grupo que paralisa todos os anos as suas atividades. Só em 2016, foram 31 dias de greve em Passo Fundo.

Mas por que os bancários, categoria que já foi considerada das mais privilegiadas entre os trabalhadores brasileiros, realizam greve todos os anos? Esse repetido movimento alcança seus objetivos? Qual é o impacto das frequentes paralisações junto aos clientes e a sociedade?

Segundo o Sindicato dos Bancários de Passo Fundo e Região, o índice de reajuste obtido após a greve não cobriu a inflação. Mesmo assim, na avaliação da entidade, o movimento foi vitorioso. “Avaliamos que, diante da conjuntura político-econômica que o país vivia e dos fortes ataques contra o seu direito de fazer greve, a categoria mostrou grande capacidade de resistência, mantendo a greve por nada menos que 31 dias”, declara a diretoria do sindicato através de entrevista por e-mail. “Há também o fato, positivo, de que a Convenção Coletiva de Trabalho, assinada com a validade de dois anos, prevê, para o período de 2017 a 2018, um índice de reajuste superior à inflação”, destaca o texto.

De acordo com o sindicato, em Passo Fundo, são aproximadamente 700 bancários e houve adesão à greve de 90% dos que trabalham em bancos privados e de 50% daqueles que atuam em bancos públicos.

Conforme a entidade sindical, o movimento exigia reposição salarial de 14,78% e o reajuste alcançado depois dos 31 dias paralisados foi de 8%, além de abono de R$ 3,5 mil, correção de 15% no vale-alimentação e 10% no vale-refeição e no auxílio creche/babá. O acordo ao final da greve também previa reposição integral da inflação mais 1% de aumento real em 2017.

Um dos integrantes da diretoria do Sindicato dos Bancários de Passo Fundo, Nelson Fazenda, explica que com essas decisões é possível que não ocorra greve neste ano. “Mas nada que, daqui a pouco, pela conjuntura a inflação esteja corroendo o salário e a gente se obrigue a discutir tudo de novo”, afirma.

A repetição anual de greves e o movimento extenso como o de 2016 fizeram com que as pessoas se obrigassem a utilizar os serviços bancários via internet ou nos caixas eletrônicos para quitarem seus compromissos. Surge então um paradoxo: a greve, que deveria somente beneficiar o profissional, acaba fazendo-o parecer desnecessário para executar o serviço, que pode ser realizado por meios eletrônicos. Assim, ao mesmo tempo em que as greves pressionam os bancos, acabam atraindo para si o descontentamento por parte da sociedade, que vê as agências fechadas e os funcionários parados, e cria a imagem de que os bancários já não são necessários.

Quando a manifestação desagrada

Em regra, atos promovidos por sindicatos ocorrem em dias úteis, a fim de congregar o maior número possível de participantes que estão em seus horários de trabalho. Um desses episódios ocorreu em março, quando diversos sindicatos promoveram um dia de paralisação no centro da cidade. As atividades iniciaram antes das 6h da manhã, reunindo profissionais que atuam em empresas do transporte coletivo de Passo Fundo, na tentativa de convencê-los a aderirem à paralisação, que tinha como pauta rechaçar a reforma da previdência. A narrativa dos sindicalistas foi aceita e, naquele dia, pouquíssimos ônibus saíram das garagens, deixando muitas pessoas desassistidas em relação ao transporte público.

Tal fato atraiu para o protesto a indignação da população passo-fundense, pois não houve um comunicado prévio de que os ônibus não circulariam. Depois, ao longo do dia, a avenida Brasil foi obstruída por diversas vezes pelo grupo de cerca de 800 pessoas, reforçando o descontentamento do cidadão em relação à atividade. Esse tipo de atitude provoca uma contenda entre pessoas da mesma comunidade e, de forma prática, enfraquece o discurso de que a luta é pelo direito de todos. Como alguém pode lutar pelo meu bem ao mesmo tempo em que me prejudica? O “barulho” foi feito, mas fica em aberto a avaliação sobre a eficácia do protesto em relação ao seu objetivo, de frear a reforma da previdência que tramita em Brasília.

Portanto…

O fato é que as manifestações públicas são legítimas e servem como forma de demonstrar a rejeição ou o apoio dos cidadãos em relação a algum tema específico. Na observação empírica, conclui-se que os protestos ou greves rotineiras caem no descrédito das pessoas, justamente pela perda do seu caráter excepcional. Basta o leitor relembrar da expressão mais ouvida quando se noticia greve dos professores estaduais, por exemplo: “de novo?”. E é assim em todos os anos.

A título de comparação, a paralisação dos caminhoneiros realizada em 2015, embora tenha deixado muitos mercados desabastecidos de produtos por alguns dias, teve o apoio de grande parcela da população, pelo menos em Passo Fundo. Na manhã em que os motoristas cruzaram a avenida Brasil de ponta a ponta, a recepção do povo foi com aplausos e incentivo, visto que o motivo do protesto era considerado justo.

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